Todas as possibilidades de convivência das diversas formas de vida na Terra. A relação humanos - Terra. A relação humanos - humanos. A relação humanos - outras espécies.
O conceito de nacionalismo serviu historicamente o poder e permitiu a delimitação de fronteiras. Mais recente, o conceito de multiculturalismo serviu para promover a coexistência pacífica de diferentes culturas sem que se exija a cada uma a perda da sua identidade cultural, e até indicando as vantagens da sua interacção. Contrapor nacionalismo e multiculturalismo sempre foi um falso dilema. Podemos desmontá-lo ao desmontar os próprios conceitos e ao identificar as suas bases. O nacionalismo entendido como: - delimitação territorial de um determinado país, é definido hoje como soberania nacional e a questão prende-se com a política e a economia; - preservação de identidade cultural não tem qualquer base histórica, pois a própria cultura de um país já é uma mistura de muitas culturas diversas (Portugal é um óptimo exemplo disso). Trata-se, assim, de querer congelar o tempo num determinado período histórico, com os seus símbolos e valores, e tudo pelo poder e influência. - defesa étnica, à flor da pele, é uma recusa do contacto com populações de outros continentes, mas este facto nunca é afirmado abertamente. E será que as sociedades multiculturais são uma novidade histórica? Não coexistiram no médio oriente diversas tribos num mesmo espaço territorial? É o que nos dizem os historiadores em documentários. Mesmo que existisse uma estratificação social, a coexistência era pacífica. Cidades como Alexandria, culturalmente e cientificamente inovadora, não era uma sociedade multicultural? Atenas, não era uma sociedade multicultural? E saltando para o séc. XX temos Paris no seu apogeu desde o final do séc. XIX, Londres a partir dos nos 70, Berlim depois dos anos 90. Na América, Nova Iorque e São Francisco, dois exemplos de inovação cultural. Mas podemos impor aos cidadãos que querem viver num determinado tempo histórico (os anos 60 franceses, os anos 70 ingleses, os anos 80 americanos, por exemplo), que se adaptem ao séc. XXI? Não, nem sequer é necessário. É que a questão não é sequer social, é política e económica. É essa a confusão. Foi o thatcherismo que atirou o Reino Unido para o Brexit ao esquecer a maior parte dos seus cidadãos, não os imigrantes. Foi a má gestão política e económica da UE que deu fôlego ao nacionalismo de Le Pen, não os imigrantes ou os refugiados. E foi Wall Street, um sistema financeiro desregulado e a globalização que atiraram parte da América, que vivia da indústria, para os braços de interesses de grupos internacionais de agenda desconhecida, não os imigrantes latinos.
Depois de desmontado o falso dilema, a equação que fica é a da identificação cultural - colaboração - inovação cultural. Identificação cultural: hoje podemos escolher a cultura que melhor ressoa nos nossos neurónios e nas nossas emoções e afectos. Não estamos limitados a uma única cultura e forma de ver o mundo ou lidar com os outros. Colaboração: podemos todos coexistir na mesma casa, o planeta, na base do respeito mútuo. Há lugar para todos, desde que respeitados estes princípios: a universalidade dos direitos humanos em primeiro lugar; a delimitação territorial, que pode ser negociada mas não decidida unilateralmente; os acordos ambientais, cujo não cumprimento deve ser fortemente penalizado. Inovação cultural: estamos sempre a aprender com a interacção, a cultura é movimento.
Elysium não nos surge com um filme preocupado com a linguagem cinematográfica mas com a mensagem. E a mensagem é directa, clara, forte:
- as questões ambientais: uma Terra devastada, árida, poluída, de cidades sem as condições básicas da vida: qualidade do ar e da água, da habitação, de higiene, de saúde, da educação, do trabalho. As cidades são caóticas, o pó eleva-se nas ruas, imaginamo-nos numa zona esquecida de um país da América do Sul;
- a distância enorme entre os muito ricos (muito poucos) e os muito pobres (todos nós), entre o céu (Elysium) e o inferno (a Terra);
- a questão dos refugiados (todos nós);
- a cidadania, o acesso à saúde e à qualidade de vida (dos muito poucos);
- as novas tecnologias ao serviço dos cidadãos (os muito poucos);
- as indústrias poluentes e tóxicas (a operar na Terra);
- os terroristas, aqui ao serviço do poder (informal, não reconhecido oficialmente) de Elysium;
- os hackers, que aqui funcionam como agentes libertários e com consciência humana.
