Todas as possibilidades de convivência das diversas formas de vida na Terra. A relação humanos - Terra. A relação humanos - humanos. A relação humanos - outras espécies.
Vemos nos sites de vanguarda tecnológica a apresentação de protótipos de carros futuristas, robots com forma humana, a inteligência artificial, e a promoção acrítica de um novo mundo automatizado e robotizado. O impacto na vida dos humanos é abordado na perspectiva da necessidade da sua adaptação ao novo mundo :) em vez do que seria expectável: construir um mundo para os humanos em que a automatização e a robótica se adaptam às suas necessidades. Já vimos a uberização da economia e a facebookização da interacção social :) Agora vemos esta cultura da automatização e robotização dos humanos, rodeados de tralha e ruído. Porque, não tenhamos dúvidas, o que deixam atrás de si é latas e lixo. Exemplo: na mobilidade, os driverless cars: latas a entupir as ruas das cidades. A robótica tem imensas aplicações benéficas e úteis. Exemplos: na saúde, na nanotecnologia, nas operações delicadas; nas graves limitações físicas, na mobilidade e na comunicação; nas tarefas mais exigentes e perigosas, na manipulação de produtos tóxicos, etc. Isto não implica a alienação de tudo o que nos identifica como humanos. Uma espécie de humanos-robots, consumidores da última invenção tecnológica. Programados pelos que detêm o poder: Big Techs e Big Banks :) É tempo de reflectir neste percurso e em que mundo queremos viver: se nesse mundo novo ou num mundo escolhido por nós.
A credibilidade tem a ver essencialmente com a confiança. A base da confiança tem a ver com: - informação fidedigna, fiável, factual ou baseada em dados científicos e estatísticos; - capacidade de reconhecer uma falha ou um erro e corrigi-lo de imediato; - apresentar, sempre que possível, as fontes de informação, das ideias, das estratégias, dos equipamentos; - é possível identificar os seus valores-base, mesmo que controversos e não baseados na opinião geral ou oficial; - em caso de mudança de opinião sobre questões essenciais, partilhar esse facto e as razões dessa evolução cultural. A legitimidade baseia-se na confiança em situação de liderança e de influência: poder. Requer representatividade e o reconhecimento de um grupo ou população. E implica: - respeito escrupuloso pelas regras do jogo: documentos-base, contratos, acordos; - capacidade de liderança: ouvir, observar, estudar, negociar e decidir; - capacidade de empatia, de forma a assegurar a inclusão e colaboração necessárias ao equilíbrio e bem-estar de um grupo ou população; - lidar com situações de forte pressão e stress: identificar sinais de alarme, recorrer à capacidade de controle emocional; - capacidade de antecipar o futuro e mobilizar o grupo ou população para as mudanças culturais e organizacionais necessárias à sua qualidade de vida, assim como das gerações futuras. Provavelmente já se aperceberam que há lideranças com graves falhas de legitimidade: a América, a gerir o equívoco cultural da "grandeza"; o Reino Unido, a gerir o equívoco social e económico do "Brexit"; a Europa, a gerir o equívoco cultural, económico e político da "união". A grandeza da América está na sua cultura de futuro, a nível social, artístico, científico e tecnológico. A unidade do Reino está na identificação e correcção dos desequilíbrios sociais e económicos das diversas regiões e populações. A união e coesão europeias mantêm-se respeitando a diversidade e especificidade cultural, económica e política dos países-membros. Como facilmente se percebe, as lideranças em questão e as suas agendas não só não são as certas, como não podiam ser as mais erradas. Ao basearem-se em equívocos, não só perderam credibilidade como legitimidade.
