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segunda-feira, 23 de outubro de 2017

O grande equívoco





Este é o nosso grande equívoco, caros concidadãos. Ter sequer imaginado que esta solução de governo socialista, com o apoio parlamentar da esquerda, tinha realmente sentido de responsabilidade e preocupações sociais.
Como se percebe hoje, com trágicas consequências, tão trágicas e inimagináveis consequências, este governo não tem sequer noção da responsabilidade que implica gerir a segurança e a protecção de vidas humanas e de recursos colectivos e pessoais.

Não apenas o PM não mudou nada desde a tragédia de Pedrógão, não demitindo a ministra da Administração Interna e a sua equipa, como não queria mudar (imagine-se!) depois da segunda tragédia de 15 de Outubro. 
E não foi só não ter mudado e não querer mudar, foi a total ausência de responsabilidade pessoal e de empatia que revelou, sobretudo depois da segunda tragédia. 
E não esquecer que entre estas duas tragédias o país ardeu durante todo o Verão e as aldeias continuaram a defender-se praticamente sozinhas. 
E não esquecer igualmente o caso grave, em termos de segurança nacional, de Tancos, novamente sem a demissão do ministro da Defesa. 

Este governo irresponsável e incompetente vai manter-se em funções porque os partidos que o apoiam, a esquerda que era suposto preocupar-se com os cidadãos em situação de maior fragilidade, o vai segurar.
Estes partidos, BE, PCP e PEV, acabam de revelar a sua verdadeira cultura mesquinha e profundamente territorial. 
É-lhes indiferente a perda tão trágica de vidas humanas, no maior desamparo possível e inimaginável, e o sofrimento das famílias. É-lhes indiferente que o centro do país, e parte do norte, esteja agora em cinzas. 
Não se questionam um segundo terem sido também co-responsáveis pelas duas grandes tragédias, pela perda de recursos colectivos e pessoais. Porque, na sua insensatez e irresponsabilidade, colocaram à frente da maior privação de todas, a vida, as reivindicações corporativas do seu eleitorado. Colocaram à frente da destruição do trabalho de uma vida, casas, fábricas, empresas, os aumentos salariais e os horários dos sindicalizados. Colocaram à frente da destruição dos recursos colectivos que demorarão a repor, o seu grupo de apoio.

Uma jornalista, Helena Garrido, quis colocar todos os cidadãos nessa responsabilidade (culpabilidade) colectiva. Está igualmente equivocada. Os jornalistas têm muito mais responsabilidade do que os cidadãos, pelo acesso a informação fidedigna e a filtros da informação pouco fiável. Informação que seria muito útil aos cidadãos para melhor se prevenirem, defenderem e protegerem.
E porquê? Porque os jornalistas, sobretudo os do canal público, escolheram replicar a versão oficial do governo sobre os incêndios e até, pasme-se!, enganá-los com investigações duvidosas e cínicas. Uma árvore onde caiu um raio? Uma empresa de aviões ou de helicópteros? Apenas a Sic abordou o que todos escondem. 
Portanto, queiram ou não aceitar essa parte de responsabilidade, também os jornalistas são co-responsáveis, embora numa escala menor à do PM, do seu governo, da AR, da administração pública em geral, da Procuradoria-Geral, dos lóbis corporativos e negociatas, de uma cultura de casta privilegiada

Quanto aos grupos de cidadãos preocupados apenas com a sua vidinha pessoal, a tal cultura corporativa, numa altura em que se esperava uma mobilização colectiva na sequência de Pedrógão e do país a arder, lembrar os grupos de cidadãos anónimos que acorreram às localidades afectadas a oferecer ajuda na reconstrução e com bens essenciais. 
É esse país comunitário que nos interessa preservar. O importante não é calcular se é maior ou menor em dimensão ao país da cultura corporativa. Esse país comunitário existe, está vivo, essa consciência colectiva que nos permitiu sobreviver até hoje como comunidade antiga.