Os momentos mágicos do filme coincidem com o seu início e o fim, precisamente, e isto é raro nos filmes actuais que começam inspirados e acabam na mediocridade. Isso não acontece aqui. Um miúdo sonha um dia ir para lá, Elysium (o céu) e já lá, é essa a última imagem que o cérebro retém, e a premonição da personagem maternal: Vais fazer alguma coisa de extraordinário no mundo.
Outro recurso do filme que funciona muito bem, as línguas e os sotaques das personagens, a corresponder à cultura de base que representam:
- A Secretária de Defesa (responsável pela protecção de Elysium) é francesa, remetendo-nos de imediato para a cultura da elite dos muito ricos em França (divisão, classismo, preconceito, ausência de empatia e de consciência humana);
- a personagem maternal (freira) é sul americana, representando aqui o afecto, a empatia, a cultura comunitária e de colaboração;
- o nosso herói é um americano que absorveu a cultura de cidadão, sem saber que essa cidadania não serviria na sua pele de rebelde;
- o terrorista que executa serviços não oficiais para a Secretária de Defesa parece de origem boer (África do Sul do Apartheid) a que se junta uma miscelânea de línguas e sotaques dificilmente identificáveis;
- os hackers são internacionais e aqui surge-nos uma cultura mista de sobrevivência oportunista (preparam, e lucram com isso, viagens clandestinas de refugiados, pagas a peso de ouro, para Elysium).
Implícita fica outra mensagem, uma crítica à cultura pueril e profundamente egoísta dos cidadãos de Elysium: as casas reproduzem as mansões das celebridades actuais, com as suas piscinas, a suas amplas entradas, uma excentricidade imoral em termos de espaço e gastos energéticos. A sua vida quotidiana parece resumir-se a actividades de lazer, financiada com o trabalho dos refugiados (na Terra) e dos robots e das novas tecnologias, como a máquina da saúde (no céu). Esta visão de gente inútil e superficial contrasta, como um grito, com os hospitais da Terra sem condições nem pessoal, as fábricas sem protecção nem segurança, o desespero dos viajantes clandestinos, as crianças a correr nas ruas poeirentas.
Matt Damon é um dos poucos actores americanos que dá credibilidade e verosilhança ao papel do homem comum, o cidadão do mundo com que nos podemos identificar. Talvez porque seja essa a sua natureza, a que se sobrepõe à personagem, uma consciência humana, inteligente, rebelde, interventiva.
Double bind foi o que primeiro me ocorreu a propósito do filme Baby the rain must fall. Double bind, uma forma de colocar alguém sem uma alternativa viável. Exactamente o que está a ser aplicado na Grécia. Aqui também estivemos subjugados ao double bind da austeridade, da ausência de alternativa. A circunstância feliz dos partidos de esquerda ultrapassarem as suas divergências e encontrarem objectivos comuns é que abriu essa prisão. Espero que também surja uma alternativa para a Grécia, entalada no double bind europeu e na vertigem de auroras douradas. Um povo que aturou placidamente a humilhação da finança. Um povo que escolheu a Europa e o euro mas numa verdadeira cultura europeia. Um povo que recebeu milhares e milhares de refugiados apesar da sua situação precária.
- não ter as preocupações e responsabilidades de um adulto;
- apesar de tudo prefiro ser adulto;
- poder fazer birras."
A minha opção é claramente "apesar de tudo, prefiro ser adulto". Comigo estão apenas 4% de outros adultos. Pelo mens, até agora.
A infância é, sem dúvida, a melhor fase das nossas vidas, porque é determinante. Tudo é vivido mais intensamente, os sons são mais fortes, as cores são mais brilhantes, o riso é genuíno, assim como o sorriso, a alegria, mas também a tristeza, a dor, a impaciência, a frustração.
É preciso ter sorte para ser uma criança razoavelmente feliz, não ter nascido num país em guerra, ou afectado pela austeridade financeira, ou num ambiente conflituoso, ou numa comunidade hostil. E mesmo com sorte, todos os cuidados não são demais. Sem se cair na superprotecção, estar atento e vigilante.