Os Millennials revelam uma cultura aberta e de colaboração, funcionam em grupo, preferem a diversidade à conformidade, valorizam a interacção e, relativamente aos recursos, escolhem usufruir a obter, o que está de acordo com a sustentabilidade. O que concluímos daqui? Que os Millennials são seres inteligentes. Agora imaginem só a frustração dos Millennials ao ver a estupidez no poder, retroceder aos anos 80, à globalização e à competição selvagem, à finança sem regras que destrói economias, à apropriação dos recursos, à acumulação de riqueza e à sua ostentação, à propaganda e desinformação nos media pagos por essa gente, à negação da ciência em nome do lucro rápido. E não esquecer os conflitos bélicos que aumentam o risco do terrorismo, mas que enriquecem a indústria de armamento. A capacidade de destruição da estupidez no poder não tem limites. O confronto cultural e civilizacional está precisamente entre a cultura da estupidez dos predadores no poder e a cultura da inteligência e da colaboração que os Millennials representam, e não entre norte e sul ou este e oeste do planeta. Penso que é para os Millennials que Margaret Atwood está a dirigir-se nesta conversa:
Elysium não nos surge com um filme preocupado com a linguagem cinematográfica mas com a mensagem. E a mensagem é directa, clara, forte:
- as questões ambientais: uma Terra devastada, árida, poluída, de cidades sem as condições básicas da vida: qualidade do ar e da água, da habitação, de higiene, de saúde, da educação, do trabalho. As cidades são caóticas, o pó eleva-se nas ruas, imaginamo-nos numa zona esquecida de um país da América do Sul;
- a distância enorme entre os muito ricos (muito poucos) e os muito pobres (todos nós), entre o céu (Elysium) e o inferno (a Terra);
- a questão dos refugiados (todos nós);
- a cidadania, o acesso à saúde e à qualidade de vida (dos muito poucos);
- as novas tecnologias ao serviço dos cidadãos (os muito poucos);
- as indústrias poluentes e tóxicas (a operar na Terra);
- os terroristas, aqui ao serviço do poder (informal, não reconhecido oficialmente) de Elysium;
- os hackers, que aqui funcionam como agentes libertários e com consciência humana.
Os momentos mágicos do filme coincidem com o seu início e o fim, precisamente, e isto é raro nos filmes actuais que começam inspirados e acabam na mediocridade. Isso não acontece aqui. Um miúdo sonha um dia ir para lá, Elysium (o céu) e já lá, é essa a última imagem que o cérebro retém, e a premonição da personagem maternal: Vais fazer alguma coisa de extraordinário no mundo.
Outro recurso do filme que funciona muito bem, as línguas e os sotaques das personagens, a corresponder à cultura de base que representam:
- A Secretária de Defesa (responsável pela protecção de Elysium) é francesa, remetendo-nos de imediato para a cultura da elite dos muito ricos em França (divisão, classismo, preconceito, ausência de empatia e de consciência humana);
- a personagem maternal (freira) é sul americana, representando aqui o afecto, a empatia, a cultura comunitária e de colaboração;
- o nosso herói é um americano que absorveu a cultura de cidadão, sem saber que essa cidadania não serviria na sua pele de rebelde;
- o terrorista que executa serviços não oficiais para a Secretária de Defesa parece de origem boer (África do Sul do Apartheid) a que se junta uma miscelânea de línguas e sotaques dificilmente identificáveis;
- os hackers são internacionais e aqui surge-nos uma cultura mista de sobrevivência oportunista (preparam, e lucram com isso, viagens clandestinas de refugiados, pagas a peso de ouro, para Elysium).
Implícita fica outra mensagem, uma crítica à cultura pueril e profundamente egoísta dos cidadãos de Elysium: as casas reproduzem as mansões das celebridades actuais, com as suas piscinas, a suas amplas entradas, uma excentricidade imoral em termos de espaço e gastos energéticos. A sua vida quotidiana parece resumir-se a actividades de lazer, financiada com o trabalho dos refugiados (na Terra) e dos robots e das novas tecnologias, como a máquina da saúde (no céu). Esta visão de gente inútil e superficial contrasta, como um grito, com os hospitais da Terra sem condições nem pessoal, as fábricas sem protecção nem segurança, o desespero dos viajantes clandestinos, as crianças a correr nas ruas poeirentas.