De responsabilidade estamos conversados, não acham? E de empatia também. A capacidade fundamental de sentirmos na própria pele e na alma o sofrimento e o desamparo. Essa capacidade fundamental, tão ausente na maioria dos gestores políticos de sucessivos governos mas tão evidente no actual, assim como nos deputados da AR sobretudo nos de esquerda. 
Arno Gruen fala-nos da lógica do poder e da alienação social n' "A Loucura da Normalidade" (Assírio e Alvim) e em "Falsos Deuses" da Paz Editora. Vale a pena ler e reler.

Ontem Santana Lopes apresentou a sua candidatura à liderança do PSD. Lembro-me bem do seu governo e de como foi cercado diariamente nos jornais, até mesmo pelo Público da altura, e pelos canais televisivos. Lembro-me bem de ler um livro enigmático de um filósofo, José Gil, saído nessa altura para completar o ramalhete: "O medo de existir".
O Presidente à época é o responsável pelo governo socrático que se seguiu. Portanto, aqui já temos um Presidente, os jornais e os canais televisivos, um filósofo, a máquina socialista e, podemos daqui deduzir, outras entidades influentes do regime corporativo que nos tem condicionado.
"O medo de existir" do filósofo, que saiu nesses poucos meses do governo de Santana Lopes, evoluiu para "a não inscrição", já durante o governo socrático.
O governo socrático levou-nos ao governo-troika (passismo). O governo-troika acabou por nos levar a acreditar numa escapatória, o grande equívoco, esta solução governativa (mistura híbrida cultura socrática e passista).
Será que Santana Lopes pode ainda provar que é possível regenerar a cultura de um partido? Não se trata de o virar para o passado, embora no seu discurso o fosse visitar, sobretudo os seus valores essenciais. 
Muito inteligente a utilização frequente do verbo "clarificar".
A perspectiva de futuro que apresentou, a partir do trabalho com equipas de jovens competentes no seu campo científico e tecnológico, pareceu-me viável e credível. 
A imagem que passou é a de um homem mais maduro, consistente, experiente, capaz de ouvir e de aprender (fundamental hoje), e de se adaptar aos novos desafios. O seu lado juvenil ajuda-o a interagir com os mais jovens. A sua capacidade de auto-avaliação, do que conseguiu e do que não conseguiu fazer, permite-lhe o contacto com a realidade. O ter sido maltratado na sua vida política (pelo Presidente à época, pelo jornalismo nacional, etc.), deu-lhe resistência e maturidade. A motivação é evidente, está ali com os dois pés. Agora é o caminho a percorrer até às eleições directas.
Uma vez regenerada a cultura política do PSD e reorganizado o partido, já será possível ver uma oposição na AR com mais credibilidade e consistência. De modo a que a gestão do governo possa ser melhor avaliada.


quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Uma solução que ajudaria a recuperar a confiança e a esperança seria a substituição deste governo




A reparação às vítimas e às famílias afectadas é simplesmente impossível. Acompanhar a sua dor, ouvir, ou estar, simplesmente.
Casas, memórias, fábricas, o trabalho dedicado de populações laboriosas, podem reparar-se apenas com indemnizações?
Recursos colectivos de um país esquecido e abandonado, destruídos sistematicamente pelo terrorismo incendiário sem que se tenha sequer assumido essa realidade, podem reparar-se enquanto este governo se mantiver em funções? Não podem. 

A Assembleia da República tem condições, neste momento, de encontrar uma alternativa viável, quando dali não saiu sequer uma perspectiva da realidade do país? Não tem. Teremos de aguardar pela reformulação e reorganização do PSD.


A meu ver, um governo provisório, constituído por pessoas experientes da sociedade civil, que nos levasse até às próximas legislativas era o ideal na nossa actual situação de desmoralização e insegurança.