Exercer a autoridade não é moldar uma criança a um formato social ou aos seus próprios objectivos. Quanto melhor tiverem resolvido esse conflito essencial com os próprios pais, melhores pais serão. Como é a vossa criança? É que cada criança é uma unidade complexa a aprender rapidamente a viver no mundo, e todas são diferentes. Mesmo os irmãos são todos diferentes. A forma como se lida com cada um também se deve adaptar a cada um. Pode exercer-se a autoridade de forma firme com um e pode ter de se explicar tudo muito bem a outro até ele compreender.
Aceitar a sua criança com as suas próprias características é respeitá-la, amá-la incondicionalmente, ajudá-la e desafiá-la num ambiente ameno e acolhedor. A sua criança irá ter desafios pela frente, viverá o medo, a angústia, a insegurança, o stress. Saber que tem uma base de apoio em casa é a melhor fonte de energia e de coragem para enfrentar esses desafios.
E é aqui que tudo se complica para uma criança. Está no auge da sua inteligência, da sua capacidade de aprender coisas novas, de criar, de inventar, e está sujeita a situações que a vão condicionar e limitar. Enquanto um adulto se pode defender do bullying ou da humilhação por exemplo, uma criança pode ficar traumatizada para sempre.
Será o mundo actual amigo da infância? No geral, não é. Podemos pensar que já foi muito pior no passado, sem dúvida. E não é preciso recuar muito. A revolução industrial já bastaria para a nossa comparação, o trabalho infantil, a fome, as doenças. Mas não é essa a comparação necessária. A comparação honesta e responsável só pode ser com a carta dos direitos da criança.
E aqui, caros Viajantes, chegamos à conclusão que, apesar dos progressos sociais, da saúde, da educação, as nossas crianças não estão devidamente protegidas. O exemplo dos refugiados é gritante. Se não fossem os italianos e os gregos, como teria sido a sobrevivência de tantas famílias a fugir da guerra? Assim como a austeridade recente, ao menor desequilíbrio financeiro, e debaixo de governos-troika como o anterior, as famílias viram-se desapossadas do seu rendimento e da sua vida organizada, quantas das suas casas, e muitas tiveram de emigrar.
Relatórios revelam que as crianças e os velhos são os mais vulneráveis em situação de crise económica. Precisamente os grupos que deveriam ser mais protegidos. É por isso que não podemos deixar de desejar que lideranças culturais como o Papa Francisco sejam ouvidas. Post publicado n' As coisas essenciais.
O Partido Pirata tornou-se um franchizing político: Suécia, Berlim, Islândia. Democracia baseada na transparência, no empowerment dos cidadãos, na participação, nas redes sociais. É, sem dúvida, uma cultura política do séc. XXI. Em Londres ganhou o Labour Party. Estas são as boas notícias da Europa. As más aí vão: A Europa deu argumentos ao PM da Turquia para a acusar de "cruel" ao "fechar as portas aos refugiados". A Grécia não consegue a compreensão do Eurogrupo, nem depois de ter acolhido milhares e milhares de refugiados apesar da sua situação económica precária. Verifica-se um ressurgimento preocupante da extrema-direita nos países do norte e centro e, a sul, na Grécia. A Espanha vai ter de repetir eleições. Obama vem ao Reino Unido e traz o TTIP na pasta. Ricardo Paes Mamede lembrou no Números do Dinheiro desta semana os benefícios da integração europeia em programas como o Erasmus e os subsídios para a investigação. Mas logo depois lembrou o caminho escolhido pelas instituições europeias, sobretudo a partir da crise financeira de 2008. Ninguém revelou muito entusiasmo a falar da Europa na televisão. A Europa política, económica e financeira, o projecto inicial de colaboração entre os países, tudo isso foi adulterado pelos tecnocratas e pela finança. E os políticos foram atrás. Claro que todos juntos somos mais fortes. E que seria óptimo ver o projecto original a desenhar-se de forma saudável. Mas o que vemos é um edifício metálico à prova de informação e transparência. Trata-se de um poder centralizado que não responde perante instituição alguma. Apesar de ter um parlamento.
Talvez porque tenhamos vindo de todo o lado, do norte, do sul, do oriente, trazemos connosco muitos povos e muitas culturas. Nada nem ninguém nos é estranho, encontramos logo um modo de comunicar. Isso verifica-se nos documentários sobre os nossos contingentes em missões de paz ou agora nos resgates marítimos de refugiados, e nos programas sobre os portugueses no mundo ou dos jovens que criam startups e aplicações. Movimentamos-nos no mundo com à vontade, partilhamos ideias e projectos, a nossa cultura universal é a mesma do séc. XXI. Estamos, pois, bem posicionados para ajudar outras culturas mais fechadas a abrir as suas fronteiras mentais e a ver o grande plano onde tudo se movimenta e encontra o seu equilíbrio. A possibilidade de virmos a ter um português na ONU é, neste sentido, uma oportunidade única de colocarmos a nossa cultura universal ao serviço dos direitos humanos universais. Que a nossa alma universal consiga, igualmente, criar dentro de portas esse movimento e equilíbrio que ajuda a criar no mundo.