Matt Damon é um dos poucos actores americanos que dá credibilidade e verosilhança ao papel do homem comum, o cidadão do mundo com que nos podemos identificar. Talvez porque seja essa a sua natureza, a que se sobrepõe à personagem, uma consciência humana, inteligente, rebelde, interventiva.
Ver a realidade por trás da ficção que nos envolve todos os dias é um grande desafio. Acordamos com a ficção e adormecemos com a ficção. Os media transmitem a versão oficial e propagam-na como ecos de uma história. A insanidade mais horrível, assim contada, adquire uma lógica e substitui-se à realidade. Para ver a realidade uma pessoa tem de se colocar como um cidadão do mundo, é essa visão global que é necessário desenvolver. Não é apenas na posição de ocidental-oriental, do norte ou do sul, essa visão é enganadora. É como um cidadão do mundo, habitante de um mesmo planeta. Pode abrir os olhos e estar atento ao que se passa à sua volta, mas deve evitar deixar-se embalar pela versão oficial propagada pelos media. Terá de pôr os neurónios a trabalhar e desenvolver uma consciência global, onde cabe toda a humanidade. Mesmo que a sua visão da realidade se comece a assemelhar a um filme de série B, com personagens loucas e mal intencionadas que detêm muito poder, o poder da destruição cirúrgica ou em massa, conforme os seus objectivos - e os seus objectivos são muito simples, deter cada vez mais poder - não se assuste. Esse filme estará mais próximo da realidade do que a versão oficial propagada pelos media. Procure responder a estas questões universais: - A quem interessa disseminar o medo nos cidadãos? O medo é o princípio da desconfiança e do ódio. A desconfinça e o ódio levam à violência. - A quem não interessa a convivência pacífica e a unidade dos cidadãos? Quem quer retirar aos cidadãos o poder e a liberdade de escolher e decidir questões fundamentais para as suas vidas e as suas comunidades? Podem parecer perguntas muito simples mas as respostas aproximam-no da questão central: quem mexe os cordelinhos das marionetas falantes, dos rostos mediáticos, dos seus discursos, das suas versões da realidade? E porque é que isto é tão importante, vital mesmo, para um qualquer cidadão do mundo? Porque só como cidadão do mundo se poderá defender das ameaças de violência e destruição. A comunicação em tempo real entre cidadãos de todo o mundo é fundamental para a sua própria sobrevivência. As novas tecnologias permitem o pior, a propagação do ódio e da violência, mas também os valores da vida, da convivência pacífica, da colaboração. São o melhor meio de comunicação e de mobilização para a sua sobrevivência e do planeta que habitamos.
Gostei de saber ontem, numa reportagem da TVI e numa entrevista a Isabel Moreira na TVI24, que o assédio moral foi recentemente criminalizado e integrado no crime mais amplo da perseguição. Nesta criminalização já vamos com um atraso de uma década relativamente a outros países europeus, mas isto também se explica culturalmente. Não aturámos pacificamente o assédio moral do anterior governo?, dos discursos do anterior PM?, das conferências de imprensa de Gaspar e de Albuquerque? Agora assistimos, nós e a Espanha, a uma pressão política ilegítima da CE e do Eurogrupo. A Espanha está em negociações para formar governo, Portugal tem um governo recente. O assédio moral implica uma perseguição reiterada, é o que temos vindo a sofrer da CE e das intervenções dos comissários e do presidente do Eurogrupo, desde o início do novo governo. O assédio moral implica um agressor e uma vítima, uma relação de poder e dependência, força e fragilidade. O assédio moral tem um objectivo, neste caso é político: um governo conservador na Espanha e uma mudança de governo em Portugal. Esta demonstração de força da CE revela, na realidade, uma fraqueza: vendo-se impotente para lidar com o Brexit, uma ferida aberta no coração da UE, tenta mostrar a sua força onde pode bater, ou seja, nos mais fracos. Já vimos o que fizeram ao povo grego, apesar do povo grego referendar a vontade de permanecer na UE. A humilhação que lhes foi infligida teve todos os ingredientes do assédio moral. E do double bind, estratégia de manipulação que anula e fragiliza. Se a CE e o Eurogrupo continuarem nesta perseguição ilegítima, a quem podemos recorrer? Há algum mecanismo que nos possa defender? Exactamente, é este o perigo de estar integrado numa UE que não respeita as regras dos tratados (igualdade) nem tem a noção de equilíbrio, de colaboração e de oportunidade. Uma comunidade pressupõe ainda a noção de bem comum. Ora, prejudicar Portugal e Espanha, assim como a Grécia, também é prejudicar os restantes países da zona euro. Talvez o Brexit revele a resposta das populações esquecidas pela centralização do poder e pela globalização que agravou o desequilíbrio na distribuição dos recursos (aumento exponencial das desigualdades sociais).