Desafios a curto-prazo: prevenção de situações de risco (a Protecção civil sob a tutela das forças armadas); a investigação para melhor prevenção com agilização legislativa da Justiça; mobilização de recursos e apoios para reconstrução de habitações, fábricas e empresas.

Contrariamente à opinião de uma comentadora de serviço para controle de danos, na RTP3, que "somos bipolares", considero que somos fortemente comunitários e essa tem sido a nossa hipótese de sobrevivência a sucessivos governos incompetentes. Sobrevivemos ao gonçalvismo, ao soarismo, ao cavaquismo, ao guterrismo, ao barrosismo, ao socratismo, ao passismo. Mais difícil e doloroso será sobreviver a esta mistura híbrida socratismo no marketing e na arrogância, passismo nos preconceitos culturais e na ausência de empatia.


Um governo provisório seria uma solução que poderia ajudar a recuperar a confiança e a esperança. 



segunda-feira, 8 de maio de 2017

Do domínio do cérebro reptiliano para a utilização do córtex cerebral :)


A série televisiva que mais impacto teve na minha forma de abordar os assuntos foi Cosmos de Carl Sagan.



E, também de Carl Sagan, um livro, O Cérebro de Broca.

Há uma parte do livro que nunca esqueci, em que compara o comportamento humano, na expressão de emoções básicas como a agressividade e o medo, com o comportamento dos nossos antepassados primatas :) 
Se lerem essa parte começam a perceber um pouco melhor porque é que a expressão da agressividade, na linguagem actual, está tão ligada a zonas corporais muito específicas :)
Os nossos antepassados primatas exprimiam o seu poder exibindo os genitais. Até que ponto o homem actual evoluiu quando, ao querer exprimir agressividade, traduz em linguagem o que os primatas exibem?

Fará sentido continuar a ligar automaticamente sexo e agressividade? De forma tão primária? A utilizá-lo nas piadas humorísticas e na crítica política e social?
A meu ver, já não faz qualquer sentido.


Há vários níveis cerebrais do humor, querem ver?

- humor primário, aquele que praticamente não tem mediação do córtex cerebral, e aqui temos as chamadas anedotas de teor sexual, que encontramos hoje nalguns comediantes e nalgumas comédias enlatadas americanas;

- humor mimético: quantas vezes, sem sabermos a razão porque o outro está a rir, somos contagiados pelo seu riso? Sobretudo em situações em que o riso contradiz o contexto social e/ou será motivo de reprovação. 
Podemos incluir neste nível o riso nervoso, uma forma de acalmar a ansiedade :)

- humor empático: quando descobrimos contradições e paradoxos, na nossa humanidade comum. Depois do riso fica uma sensação agradável de bem-estar que não se dissolve, como acontece nos níveis anteriores. Ficamos algum tempo nesse estado de relação existencial com quem nos rodeia.

Um exemplo deste nível humorístico:


    
No vídeo mais longo Jimmy Kimmel também refere a alegria da irmã mais velha de Billy, o que contradiz claramente com a fotografia. :)

Aqui entram diversas emoções, ligadas entre si, e já estamos a utilizar os neurónios do córtex cerebral: o suspense relativamente à história do recém-nascido Billy, a nossa empatia com os pais, o alívio ao ver como a história correu bem, a atenção profissional da enfermeira, a sorte no meio da desgraça, a noção da nossa fragilidade humana, a confirmação das histórias familiares comuns, a incrível parecença do bébé Billy com o pai :) e os ciúmes da irmã mais velha :)


Vivemos num tempo em que a agressividade e o cinismo humorístico chegaram a um beco sem saída. 
Também na política já começamos a verificar isso mesmo. Pode ter resultado até aqui, mas já se começam a ver sinais de que essa forma de expressão primária de poder está esgotada.

As pessoas procuram cada vez mais a autenticidade, que é diferente de ingenuidade. 
Querem ser desafiadas pela sua inteligência, não pelos seus impulsos e automatismos. 
E querem sentir que não são simples espectadores ou figurantes, participam na história, fazem parte da mesma história, dão o seu feed-back. Isso mesmo: feed back. 