As minhas viagens realizaram-se através dos filmes e dos livros. Digamos que da família sou a menos viajada. Construí uma imagem dos países e das regiões através do Atlas e dos seus escritores e realizadores. É assim que conheço bem a geografia das montanhas e das planícies da América, a costa escarpada e a relva pontilhada de pedras da Irlanda, as árvores muito antigas em campos muito verdes da Inglaterra, as casas francesas com jardins onde há sempre uma mesa à espera da família e dos amigos, os palazzos italianos e as estradas ladeadas de ciprestes, os subúrbios das cidades e os pueblos de Espanha. A geografia da alma também se revela através dos escritores e realizadores. A Suécia, por exemplo, é para mim a Suécia de Ingmar Bergman: limpa, fria, minimalista, sóbria até nas emoções, mesmo que rodeada de flores no Verão. A beleza da sua alma está na revelação da verdade sem rodeios. E bastam duas ou três frases para dizer tudo. Ou apenas um gesto, ou uma expressão facial. Liv Ullmann é o seu rosto. Mas a Dinamarca, a Dinamarca para mim é a Dinamarca de Hans Christian Andersen.
De que matéria é feito o primeiro - ministro desse reino da Dinamarca que propôs a lei da espoliação dos que fogem da guerra? Será que este exemplar é uma parte da geografia da alma da Dinamarca? É que não vi nenhum movimento de dinamarqueses revoltados com esta lei. Espero que os refugiados consigam mudar a rota da sua travessia ao frio e à neve, que se consigam desviar desse reino onde já não há alma nem coração.
No primeiro dia do ano este balanço dramático. Como é possível? As zonas de conflito continuam a alastrar-se como enormes feridas abertas. Enquanto as populações sofrem, há quem alimente a destruição e ainda lucre com a sua desgraça. A paz, palavra repetida nas negociações da ONU, continua a ser desprezada relativamente aos interesses económicos e/ou estratégicos. A vida humana começa a perder o valor que tinha adquirido na história recente. Tudo é avaliado em termos estratégicos e de interesses ocultos. Tudo é triturado, ossos e sangue, na máquina infernal do calculismo do poder e do lucro. O mais comovente dos vários documentários que descobri no youtube é ver como os refugiados são recebidos e acolhidos nos países fronteiriços e em aldeias perdidas nas montanhas, enquanto na Europa se verifica uma incapacidade de lidar com estes fluxos migratórios.
As palavras tornam-se insuficientes para descrever o que nos rodeia. Como falar, por exemplo, dos 50 milhões de refugiados actuais, das crianças da América latina à procura de uma vida melhor, do reacender do conflito no médio oriente, da situação desesperada do Iraque? Para nos calarmos de vez só nos faltava uma situação crítica no sistema financeiro português. É deprimente pensar que vivemos num país sem supervisão bancária e sem prevenção de problemas que podem comprometer a tal recuperação económica. Como fica a tal prioridade da imagem de credibilidade do país, em nome da qual provocaram a maior recessão de que há memória, a emigração em massa, o retrocesso de décadas? Em apenas duas semanas o sistema tremeu e com ele a credibilidade do país. A opção do governo foi clara: penalizar o trabalho e ser condescendente com a finança. Num sistema saudável e equilibrado promovia-se o trabalho e supervisionava-se a banca. O Banco de Portugal falhou, o governo falhou e a Europa das estrelinhas também. Faltam-nos lideranças responsáveis, programas eficazes, projectos exequíveis. E regras universais que permitam o equilíbrio, a estabilidade e a confiança.
Começamos a percepcionar à nossa volta um novo mundo que começa a sobrepor-se ao que nos têm imposto como único. Este novo mundo está já a alterar as nossas vidas e a lógica de certas áreas de actividade. Também se alteram as relações entre produtor e consumidor. Assim como o equilíbrio global - local, corporações - comunidades, instituições - indivíduos. Todas estas alterações terão um impacto na economia, na finança, na política, as áreas onde o poder se tem concentrado. E no entanto, estas áreas onde o poder se tem baseado mantêm a sua lógica obsoleta e um discurso desfasado da realidade actual, insistindo que somos nós que temos de nos adaptar.