A COP21 em Paris está a criar muitas expectativas mas, como Ricardo Paes Mamede lembra no programa "Números do Dinheiro" da RTP3, não podemos esperar que saia dos políticos e das lideranças a verdadeira mudança. Lembrou, ao minuto 33, que não foi por questões de consciência que se acabou com o esclavagismo, o que provocou em Braga de Macedo uma reacção imediata. Depois referiu o papel determinante dos consumidores com uma mudança de comportamentos e de consumo, como o excessivo consumo de carne. Mas foi mais longe, referindo a possibilidade do boicote às empresas poluidoras, o que provocou nova reacção, desta vez nos dois colegas de painel, Braga de Macedo e Teixeira dos Santos. Foi um momento hilariante. Este programa tem-se revelado uma boa surpresa. António Perez Metelo é muito melhor anfitrião e moderador do que comentador. E os debates, entre perspectivas diversas, são sempre interessantes. Também aqui refiro a importância do papel dos consumidores. É o mais eficaz. E porque simplesmente não há tempo.
A imprevisibilidade própria das sociedades livres tornou-se o principal obstáculo ao controle dos cidadãos. E a tendência actual é precisamente tornar previsível o seu comportamento. A recolha de dados dos cidadãos vai também nesse sentido. Hoje já é possível prever com algum grau de segurança (a tão repetida margem de erro das sondagens) qual a resposta de grupos de indivíduos. Hoje já é possível identificar grupos problemáticos e antecipar os seus movimentos e iniciativas. As sociedades mais saudáveis são as que se organizaram dando espaço a um certo grau de liberdade individual e grupal. Aparentemente caóticas quando observadas à distância, a sua organização é flexível, aberta, mutável, tal como a própria vida e as suas leis: equilíbrio e movimento. Esta organização não é nova na história, muitas civilizações terão florescido assim, procurando aproveitar os recursos existentes de forma razoável e equilibrada. Mas também vemos na história civilizações que se organizaram apropriando-se dos recursos de forma ávida e gananciosa, e esgotando-os rapidamente. É o que se verifica também actualmente: sorver tudo sem critério a não ser o enriquecimento corporativo. Para manter a ordem num tal desequilíbrio torna-se necessário neutralizar toda a margem de erro que possa surgir nas iniciativas sociais. Também é preciso manter a ilusão da liberdade e da cidadania. E igualmente entreter e alienar. Quais os grupos que se adaptarão melhor a uma sociedade controlada e onde o comportamento social se tornou previsível? Precisamente os que não convivem bem com a imprevisibilidade própria das sociedades livres. Os que propõem uma ordem imposta de cima, os que idealizam e admiram os poderosos, os que apreciam a lei do mais forte, os que se renderam à cultura do objecto. Todos os extremos se encontram aqui, da direita e da esquerda, mas também os pueris. Nada como uma ordem exterior para aquietar o caos interior (extremismos) e o vazio interior (pueris). Paradoxalmente, também os revoltados se adaptarão razoavelmente, afinal este é um duelo a que se habituaram. Os rebeldes encontrarão aqui uma missão que será duradoura para os que se viciaram na própria revolta, e temporária para os que evoluíram para a autonomia responsável do adulto. Quais os grupos que não se adaptarão facilmente? Todos os que observam o mundo com a consciência do adulto responsável. Serão estes os que perceberão mais cedo o que os espera e a todos os que ficarão submetidos a tal organização social. As iniciativas criativas e imprevisíveis surgirão daqui. Contrariamente aos grupos de revoltados e rebeldes, as suas iniciativas serão sempre responsáveis e pacíficas, o seu objectivo será sempre a defesa do mais fraco e vulnerável, a qualidade de vida, a dignidade. O paradoxo essencial e não visível aos olhos do poder que controla tudo e todos: - no caos aparente de organizações onde todos têm um papel activo e onde tudo é negociável, encontramos uma organização que permite a qualidade de vida e o convívio pacífico; - na ordem aparente de organizações fortemente controladas, encontramos focos de revolta que implicam a utilização de meios de segurança, vigilância e encarceramento.