E reparem nas implicações que isto já está a ter no mundo do entretenimento (espectáculos ao vivo), e na política (novos movimentos).
E nas implicações que vai ter no trabalho (actividades profissionais) num futuro próximo. 
Palavras-chave: comunicação; empatia; aprender; experimentar; participar; inovar; mas também os afectos.  

Que áreas de actividade vos saltam à vista?

Política e economia: num novo patamar de colaboração e responsabilidade, as comunidades criativas.
Ciência: para lá da inovação tecnológica, a inovação cultural.
Saúde: na prevenção e nas situações de maior dependência.
Educação: na primeira fase sobretudo, com crianças.
Entretenimento e espectáculos ao vivo: humor, música, teatro, ou tudo misturado :)
Novas modalidades desportivas e desafios em grupo.
Visitas guiadas e actividades culturais.
Enfim, tudo o que implicar a nossa especificidade humana: sociabilidade, afectividade, criatividade, sentido humorístico, e capacidade de aprender.





sábado, 5 de novembro de 2016

Elysium





Elysium não nos surge com um filme preocupado com a linguagem cinematográfica mas com a mensagem. E a mensagem é directa, clara, forte:
- as questões ambientais: uma Terra devastada, árida, poluída, de cidades sem as condições básicas da vida: qualidade do ar e da água, da habitação, de higiene, de saúde, da educação, do trabalho. As cidades são caóticas, o pó eleva-se nas ruas, imaginamo-nos numa zona esquecida de um país da América do Sul;
- a distância enorme entre os muito ricos (muito poucos) e os muito pobres (todos nós), entre o céu (Elysium) e o inferno (a Terra);
- a questão dos refugiados (todos nós);
- a cidadania, o acesso à saúde e à qualidade de vida (dos muito poucos);
- as novas tecnologias ao serviço dos cidadãos (os muito poucos);
- as indústrias poluentes e tóxicas (a operar na Terra);
- os terroristas, aqui ao serviço do poder (informal, não reconhecido oficialmente) de Elysium;
- os hackers, que aqui funcionam como agentes libertários e com consciência humana.

Os momentos mágicos do filme coincidem com o seu início e o fim, precisamente, e isto é raro nos filmes actuais que começam inspirados e acabam na mediocridade. Isso não acontece aqui. Um miúdo sonha um dia ir para lá, Elysium (o céu) e já lá, é essa a última imagem que o cérebro retém, e a premonição da personagem maternal: Vais fazer alguma coisa de extraordinário no mundo.

Outro recurso do filme que funciona muito bem, as línguas e os sotaques das personagens, a corresponder à cultura de base que representam: 
- A Secretária de Defesa (responsável pela protecção de Elysium) é francesa, remetendo-nos de imediato para a cultura da elite dos muito ricos em França (divisão, classismo, preconceito, ausência de empatia e de consciência humana);
- a personagem maternal (freira) é sul americana, representando aqui o afecto, a empatia, a cultura comunitária e de colaboração;
- o nosso herói é um americano que absorveu a cultura de cidadão, sem saber que essa cidadania não serviria na sua pele de rebelde;
- o terrorista que executa serviços não oficiais para a Secretária de Defesa parece de origem boer (África do Sul do Apartheid) a que se junta uma miscelânea de línguas e sotaques dificilmente identificáveis;
- os hackers são internacionais e aqui surge-nos uma cultura mista de sobrevivência oportunista (preparam, e lucram com isso, viagens clandestinas de refugiados, pagas a peso de ouro, para Elysium).