No nosso país, por exemplo, esta desfocagem do essencial e da realidade que já nos estrutura hoje, revela-se dramática porque estamos a esgotar um tempo precioso, uma janela de tempo que se encurta a cada dia que passa. O tema actual no país é, compreensivelmente, o balanço de 40 anos do 25 de Abril, até porque se verifica uma distância cada vez maior partidos políticos - cidadãos eleitores. A democracia vive aqui tempos de uma fragilidade enorme em termos de representatividade e legitimidade. Um dos nossos especialistas na Constituição, Freitas do Amaral, aponta mesmo para a necessidade de se formarem novos partidos, para se recriar um novo sistema democrático representativo. Já poucos acreditam que os actuais se consigam reformar por dentro. Nesta nova tendência da descentralização, vemos em contra-mão a UE, uma organização pesada, complexa, burocrática, que também se distanciou dos cidadãos europeus e que sempre evitou dar-lhes voz em questões fundamentais. Agora depara-se com o preocupante cenário do ressurgimento de extremismos políticos. Um novo equilíbrio instituições - cidadãos vai implicar necessariamente uma mudança na UE e no euro. Menos poder centralizado em gabinetes, aliás menos gabinetes e menos funcionários, mais flexibilidade e proximidade com os países, regiões, comunidades. A relação entre países e regiões só pode melhorar com uma descentralização progressiva. Portanto, não são os cidadãos que se terão de adaptar ao mundo que nos querem impor, dos mercados, dos grandes bancos, dos grandes grupos económicos, das troikas e dos governos que lhes prestam vassalagem. São precisamente esses grupos que se terão de adaptar ao novo mundo que já nos rodeia. Agrada-me pensar que o novo mundo descentralizado, de pessoas e comunidades ligadas em tempo real, permite maior capacidade de cada um organizar a sua vida de forma satisfatória e gratificante. Visualizo esse novo mundo potencialmente inclusivo, na lógica da colaboração e partilha. A minha esperança baseia-se na constatação que as pessoas comuns se relacionam melhor entre si do que as instituições e corporações. Posso destacar vários exemplos que propositadamente vou seleccionar à área da filantropia. Porquê? Porque a lógica do mundo que nos querem impor está de tal forma impregnada culturalmente que até nesta área da beneficência, fazer o bem digamos assim, mantém-se uma espécie de propaganda e marketing, mas também de um neo-colonialismo subliminar:
Se repararmos, a palavra "pobre" estigmatiza e diminui o outro em vez de o animar e fortalecer. É a atitude paternalista de quem se dirige a alguém que precisa de ser ensinado e apoiado. Não há uma troca de experiências e sabedoria, não há uma relação entre iguais na sua condição humana. O caso dos inúmeros campos de refugiados é outra mancha na dignidade humana. Há campos que se mantêm passados muitos anos da intervenção de emergência, como é o caso do Haiti, onde muitas famílias vivem ainda em tendas e pagam renda por isso... isto é, há quem lucre à custa da manutenção de uma situação precária e frágil. Escolhi este exemplo de uma família síria apanhada numa tragédia mais recente:
O Mapa é um conto de 1997, Ano Internacional dos Refugiados, editado no antigo site Geocitiese que procurava antecipar um futuro próximo. Quando nos projectamos num futuro próximo, acabamos por antecipar algumas ferramentas que irão ser desenvolvidas: o painel de pontinhos luminosos em movimento onde a nossa personagem observa os movimentos dos refugiados em tempo real, antecipa os actuais Visualizadores de Informação que funcionam com a actualização permanente dos dados, isto é, constantemente alimentados em tempo real. Em 1997 vivia-se o fascínio dessa nova tecnologia da comunicação, a internet, mas estava-se ainda longe de prever o verdadeiro impacto que iria ter nas nossas vidas, no trabalho, no convívio social, mas também no incrível desenvolvimento da ciência e da tecnologia e no seu acesso a milhões de pessoas. Quanto aos traumas psicológicos após contacto com a violência e sofrimento, em pessoas que permaneceram em cenários de guerra e destruição, são já conhecidos. Resta saber se as terapias actuais são as mais adequadas. No conto, a personagem perde a memória, como vemos acontecer frequentemente em filmes e nas séries de televisão. Na verdade, o cérebro tem as suas próprias defesas, desliga algumas ligações temporariamente para evitar níveis insuportáveis de sofrimento.