As leis comuns a todas as formas de vida são as mesmas para as organizações sociais. Seria muito útil para todos nós que esta mensagem fosse percebida, até porque a história nos revela isso mesmo: - a vitalidade e criatividade, nunca tão necessárias como agora para lidar com os desafios actuais, está do lado da organização mais livre, aberta e flexível; - o equilíbrio e movimento das sociedades que dão espaço à imprevisibilidade permite, paradoxalmente, que evoluam de forma saudável e pacífica; - numa organização inteligente, isto é, que segue as leis gerais da vida (equilíbrio e movimento), os recursos são aproveitados e distribuídos de forma razoável, tornando-a gratificante para todos, isto é, todos ganham.
O futuro da Europa não está na UE nem no BCE nem na união bancária, fiscal e política. Quanto à moeda, o euro, deixo aos economistas essa avaliação. O futuro da Europa está em reconhecer, em primeiro lugar, o falhanço do projecto europeu, os desvios, os erros, as mentiras, o desrespeito pelos cidadãos. Esta fase de reconhecimento da realidade é fundamental. A seguir, há que analisar, caso a caso, a armadilha da dívida em que se colocaram países e pessoas concretas. Aqui já não é apenas a CE, o BCE, o FMI, que estão a ser avaliados, é também a gestão e opções dos governos desses países. No nosso caso, os governos do PSD e do PS, desde a negociação das condições de adesão até à aceitação do programa austeridade, passando pela análise e natureza da dívida. Chegaremos à conclusão que não será com estes partidos e estes políticos que conseguiremos sair desta armadilha, uma vez que a situação actual os favorece. Este é, aliás, o nosso maior desafio, encontrar alternativas políticas viáveis. Quando visualizo o futuro da Europa surgem 2 cenários, ainda sobrepostos, talvez por serem ambos prováveis: 1 - a união bancária avança, independentemente da opinião dos cidadãos europeus, à semelhança dos tratados e mais tratados em que não se recorreu ao processo democrático do referendo. Para dar a volta a esta falha, os tecnocratas multiplicarão os debates, as palestras, o marketing político na internet, e os governos irão papaguear as receitas no mesmo tom: para salvar o euro... uma almofada de segurança para os países e os contribuintes... O marketing mais cínico é, aliás, este: Você é que escolhe a Europa que quer. A sério? A seguir à união bancária - o passo decisivo do controle absoluto dos países e das pessoas -, já será mais fácil concluir todo o processo: união fiscal e política. Adeus, democracia, possibilidades de referendo, a chatice dos parlamentos e dos tribunais constitucionais. Agora mandam os mais fortes e tudo fica mais simples. À rebeldia responde-se com a clausura forçada em instituições preparadas para a reabilitação mental e emocional, um nicho de mercado para psiquiatras e neurocientistas, actividades que se dão muito bem com a linguagem do poder (Arno Gruen em A Traição do Eu). Muita dessa rebeldia poderá ser neutralizada com os mecanismos tecnológicos tão em voga, a vigilância dos cidadãos e o controle da internet. Pode parecer ficção científica, mas os meios já existem. Neste ponto, começaremos a ter saudades do tempo em que os filmes nos mostravam as personagens ávidas de poder como loucas e mesquinhas. Hoje, são pessoas de sucesso (Arno Gruen em A Loucura da Normalidade e Os Falsos Deuses):
Frank Capra reconhece a impossibilidade de negociar com tais personagens, aqui representadas pelo velho Potter.