Implícita fica outra mensagem, uma crítica à cultura pueril e profundamente egoísta dos cidadãos de Elysium: as casas reproduzem as mansões das celebridades actuais, com as suas piscinas, a suas amplas entradas, uma excentricidade imoral em termos de espaço e gastos energéticos. A sua vida quotidiana parece resumir-se a actividades de lazer, financiada com o trabalho dos refugiados (na Terra) e dos robots e das novas tecnologias, como a máquina da saúde (no céu). Esta visão de gente inútil e superficial contrasta, como um grito, com os hospitais da Terra sem condições nem pessoal, as fábricas sem protecção nem segurança, o desespero dos viajantes clandestinos, as crianças a correr nas ruas poeirentas.

Matt Damon é um dos poucos actores americanos que dá credibilidade e verosilhança ao papel do homem comum, o cidadão do mundo com que nos podemos identificar. Talvez porque seja essa a sua natureza, a que se sobrepõe à personagem, uma consciência humana, inteligente, rebelde, interventiva.


Post publicado no Rio sem Regresso.


segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

A melhor defesa dos cidadãos é a prevenção

Hoje qual é a melhor estratégia para assegurar a segurança dos cidadãos?
E qual foi a estratégia escolhida pelas lideranças de França, Reino Unido, Alemanha?

O que falhou em Paris? Não era lógico que fosse por aí que deviam começar? Reunir para analisar o que falhou, que tipo de violência é esta, como se financia, como adquire o armamento, como se desloca entre países, como se infiltra nos países, como recruta adolescentes? E seguidamente definir as melhores estratégias para lidar com este tipo de ameaça para os cidadãos?

Os cidadãos são precisamente o alvo deste tipo de ataques. Os cidadãos que querem apenas viver em paz e poder confiar que as lideranças são capazes de assegurar a sua segurança.

Os cidadãos têm de observar e reflectir no que se está a passar em seu nome: 
Qual a resposta mais adequada a este tipo de ataques terroristas?
Qual o papel dos cidadãos na sua própria defesa e segurança?
Qual o papel dos cidadãos na questão urgente dos refugiados?
Quem ganha com intervenções militares? 
Quem lucra com a guerra convencional?

A resposta mais adequada a este tipo de violência terrorista é a prevenção, utilizando as novas tecnologias e procurando antecipar possíveis ataques.
Ao nível da Defesa, um novo tipo de intervenção, na nova lógica do séc. XXI: inteligente, rápida, de antecipação. Com a utilização das novas tecnologias. Com a capacidade de ter acesso ao mundo opaco e informal da Finança, porque é aí que hoje tudo começa.
Ao nível social, todos sabemos o que isso implica: investir realmente no futuro dos jovens sem futuro. Contrariar as crescentes desigualdades sociais. E começar já. Claro que as condições sociais não explicam tudo, mas explicam muito. Como disse recentemente um especialista, a frustração de jovens desocupados que deambulam por bairros que são autênticos guetos, e se apercebem das crescentes desigualdades sociais, é uma condição favorável à sua recruta.


O papel dos cidadãos é mais importante do que se imagina:

Desmontar os equívocos sobre a violência. E, para isso, nada como ler atentamente Arno Gruen: "Falsos Deuses", "A Loucura da Normalidade" e "A Traição do Eu". É preciso compreender a natureza da violência, aprender a lidar com ela e a prevenir que se expanda. E é tão fácil expandi-la, justificá-la e massificá-la... Segundo Arno Gruen, uma grande parte da população é conformista, isto é, facilmente manipulável. É aqui que reside a sua maior fragilidade.

Não se deixar embalar pelos discursos oficiais, distanciar-se de respostas reactivas, pensar pela sua própria cabeça. Observar as decisões políticas das lideranças, e a comunicação social que matraqueia as posições oficiais. Observar a realidade sem filtros ilusórios ou distorcidos. Só na BD ou nos discursos oficiais o mundo é a preto e branco. As lideranças falam de uma ameaça exterior, como se a violência viesse de fora, de um território delimitado e de culturas e nacionalidades definidas. A ameaça já cá está. Recrutando adeptos, jovens vulneráveis e impressionáveis à glorificação da morte, a ilusão de uma heroicidade. Não é por acaso que estes jovens são adolescentes. E não é por acaso que vivem em bairros sem futuro. Ninguém pode viver sem futuro. 

Estar atento e vigilante, de forma calma e ponderada, a todos os apelos à violência e tentar definir a forma como prevenir os focos de violência. Prevenir é agir de forma empática e sensata, cada um à sua dimensão e responsabilidade, e em colaboração. As redes sociais são um meio de comunicação e de informação muito poderoso. A globalização não beneficiou apenas a finança sem lei nem regras, os negócios internacionais obscuros, e agora este tipo de violência contra cidadãos. A globalização aproximou os cidadãos à escala planetária.

Promover a cultura da empatia e da colaboração. A intervenção vai passar pela educação das novas gerações, pela sua preparação para um mundo que publicita e glorifica a violência e a morte. A sua preparação para observar e reflectir, e agir de forma autónoma e responsável. A sua preparação para identificar a violência, no local onde vive, na família, na escola, na universidade, nas redes sociais, na finança, nas multinacionais, na venda de armas, nos crimes ambientais, nas decisões políticas. O ódio e o medo são os melhores aliados da cultura da violência e da destruição. É o ódio que preenche o vazio da linguagem do poder, e é o medo que a alimenta.

Num vídeo que se tornou viral, um pai tenta explicar ao filho o inexplicável sobre a violência, revelando a atitude saudável, calma, empática, de responder à violência. Quando a criança diz, amedrontada, Temos de mudar de casa, o pai responde, A França é a nossa casa. Mas eles são maus..., Há maus em todo o lado. Mas eles têm pistolas..., E nós temos velas e flores..., As velas e flores é para nos proteger.

Um desabafo nas redes sociais que também se tornou viral, o de um pai que perdeu a mulher: Náo terão o meu ódio.

E pensemos na coragem de alguns que, perante os tiros no recinto, ainda assim, protegeram outros com o seu corpo. Ou nos que, na rua, foram socorrer os feridos sem pensar nos riscos que corriam, enquanto outros escondiam os fugitivos aterrorizados na sua casa.








domingo, 20 de setembro de 2015

As mulheres na política

Já aqui reflecti sobre o papel das mulheres na política.
Vemos agora esse papel tornar-se mais evidente e efectivo numa fase das mais difíceis e desafiantes da nossa frágil democracia.
E quem são as mulheres que revelam hoje uma outra forma de estar na política?, uma outra forma de pegar nos assuntos tabu da gestão do colectivo?, uma outra forma de se apresentar às pessoas concretas e de interagir com elas?
Vou colocar estas novas protagonistas da política portuguesa em dois grupos bem distintos e já explico porquê:

No primeiro grupo coloco Catarina Martins, Mariana Mortágua, Joana Mortágua, Marisa Matias (de que já falei no post anterior), e outras mulheres com o seu perfil;
No segundo grupo coloco Joana Amaral Dias e outras mulheres com o seu perfil.

Qualidades comuns às mulheres dos dois grupos: agilidade de raciocínio, capacidade de relacionar factos, capacidade de síntese, acutilância, criatividade. Qualidades essencialmente mentais, em que todas se revelam brilhantes.
Qualidades que as distinguem: as emocionais.

Enquanto no primeiro grupo vemos surgir uma nova forma de estar na política e de interagir com as pessoas concretas, o perfil empático, que valoriza a equipa, a colaboração, a partilha, capaz de negociar (ganha-ganha), no segundo grupo vemos um perfil mais típico dos homens na política, o perfil competitivo, de confronto, de poder (ganha-perde).
O que nos indica que, na política, o facto de ser mulher não nos garante à partida um perfil empático, capaz de colaborar e de negociar.

Hoje o poder pelo poder (ganha-perde) é muito atractivo, afinal vivemos numa sociedade narcísica.
Mas há esperança: as novas gerações funcionam cada vez mais numa outra dimensão, e é isso que lhes irá permitir sobreviver por enquanto numa economia dependente da lógica financeira (fria, metálica, de exclusão), criando as suas próprias redes de interacção e colaboração, e construindo uma nova economia e uma nova política.









sábado, 2 de novembro de 2013

Equilíbrio vital - consciência abrangente - comunidades criativas

Ultimamente tenho dedicado algum tempo matinal a tentar compreender porque é que os debates culturais e políticos actuais se revelam inúteis para o grande plano e para as questões verdadeiramente importantes e prioritárias.
A minha perplexidade vai mais longe: porque é que pessoas em lugares estratégicos de grande responsabilidade na gestão colectiva, política e económica, se dedicam a exercícios verbais inúteis e nos tentam vender ideias e fórmulas esgotadas que já se verificou não terem qualquer resultado prático construtivo? Porque é que pessoas em lugares de poder e influência evitam as grandes questões que dizem respeito a todos nós? Porque tentam manter uma cultura obsoleta que não se adapta ao desenvolvimento científico e tecnológico actuais nem aos desafios que enfrentamos hoje?

Resolvi desligar a televisão, evitar os sites informativos oficiais e pegar na minha lista das questões prioritárias. Vamos a isso:

Quais são as questões verdadeiramente importantes e prioritárias?
1 - Começaria pela sobrevivência da vida humana na Terra, por exemplo. Pode parecer-nos uma forma muito dramática de colocar esta questão, mas hoje alguém pode negar o percurso auto-destrutivo da actual gestão política e económica e das grandes opções de quem exerce o poder?;
2 - a qualidade da vida humana (alimentação, habitação, saúde, educação, interacção social, autonomia, participação na comunidade, etc) e a utilização dos recursos de forma adequada e equilibrada;
3 - uma mudança cultural e política que nos permita acompanhar e optimizar o desenvolvimento científico e tecnológico e lidar com os grandes desafios actuais.

A seguir procurei identificar os princípios em comum. Se repararem bem, todas as grandes questões referidas, sobrevivência da vida humana na Terra, qualidade da vida humana, utilização dos recursos de forma adequada e equilibrada e uma cultura e política adequadas ao desenvolvimento científico e tecnológico e aos grandes desafios actuais, implicam
equilíbrio vital - consciência abrangente - comunidades criativas.
Pronto, aqui está uma fórmula muito simples que me surgiu em horas matinais e que me tem acompanhado ultimamente. A sua representação gráfica poderia ser: um círculo maior para o equilíbrio vital que está presente em tudo na vida na Terra; dentro dele num círculo mais pequeno onde cabe a consciência abrangente, isto é, a intervenção humana e, neste círculo, as interacções e a informação partilhada das comunidades criativas, as inevitáveis setinhas num ou em dois sentidos.

Equilíbrio vital: "homeostasis" vem da biologia e é uma das condições básicas das diversas formas de vida, desde as mais simples às mais complexas. É também um princípio fundamental para os neurocientistas (ex.: António Damásio, um dos autores que será abordado nesta análise).


Consciência abrangentebaseada na perspectiva de "consciência" de António Damásio e da importância das emoções; na análise de Arno Gruen sobre os riscos do conformismo baseado na "traição do Eu" e da importância da empatia na sobrevivência das comunidades; da consideração da dimensão terapêutica da arte por Alain de Botton, como construção cultural de uma história diária da sobrevivência humana.


Comunidades criativas: partindo das condições para a sua sobrevivência e qualidade de vida, surge actualmente a possibilidade das comunidades se tornarem participativas e responsáveis pela sua viabilidade, pelo seu futuro. Aqui entra a perspectiva alargada de economia e da criação de riqueza de Alvin Toffler, em que a economia não se esgota no sistema monetário: a importância da "informação partilhada":