O Mapa
GABINETE
DE ESTUDOS DOS MOVIMENTOS MIGRATÓRIOS, 2011, MARÇO
Milhões de pessoas em movimento. No mapa-painel electrónico visualizava melhor todo esse processo. Os dados eram actualizados automaticamente. O início do século iria ficar conhecido como a Época dos
Refugiados. Diferentes etnias numa amálgama confusa. Desenraizamento com tudo o
que isso implica. A morte de culturas. O seu fim definitivo.
Fizera
um estudo exaustivo das principais culturas desaparecidas. Nunca assistira
directamente a nenhum desembarque de refugiados nem visitara nenhum campo e
acreditava que essa falha podia comprometer a credibilidade do trabalho. Sempre
dera prioridade ao lado científico da coisa e às implicações sociais e
económicas.
Conseguia
projectar diversos quadros num futuro próximo. Mas não se aproximara das
situações. Os dados chegavam-lhe por computador, pedidos selectivamente. De vez
em quando, ligeiras alterações, à medida que iam sendo actualizados.
A
amiga descobrira logo desde o início este seu entusiasmo pelo estudo dos
movimentos migratórios. Fora dela a ideia de adaptar uma das divisões da casa e
construir um pequeno gabinete. Primeiro tinha sido a vez dos Receptores de
Informação mais sofisticados, depois o aperfeiçoamento de programas para o
tratamento dos dados. Finalmente o mapa-painel com os seus pontos e trajectos
luminosos.
Do seu posto de observação,
designação que dera ao Gabinete de Estudos dos Movimentos Migratórios, vira
tudo isso acontecer. Do seu posto de observação isolado. Primeiro tinha
começado por estudar os movimentos migratórios do interior do país para os
centros urbanos. Tinham sido tentadas algumas medidas e estratégias de
impedimento dessa sangria, é certo. Mas o processo era já irreversível. A
descaracterização do país. O país e a sua cultura própria, sempre vistos mais
na perspectiva do espectáculo do que na sua essência. Da arquitectura ao
estilo de vida, dos valores à linguagem. Já nada era identificável como
genuíno, como característico de uma comunidade. A despersonalização em toda a
linha. A perda de uma memória colectiva. Um processo irreversível. Mas o pior
eram os movimentos migratórios originados por focos de violência e destruição.
Iniciara este estudo como sequência lógica do estudo inicial. Estes movimentos
migratórios de fuga, de uma destruição para outra forma de destruição, tinham
começado a exercer sobre si um enorme fascínio, deveria dizer mesmo
obsessão.
Receber um dia uma mensagem
electrónica. E nessa mensagem alguém dizer que se interessava imenso pelo estudo
dos movimentos migratórios actuais. Sobretudo as consequências dessa realidade,
das alterações radicais e violentas. Alguém atento aos seus textos na Internet
e que gostaria de trocar algumas ideias. No geral, uma mensagem muito
simpática. Assinada O colega.
Passar a trocar mensagens e ideias com uma
certa frequência. Encontrar finalmente um outro entusiasta da recuperação de
culturas em risco de destruição. Neste local isolado.
Hoje em dia o isolamento é muito relativo,
pensou, o melhor seria utilizar a palavra deserto. Neste local deserto, onde
quase não se vêem pessoas, encontrara uma personagem de ficção. Porque este
novo colega de investigações era mais uma personagem do que propriamente uma
simples pessoa, digamos uma pessoa próxima da realidade. Conseguia imaginá-lo
em todas as situações possíveis mas nunca em situações simples, de todos os
dias. A verdade é que sentia uma forte admiração por esta personagem. Na
comunicação era o mais lacónico possível. Reservado e sóbrio, não se encaixava
em nenhuma das características do homem actual. Enviou-lhe um dia imagens do laboratório. Na mensagem ouviu-o comentar o
mapa-painel e os seus trajectos luminosos: Parece a sinalização de um aeroporto de noite. Fascinante. É completamente
diferente dos gráficos no écran do computador. Lembram os painéis gigantes que
víamos nos filmes, naqueles postos de observação militares do século passado. A
ideia da actualização contínua e imediatamente visível é engenhosa. Não lhe dá
a sensação de qualquer coisa viva? Qualquer coisa que está a acontecer neste
preciso momento. Pessoas em movimento.
Respondera-lhe que à distância era diferente. E na
resposta ouviu a frase inquietante: Eu nunca me consegui distanciar. Esta
observação ficara-lhe registada. O estudo à distância de grupos, quaisquer que
fossem, não teria já implícita essa sua forte consciência da importância desses
mesmos grupos, mesmo na sua própria existência? Tão forte e absoluta que o
levara a dedicar a sua própria existência ao seu estudo? No fundo, esses grupos
não tinham muito mais importância do que desejaria admitir, mesmo a si próprio,
sobretudo a si próprio? Não exerciam sobre si um fascínio muito maior? Não se
rejeita o que mais nos fascina, quando nos fascina de forma tão absoluta?
Reparou então que ficara absorto no seu próprio raciocínio e não acompanhara o
colega que já mudara de tema. Ouviu a voz calma como se fosse um conjunto de
sons que começam a surgir do silêncio: Tudo passou a ser reciclável hoje em dia. As memórias colectivas, as individuais
deixaram de contar, contrariamente ao previsto, o património, os valores, as
imagens, até as pessoas.
Tentou regressar do raciocínio anterior que
ainda o incomodava e ouvir com atenção: As transformações que o tratamento de imagem passou a exigir, por exemplo.
Tornou-se cada vez mais sofisticada neste século. Os gabinetes de recuperação
de imagem cada vez mais procurados. É certo que foi uma conquista do século
passado mas é agora que vemos proliferar por aí os mutantes. E não só no mundo
do espectáculo. Na política, na ciência, na informação.
A ideia de comprometer um trabalho por ser feito à
distância começara a preocupá-lo. O seu isolamento científico, a sua protecção
da realidade. Dedicar-se ao estudo das pessoas e dos seus movimentos migratórios
e nunca ter presenciado por assim dizer nenhuma dessas deslocações. Estava previsto para breve um desembarque de um grupo numa das cidades já em
situação crítica. Tinham recebido vários grupos e esgotado todas as capacidades
de acolhimento. Cinco
horas de voo se conseguisse lugar num avião da equipa de reconhecimento e apoio
às vítimas. Uma ligação directa a um funcionário numa posição estratégica e
tudo se arranjava. A hesitação final no momento de efectuar a ligação. A decisão
fatal, pensou, enquanto fixava o painel com os trajectos luminosos e
coloridos, as luzes a piscar em locais estratégicos.
A viagem não fora tão cansativa
como tinha previsto. Tinha tido por companhia as pessoas mais estranhas. Havia
os especialistas em evacuações de emergência, com os apoios necessários para a
sobrevivência do maior número possível de refugiados. Utilizavam um discurso um
pouco hermético com siglas e termos técnicos à mistura e referências a casos
anteriores. Conheciam os meandros mais ocultos e sinuosos da política externa e
identificavam os motivos desta ou daquela medida. Previam com bastante precisão
os movimentos seguintes e planeavam as medidas estratégicas de prevenção.
Seriam completamente ultrapassados pelos acontecimentos, como mais uma vez se iria
verificar. Por falta de meios e de apoio no terreno. E pela própria dimensão
das situações de crise. Havia os especialistas de saúde, seleccionados pela
capacidade de intervenção rápida quando expostos a níveis de stress elevados e
prolongados. E militares treinados para lidar com multidões em fuga nas
situações mais precárias, com o objectivo essencial de protecção, escolha dos
trajectos mais seguros e detecção de explosivos nas vias a ser utilizadas.
Finalmente alguns especialistas de informação, com o seu linguajar irritante,
de quem se exprime para um público, de quem se preocupa com o lado espectacular
dos acontecimentos. Verificou que era o único especialista teórico, por assim
dizer. Isso começava a preocupá-lo. Como se iria adaptar à situação, à aproximação
da realidade, do facto ao vivo e no local.
A cidade
evidenciava todos os sinais possíveis da decadência e da destruição sistemática
provocada por uma guerra civil. Tudo a saque. As casas desertas, algumas quase
totalmente destruídas. O silêncio. A poeira amarela. Vagueou pelas ruas que lhe lembraram cenários abandonados de filmes antigos.
Num momento a cidade era uma coisa viva, no momento seguinte uma coisa morta. E
o pior era o esquecimento. Conhecera culturas que alimentavam as
memórias da destruição e do sofrimento a que tinham sido submetidas. É certo,
pensou, que mesmo essas culturas, que alimentavam as memórias do seu papel de vítimas
de destruição, eram as mesmas que destruíam outras culturas. Vítimas históricas
e agressoras históricas. De onde se podia depreender que é tudo uma hipocrisia
pegada. Qualquer cultura promove o seu papel de vítima e não o faz
inocentemente. Porque também tem vocação de agressor. Mas a memória era
fundamental, não para promover a supremacia de uma cultura sobre outra,
legitimar essa supremacia, mas para mostrar às pessoas essa realidade de
agressores e vítimas, essa lógica humana.
O
homem evolui no sentido da sua própria protecção e sobrevivência num mundo
hostil. Agora tudo o ameaça. Processos de destruição sistemática. E tudo à
escala mundial.
Percorreu a
distância que o separava do grupo. A mochila pesava-lhe nas costas. Aliás tudo
lhe pesava nesse dia. As imagens, sobretudo as imagens que registara. Pessoas
aglomeradas em espaços sem quaisquer condições. A subnutrição. As doenças.
Pessoas encurraladas, sem saída, sem hipótese de sobrevivência. As imagens
registadas são muito diferentes da realidade ao vivo. Vive-se numa época
em que se viram todas as imagens possíveis desse horror na televisão ou em
vídeo, mas nada se compara à realidade. Vive-se numa época de
habituação-banalização-acomodação. A violência e o sofrimento que não se vê não
existe. Para se ver a violência e o sofrimento tem de existir o espectáculo. A
informação e o seu espectáculo. Montar o espectáculo. Desmontar o espectáculo.
A Associação de Apoio à Vítima de
Desmemoriação. Esta insistência na designação de vítima causava-lhe
calafrios. Era a institucionalização de uma atitude. Só podia tornar-se a
manutenção de um cenário e, nesse cenário, de uma peça repetitiva. A representação
de um papel que se aprendeu e que se repete até à exaustão. Metemo-nos num
papel, quase sempre desconfortável, e quase obrigamos os outros a representar
também o seu papel, continuadamente. Não lhes damos grandes
alternativas, esperamos que eles representem o papel que lhes atribuímos. O jogo
dos papéis. A vítima precisa de um agressor, o agressor de uma vítima. O
pior era quando uma vítima não pedia para ser vítima porque nunca o fora, não
era a sua natureza, e de repente via a sua existência completamente destruída
por um agressor que sempre o fora, era a sua própria natureza. Não havia
vítimas suficientes para tantos agressores, concluiu. A história é feita destes
desequilíbrios doentios.
CENTRO DE ESTUDOS DE RECUPERAÇÃO DE MEMÓRIA, 2011,
OUTUBRO
Tinham-no sentado numa cadeira especial, pelo menos era o
que lhe parecia. Distinguiu algumas luzes em volta, depois imagens mais
nítidas. Um gabinete de portas envidraçadas. Nas paredes, painéis com luzes
coloridas a piscar. Estes painéis eram-lhe vagamente familiares. Reparou
tratar-se de uma espécie de mapas de cérebros humanos observados de perfil,
alguns a rodar sobre si próprios.
Um homem entrou no gabinete. Comentou qualquer coisa
que lhe pareceu ser uma pergunta. Não teve tempo de responder. O homem
inclinou-se sobre uma espécie de monitor colocado numa mesa oval e saiu. No
corredor, por detrás da porta envidraçada do gabinete, que deixara entreaberta,
viu-o falar apressadamente com outro homem. Deslocou a cadeira e inclinou-se
para a frente. – Temos mais um caso. Com este são já vinte esta semana. – É uma autêntica epidemia. Refugiados por todos os lados. – E desta vez não temos quaisquer dados de identificação, nada. Nem um único
cartão electrónico ou mesmo o processo clínico. – Nesse caso devemos contactar a Associação de Apoio à Vítima de Desmemoriação,
o que é que achas? – O caso foi-nos precisamente encaminhado pela Associação. Parece que já não
têm capacidade de resposta. Gostava que o visses. Nunca nos passou nada assim
pelas mãos. – Estas pessoas apresentam todos os sinais de ter sido expostas a um processo
de violência mental, a alterações radicais e definitivas, e aparecem-nos nas
condições mais precárias. Quando é que isto vai parar?