De qualquer modo, neste cenário do futuro da Europa já não há lugar a negociação possível. A união bancária já avançou, lembram-se? Da união bancária à união fiscal e política foi um passo, lembram-se? Todos os mecanismos democráticos a que quiserem recorrer (boa sorte!) serão facilmente neutralizados pelo marketing em nome da segurança e pelo atestado de perturbação mental que lhe passarão se se atrever a contradizer a realidade oficial. É simples. 2 - os cidadãos europeus organizam-se em comunidades criativas supra-nacionais, procuram obter informação fidedigna sobre a armadilha da dívida, sobre os erros cometidos pela CE, o BCE, o FMI, e sobre a natureza pouco democrática da UE. Questionam as instituições nas plataformas adequadas, avançam com petições, exigem referendos sobre as grandes opções que decidirão da sua vida e da dos seus filhos. Os governos dos países membros são igualmente avaliados e responsabilizados pelos erros cometidos, no nosso caso desde a própria adesão até à austeridade e alienação dos recursos estratégicos, passando pela dívida contraída. Os cidadãos de cada país exigirão informação sobre a natureza da dívida e sobre as negociações com a troika. Os cidadãos quererão saber quem lucrou com a austeridade, quem lucrou com a desgraça nacional e o empobrecimento geral da população. Os cidadãos quererão participar nas grandes decisões para o seu futuro colectivo: recursos estratégicos, negócios ocultos, o verdadeiro papel dos partidos no parlamento, a grande evasão fiscal, os cortes, o aumento da dívida, os juros usurários. Depois, quererão participar nas grandes opções para o seu futuro e dos seus filhos: as áreas onde se deve investir, a gestão dessas áreas, a avaliação dessa gestão, a transparência da informação. Claro que isto implica cidadãos atentos e responsáveis, que conseguem colocar o colectivo acima dos seus interesses individuais, porque perceberam que dessa forma todos ganham, a grande comunidade. Aqui entram também os conterrâneos espalhados por todo o planeta. A Europa neste cenário será uma construção dos cidadãos europeus. Como a visualizo? Países livres de decidir, acordo a acordo, tratado a tratado, com cada um dos outros países europeus e de outros continentes. Na Europa, por exemplo: Espanha é o nosso maior cliente europeu, é natural que se estabeleçam acordos especiais entre estes dois países; Portugal é um dos melhores clientes europeus da Alemanha, seria expectável um retorno comercial ou outro; temos uma comunidade considerável em França, assim como em Luxemburgo, Alemanha, Suiça, e Inglaterra mais recentemente, o que também poderia traduzir-se numa interacção a outros níveis; os países mediterrânicos partilham uma cultura própria, têm muito em comum; Portugal tem sido apontado como país periférico em relação à Europa, mas neste cenário Portugal seria um país estratégico nas relações comerciais atlântico e mediterrâneo. Frank Capra também nos mostra este cenário como possível:
Dawkins aparece aqui como biólogo e o poeta da realidade. A polémica em que se envolveu não me interessa minimamente. A vida na Terra é tão frágil e fugaz, uma janelinha no tempo apenas, que não interessa realmente perder energias em debates estéreis. Até porque a carga emocional que os acompanha revela a agenda de cada participante. O desejo primário de poder, que procura dominar espaços, recursos, pessoas, é uma doença humana que não nos larga, falta descobrir o gene saudável... Mas por algum motivo Dawkins sentiu a necessidade de defender a teoria da evolução passados tantos anos desde Darwin e a sua Origem das Espécies. Também o vemos defender os nossos mais próximos parentes nesta aventura sobre a Terra. Quem viu o filme Gorilas na Bruma sobre Dian Fossey, sabe do que estou a falar. Não é incrível que ainda hoje, neste maravilhoso planeta, os seus habitantes humanos, aqueles que consideramos os seres mais perfeitos da evolução biológica, continuem a destruir um equilíbrio conseguido em milhões de anos? E que, nessa sede doente de tudo dominar e controlar, destruam as outras espécies que o habitam?
Ontem vi a notícia da lista da Forbes das mulheres mais poderosas do mundo e Merkel vem em primeiro lugar. De que poder e de que mulher estamos aqui a falar? Do poder de destruir economias de países, equilíbrios sociais na Europa e, muito provavelmente, a própria democracia? Do poder de humilhar, com visitas-relâmpago, os países em dificuldades com a mensagem: continuem a austeridade? Pode-se destruir com um sorriso e é o que Merkel representa: destruição da economia, erosão social, humilhação, fome, e já não apenas nos países em apuros, está a generalizar-se pela Europa. Não vou aqui recordar a história bélica europeia e como se recompôs. Nem o projecto inicial da UE e do euro. Nem a promessa de uma economia estável e próspera, com equilíbrios negociáveis. Nem a esperança da democracia baseada na participação dos diversos estados membros. À primeira sacudidela vinda da criminosa gestão financeira e da ausência de regulação e supervisão bancárias, os países mais fortes, que tinham beneficiado com as condições de integração, esqueceram os equilíbrios próprios de uma democracia e utilizaram os mecanismos autocráticos. Isto é, depois de terem contribuído para a estrutura de consumo das economias do sul, subsidiadas para abandonar a produção industrial, agrícola e pesqueira, ignoraram isso tudo e impuseram condições impossíveis de concretizar sem destruir economias frágeis e vidas concretas de pessoas. O absurdo deste poder de destruição foi aqui elevado a proporções inimagináveis de autêntica barbárie, na falta de visão e na ignorância da história, diversidade de culturas, psicologia social, economia e democracia. No caso português, o próprio governo revelou, desde o início do programa da austeridade, conformismo e subserviência. Isso foi o mais difícil de aceitar como cidadã portuguesa. E penso até que somos caso único: os gregos protestaram desde o início ate ficarem completamente exaustos e os espanhóis fizeram tudo para, pelo menos, não deixar a troika entrar em Espanha. Mas o governo português acena concordante quando o ministro das finanças alemão se refere ao nosso caso como um sucesso e desloca-se entre reuniões de ministros em carros de marca alemã. O que Merkel não sabe, nem o governo português, nem a Forbes, é que este poder baseado na influência das decisões e na finança e cujo resultado é a destruição pura e simples da economia, do equilíbrio social e da democracia, não é verdadeiro poder, é um poder alucinado. O verdadeiro poder cria, constrói, une, regenera, cura, traz a vida consigo, não a morte. O verdadeiro poder está na vitalidade de uma economia da colaboração e de uma democracia da participação. O verdadeiro poder está na criatividade da diversidade e do respeito cultural e social. Já dei aqui alguns exemplos: Alex Ojeda, Yacouba Sawadogo, Tim Brown. Muitos mais surgirão aqui n' A Vida na Terra. Já existem propostas europeias que se distinguem deste programa da austeridade. Esperemos que consigam ainda atenuar, pelo menos, a devastação em sectores vitais: