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sábado, 12 de agosto de 2017

Autárquicas 2017: o perfil do novo gestor político





A política não se esgota na política partidária. A política é a gestão dos recursos colectivos e envolve um grau elevado de responsabilidade.
Como cidadãos já verificámos que não podemos deixar de participar nas grandes decisões sobre as nossas vidas e o futuro das novas gerações.

Quando analisamos o perfil de um gestor político, consideramos a capacidade de liderança e as dimensões capacidade de organização, coordenação, mobilização, motivação da equipa.
O que não esperamos é ter de colocar no perfil dimensões básicas como cultura democrática, receptividade a uma democracia participativa, de uma comunidade diversa e inclusiva, e cultura da colaboração, pois são dimensões que julgávamos presentes em todos os candidatos a gestores políticos. :)
Essa não é a nossa realidade. O que temos visto é uma cultura individualista baseada na imagem pessoal, elitismo baseado numa cultura partidária, fortemente competitiva e agressiva. Ora, esse tipo de gestores políticos não nos serve.

Vamos afinar o nosso perfil para aplicar aos candidatos a presidentes de câmara.
Às dimensões já referidas de um gestor político, acrescentaríamos capacidade de negociação e compromisso, persistência, optimização dos recursos, interacção e colaboração com outros municípios e outras regiões da comunidade europeia, conhecimento profundo do território e da população, receptividade às preocupações e sugestões dos munícipes, e outras ainda a analisar. 

Consideremos agora os actuais candidatos a presidentes de câmara. Já repararam que, se formos seguir o perfil definido, de forma rigorosa, a maioria não passa no primeiro crivo?
Vejamos então:
- candidatos com mais de 3 mandatos exercidos;
- com irregularidades na gestão financeira;
- que revelem uma cultura individualista e competitiva, uma linguagem conflituosa, uma atitude agressiva e/ou  um discurso partidário;
- que exerçam actualmente a função de deputados;
- (a analisar)

Nas Autárquicas 2017 apostaria nos candidatos:
- residentes na própria região e que conheçam o seu território e população; 
- jovens qualificados e percurso profissional com provas dadas;
- independentes e com um projecto claro e uma equipa coesa e bem organizada;
- que se candidatam a um primeiro ou segundo mandato e, só excepcionalmente, a um terceiro mandato no caso de ter projectos em andamento que reconhecidamente valorizam a qualidade de vida da população e a economia da região;
- que estabeleçam facilmente uma rede de interacção e colaboração entre municípios e outras regiões da comunidade europeia;
- que se movimentem com facilidade nas candidaturas a projectos europeus;
- com capacidade de inovação, utilização de novas estratégias para lidar com os desafios actuais: economia sustentável, atracção de jovens qualificados, segurança e qualidade de vida da população, etc. 


Post publicado n' As Coisas Essenciais.



segunda-feira, 3 de julho de 2017

As populações já não se revoltam, exigem



Os políticos estavam habituados a lidar com a revolta das populações e preparavam-se para isso.
Acontece que a revolta apenas esgotava a resistência emocional num determinado período de tempo.
As pessoas comuns perceberam que não estão isoladas, são comunidades vivas, ligadas entre si por fios invisíveis e inteligentes. A tecnologia permite-nos estender o olhar e dar as mãos mesmo estando distantes.

As populações já não se revoltam, exigem.
Mas estarão os candidatos partidários preparados para a cultura da participação cívica que implica prestar contas, transparência, informação adequada, respostas eficazes?
As autárquicas são o primeiro passo para refrescar a democracia e equilibrar as desigualdades. 

Hoje soa-nos obsoleto, ridículo e até ofensivo, o espectáculo das autárquicas. Deputados que se candidatam, candidaturas que mudam de partido, a continuidade dos mesmos rostos e dos mesmos tiques, todo esse folclore.
Os partidos convencionais, PS, PSD, CDS, ainda não perceberam que esse folclore deixa agora de ser tolerado.



terça-feira, 27 de junho de 2017

Juntos por todos




Uma frase de um dos habitantes da regiao ardida ficou-me a tilintar nos neuronios, Nós do centro estamos habituados a fazer muito com pouco.
Outra frase que me ficou a tilintar nos neurónios veio da ministra da administração interna e incluiu a expressão "excesso de voluntarismo", referindo-se a uma corporação de bombeiros que vinha da Galiza.

Vejam o contraste:
As pessoas comuns ajudam-se umas às outras sem esperar pelo pedido de socorro.
Os que deveriam gerir o colectivo e proteger-nos referem-se a uma iniciativa voluntária como "excessiva" depois de terem falhado na sua responsabilidade.

O argumento da logística nao convence. Sabemos bem que tem sido o "excesso de voluntarismo" que nos tem ajudado a sobreviver a todos os governos baseados na cultura partidária e que tomaram conta do que não lhes pertence, os recursos nacionais e a sua gestão.

Esta cultura está a ser substituída por uma outra, a da participação cívica nas grandes decisões sobre a organização das comunidades e a gestão dos recursos.

Estamos juntos por todos e essa é a base de uma nova etapa da nossa vida colectiva.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Nas próximas autárquicas valorizar uma mudança cultural política



As próximas autárquicas são fundamentais na mudança da cultura política economicista que dominou no país desigual e que agravou desequilíbrios.
Jerónimo tem razão. A reforma florestal ão resolve tudo, o argumento abandono da floresta não esclarece tudo. O abandono foi outro: desinvestimento progressivo no interior, desmantelamento das estruturas uma a uma, e isto durante décadas.

Lembram-se? Postos de GNR, centros de saúde, postos dos correios, escolas, tudo foi fechando apesar dos protestos das populações.
A administração pública foi abandonando as populações do interior.
É certo que há agora unidades móveis para certos serviços. Mas e a presença da GNR? E os correios? E a escola? 
E as ligações dos transportes públicos? Vejam bem a rede actual que serve as populações e que os obriga a utilizar o táxi para se deslocar para tudo, sobretudo para ir a um centro de saúde.
Estas são as questões essenciais nas próximas autárquicas.

A cultura política a valorizar:
- as pessoas primeiro, as famílias, a qualidade de vida, a segurança;
- optimização dos recursos e gestão responsável;
- uma comunidade em colaboração com outras comunidades;
- abertura à participação cívica, transparência da informação;
- cultura democrática, de equilíbrio, na gestão dos recursos colectivos.

O perfil de presidente de câmara e de presidente da junta de freguesia começa a delinear-se.
Vou dedicar um post à definição do perfil e à análise dos candidatos às câmaras e juntas de freguesia do interior do pais, abandonado e esquecido pelas elites políticas.



terça-feira, 30 de maio de 2017

A nossa frustração é idêntica à de milhões de americanos





Na beleza incrível de Taormina, que inspira qualquer mortal, passeou-se a personagem que os republicanos, os democratas e o próprio sistema político americano colocaram no poder. Indiferente ao lugar, os seus olhos avaliadores fixaram um a um, os políticos de cada país, pelo seu valor monetário e pelos negócios lucrativos que daí podem advir. 
Só isso conta, nada mais. As relações diplomáticas, a colaboração científica, as prioridades actuais, os grandes desafios, tudo isso é colocado no cesto do lixo e o que fica na secretária é o que surge resumido num tweet.

Compreendemos a frustração de Merkel. Todos gostaríamos de ver na presidência americana alguém com quem se pudesse trocar ideias claras e concretas sobre assuntos vitais para a uma convivência mutuamente favorável.

A nossa frustração, por essa impossibilidade actual, não nos deve levar a esquecer a frustração idêntica de milhões de americanos. A presidência americana actual não representa as suas populações. A personagem pode ter sido levada a prestar juramento mas verifica-se, em todo o processo, uma clara ausência de credibilidade e legitimidade.

Desde o presidente Carter que a América vive uma grave crise cultural, uma reviravolta de valores.
A partir de Reagan a cultura que emerge é a do valor monetário, a globalização baseada na finança. Isto coincidiu com o início das alucinantes desigualdades sociais.
Este olhar avaliador sobre as pessoas, quanto valem em números, que lugar ocupam na lista dos mais ricos, acentuou-se a partir daí.

E no entanto, esta cultura do objecto, da avaliação de tudo em termos monetários, continentes, regiões, países, recursos e pessoas, não corresponde à cultura da colaboração que vemos bem activa e dinâmica nas comunidades, nas cidades, numa grande parte da população americana.
É nestas comunidades e cidades que está a inovação cultural, a possibilidade de criar novas plataformas políticas, que permitam às populações escolher o futuro em que querem viver.




quinta-feira, 11 de maio de 2017

É tempo dos americanos começarem a preparar novas plataformas políticas :)





O projecto inicial dos Estados Unidos tem uma forte ligação à França.
Hoje, tal como no início do seu projecto, os Estados Unidos podem aprender com a experiência actual francesa: a possibilidade da inovação cultural na política.

Já não se trata de revolução mas de evolução, ainda que seja um salto quântico, uma vez que passar de uma lógica de sistema político partidário para uma perspectiva da política baseada na participação cívica, implica a passagem do domínio do cérebro reptiliano para a utilização do córtex cerebral. :)
É como saltar de uma plataforma plana, estática e disfuncional para uma plataforma interactiva, móvel, eficaz. Passar de uma cultura de grupos competitivos para uma cultura de comunidades criativas que colaboram entre si.

O sistema político americano deu o berro com Trump. Chegou a um impasse. Não consigo visualizar qualquer futuro viável para o partido republicano e já agora, para o partido democrata também. Embora o partido democrata ainda possa servir de fonte para o surgimento de algumas plataformas, isto é, tem alguns recursos técnicos e culturais que podem ser utilizados e optimizados numa perspectiva prática.

Por isso, acho que é tempo dos americanos começarem a preparar novas plataformas políticas.
Sugeri começarem pela experiência política recente na França, mas em caminho também podem passar por Portugal. :)

Portugal é um caso de estudo que vale a pena visitar. Passou por uma sequência de governos de partidos que se alternavam no poder. Esta cultura política partidária da alternância já vem do séc. XIX e provou não levar a lado nenhum mas servia às elites. 
No intervalo ainda passámos por um sistema unipartidário :) fechado sobre si próprio, que exigia o pensamento único e a obediência cega.

Já viram que tivemos que fazer esta viagem incómoda, aos solavancos, para chegar aqui?
Agora aqui estamos, pela primeira vez, a aprender a viver realmente numa democracia de qualidade. Digamos que a alternância deixou as pessoas sem alternativa política. :) 
E só foi possível sair desse impasse porque os votos estavam de tal forma distribuídos que se conseguiu formar um governo baseado em acordos parlamentares. 
Tal como cá, o mesmo irá suceder em França. Acabou-se a alternância entre conservadores e socialistas. Já saíram do impasse, já saltaram da plataforma plana, estática e disfuncional para uma plataforma interactiva, móvel e eficaz. 




quinta-feira, 20 de abril de 2017

O que é que está a acontecer com as lideranças políticas actuais que todas se assemelham?





Como senti na alma o peso de lideranças que abafaram e alienaram o país, consigo imaginar o que estarão a sentir populações de países como o Reino Unido, a América, a Turquia... só para referir alguns.
No caso português, encontrou-se uma solução inovadora, uma equipa formada por um acordo inédito, de três grupos políticos, e que funciona. Parte da sua eficácia deve-se à vontade da maioria da população. E a outra parte à própria equipa: quem estragar o seu funcionamento sabe que irá enviar a população de volta ao séc. XX.

Hoje deve pensar-se na gestão política em termos de equipas, de acordos e/ou coligações. Já não faz sentido a gestão política apresentada ao público por um rosto e uma voz que tudo transmite e tudo representa. Estou a pensar, é claro, em Theresa May, em Trump e em Erdogan.
Dir-me-ão: alto lá! Há diferenças.
Diferenças? Em termos das consequências para as suas populações? 
Uma quer reforçar a sua legitimidade e a do Brexit, outro quer mostrar que é o homem mais poderoso do mundo, o terceiro juntou poderes em si próprio que legitimam uma tirania.

As populações do Reino Unido vêem-se agora condicionadas a voltar ao séc. XX e nem sei se não será para séculos anterioresAs que votaram Brexit arrastam agora todas as outras. 
As próximas eleições extraordinárias poderiam ser uma oportunidade para travar este desastre cultural, económico e político, se os grupos e movimentos se juntassem e colaborassem na construção de uma alternativa viável ao governo actual.

Estou mais optimista em relação à América. A inovação cultural está viva nas populações, mesmo naquelas que votaram Trump. 
O grande desafio será conseguirem furar um sistema político que foi construído para favorecer as elites e manter as populações no seu lugar. A nomeação de Trump deixou essa realidade a céu aberto. Agora as populações sabem que há um sistema político a reconstruir, equipas a formar, novos grupos e movimentos.

Quanto à Turquia, já imaginaram uma cidade como Istambul, que reflecte uma cultura aberta e flexível e consegue a proeza de fazer a ponte entre uma civilização antiga e uma perspectiva actual, ser condicionada à lógica do controle absoluto, à linguagem bélica, à criação alucinada de inimigos?

   
O que é que está a acontecer com as lideranças políticas actuais que todas se assemelham? E logo em países estratégicos para a vida do planeta.





sábado, 8 de abril de 2017

Transplantados do séc. XIX para nos assombrar






As lideranças europeias não souberam lidar com o caso Dijsselbloem. Primeiro porque não perceberam a sua dimensão cultural, depois porque a sua perspectiva está formatada pela lógica financeira.
O que nos leva a perguntar: como é possível que ainda tenhamos de aturar, em lugares estratégicos para a possibilidade de reabilitar os valores europeus, indivíduos transplantados do séc. XIX?

Não é uma questão de palavras, como disse o ainda presidente do Eurogrupo, é a cultura que está por trás, própria de um burguês do séc. XIX: vinho e mulheres.
Não é uma questão de palavras, porque voltou a repetir a palavra solidariedade com a definição subvertida, o que tornou a explicação ainda mais horrível do que a entrevista original. A arrogância está lá, eu tenho razão, as palavras é que não foram bem escolhidas.

A solidariedade não foi com os países intervencionados, foi com os grandes bancos, porque essa é a sua prioridade: a finança, a moeda.
Foi nisto, nesta lógica fundamentalista, nesta máquina metalizada, que se transformou a Europa das estrelinhas. A que os países e os seus cidadãos têm de se submeter. É isto que Dijsselbloem representa no Eurogrupo, os interesses dos grandes bancos e da moeda.
Enquanto a Europa das estrelinhas nos quiser assombrar com a sua cultura do passado bafiento de cofres fechados, não podemos construir o futuro.
O futuro já aqui está, outras regiões do globo já vivem e respiram a cultura da colaboração, mas a Europa das estrelinhas, que foi vanguardista noutras épocas, virou-se para o passado.


Post publicado no Vozes Dissonantes.



quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Instituições democráticas funcionais servem de crivo às ambições de pessoas e de grupos


2017 começa como um filme com várias personagens e todas elas assustadoras. De onde vieram? Como apareceram? Sim, porque nenhuma delas nasceu hoje.
Devem a sua existência e prosperidade a um sistema de negócios internacionais, de contactos pessoais, de defesa de interesses de grupos. Alguns são identificáveis, outros não.

Na América chegou-se ao ponto de se aceitar pacificamente que a personagem, que vão inaugurar daqui a uma semana, descredibilize os serviços de inteligência e os media na primeira conferência de imprensa. 
Esta conferência de imprensa foi muito bem ensaiada, tratava-se de só responder ao que não a compromete e recusar-se a responder a certas agências de informação apelidando-as de "notícias falsas."

A partir daqui podem imaginar o que se segue? Na ausência de instituições democráticas funcionais e de agências de informação credíveis, resta aos cidadãos defender-se e defender a democracia.
É aqui que entram os movimentos cívicos e as comunidades criativas.

Já se fala em movimentos de cidadãos que se vão manifestar na rua junto às instituições governamentais locais. É uma estratégia interessante.
Quanto às grandes manifestações de rua nas mega-cidades, já sou mais céptica. Colocar a integridade física em risco nunca foi a minha opção. Lembram-se de Seattle?



A eficácia dos movimentos cívicos pode ser aumentada com a cultura da colaboração e as novas tecnologias. 
É certo que as redes sociais vão estar na mira da personagem e das personagens que a rodeiam. Mas nem mesmo a sua fantasia alucinada de reeditar os gloriosos anos 80 vai conseguir que boicotem a sua utilização. Podem corrompê-las, colocar mecanismos de distracção, linguagem agressiva, mas permanecerá uma forma criativa e eficaz de colaborar.

Caros Millennials, esta mensagem é directa: vivi nos anos 80 com a vossa idade actual, e posso-vos garantir que não tinha nada desse glamour que vêem e ouvem nas bandas musicais. Era um tédio cultural. Andámos para trás em relação aos anos 70 que, pelo que leio e ouço, também já foram um retrocesso em relação aos anos 60. 







quinta-feira, 17 de novembro de 2016

A eficácia dos movimentos cívicos


Hoje recebi no mail, tal como milhões de participantes em muitas iniciativas e petições da Avaaz, um desafio: colaborar, com a nossa opinião, na definição das estratégias mais eficazes a utilizar em 2017, face aos desafios urgentes actuais, e desenhar a acção do movimento a 5, 10, 20 anos.
Desafios como as alterações climáticas e a expansão da cultura de ódio e intolerância de partidos nacionalistas já são suficientemente graves e urgentes para nos ocupar ao longo do próximo ano, mas há outros, ligados a estes, como as guerras e os refugiados, os países e regiões asfixiados pela dívida, a economia sugada pela finança, a desinformação e a linguagem agressiva nas redes sociais.

Penso que é isso precisamente que tenho vindo a fazer aqui n' A Vida na Terra: partilhar ideias, perspectivas, propostas, para lidarmos de forma inteligente, criativa e eficaz com os grandes desafios e dilemas actuais.
É também isso que me motiva na partilha de informação, opiniões e vídeos no Twitter: @avidanaterra.
O Twitter tem-se revelado uma ferramenta de comunicação e partilha de informação muito ágil e eficaz.
Também o Youtube se tem afirmado como outra ferramenta fundamental.


Aqui vai a minha contribuição à Avaaz:

1 - A nossa participação é exponencialmente reforçada quando nos posicionamos na perspectiva de cidadãos do mundoOs regimes totalitários emergem mais facilmente em situações de crise económica, propagam-se com o argumento do bode expiatório e com a linguagem do ódio, promovem a divisão, colocam pessoas contra pessoas, comunidades contra comunidades. É preciso desmontar todas as estratégias utilizadas pela cultura totalitária destas lideranças;

2 - a nossa eficácia é melhorada quando nos consciencializamos que somos responsáveis por nós próprios, pelas gerações futuras, e por lidar com os grandes desafios e dilemas actuais da humanidade. Estes são de tal modo importantes e urgentes que não podemos continuar a entregar o poder de decisão do nosso futuro - e, no cenário actual, da preservação da nossa espécie -, aos políticos, à finança, aos que detêm o poder e a influência das grandes decisões;

3 - a nossa acção é reforçada quando é percebida de forma clara e inequívoca, baseada em informação objectiva e fiável, utiliza uma linguagem que respeita a diversidade de perspectivas e opiniões, e promove a cultura da colaboração e da partilha, que exige uma atenção muito apurada para a linguagem utilizada nas redes sociais. É importante a recusa firme em aceitar a intolerância, a agressividade, o apelo ao ódio e à violência.








sábado, 5 de novembro de 2016

Elysium





Elysium não nos surge com um filme preocupado com a linguagem cinematográfica mas com a mensagem. E a mensagem é directa, clara, forte:
- as questões ambientais: uma Terra devastada, árida, poluída, de cidades sem as condições básicas da vida: qualidade do ar e da água, da habitação, de higiene, de saúde, da educação, do trabalho. As cidades são caóticas, o pó eleva-se nas ruas, imaginamo-nos numa zona esquecida de um país da América do Sul;
- a distância enorme entre os muito ricos (muito poucos) e os muito pobres (todos nós), entre o céu (Elysium) e o inferno (a Terra);
- a questão dos refugiados (todos nós);
- a cidadania, o acesso à saúde e à qualidade de vida (dos muito poucos);
- as novas tecnologias ao serviço dos cidadãos (os muito poucos);
- as indústrias poluentes e tóxicas (a operar na Terra);
- os terroristas, aqui ao serviço do poder (informal, não reconhecido oficialmente) de Elysium;
- os hackers, que aqui funcionam como agentes libertários e com consciência humana.

Os momentos mágicos do filme coincidem com o seu início e o fim, precisamente, e isto é raro nos filmes actuais que começam inspirados e acabam na mediocridade. Isso não acontece aqui. Um miúdo sonha um dia ir para lá, Elysium (o céu) e já lá, é essa a última imagem que o cérebro retém, e a premonição da personagem maternal: Vais fazer alguma coisa de extraordinário no mundo.

Outro recurso do filme que funciona muito bem, as línguas e os sotaques das personagens, a corresponder à cultura de base que representam: 
- A Secretária de Defesa (responsável pela protecção de Elysium) é francesa, remetendo-nos de imediato para a cultura da elite dos muito ricos em França (divisão, classismo, preconceito, ausência de empatia e de consciência humana);
- a personagem maternal (freira) é sul americana, representando aqui o afecto, a empatia, a cultura comunitária e de colaboração;
- o nosso herói é um americano que absorveu a cultura de cidadão, sem saber que essa cidadania não serviria na sua pele de rebelde;
- o terrorista que executa serviços não oficiais para a Secretária de Defesa parece de origem boer (África do Sul do Apartheid) a que se junta uma miscelânea de línguas e sotaques dificilmente identificáveis;
- os hackers são internacionais e aqui surge-nos uma cultura mista de sobrevivência oportunista (preparam, e lucram com isso, viagens clandestinas de refugiados, pagas a peso de ouro, para Elysium).

Implícita fica outra mensagem, uma crítica à cultura pueril e profundamente egoísta dos cidadãos de Elysium: as casas reproduzem as mansões das celebridades actuais, com as suas piscinas, a suas amplas entradas, uma excentricidade imoral em termos de espaço e gastos energéticos. A sua vida quotidiana parece resumir-se a actividades de lazer, financiada com o trabalho dos refugiados (na Terra) e dos robots e das novas tecnologias, como a máquina da saúde (no céu). Esta visão de gente inútil e superficial contrasta, como um grito, com os hospitais da Terra sem condições nem pessoal, as fábricas sem protecção nem segurança, o desespero dos viajantes clandestinos, as crianças a correr nas ruas poeirentas.

Matt Damon é um dos poucos actores americanos que dá credibilidade e verosilhança ao papel do homem comum, o cidadão do mundo com que nos podemos identificar. Talvez porque seja essa a sua natureza, a que se sobrepõe à personagem, uma consciência humana, inteligente, rebelde, interventiva.


Post publicado no Rio sem Regresso.


terça-feira, 15 de março de 2016

Colaborar, cada um no seu lugar e no seu papel, para que tudo dê certo

A vida por vezes surpreende-nos, situações e circunstâncias que não conseguimos explicar. Anos mais tarde lembramos um olhar, uma frase, uma entoação, e a situação adquire um novo sentido e importância.

Antes procurava a lógica e o significado de tudo, não descansava enquanto não conseguisse descobrir uma explicação, uma interpretação. Agora é a situação que se revela a pouco e pouco, como um ecrã sensível e interactivo. É assim na vida pessoal, na vida da comunidade mais próxima e nas notícias que chegam diariamente do país e do mundo pelos diversos meios.

É por isso que já não consigo ouvir os comentários políticos, por exemplo. A maior parte dessas frases pomposas não faz sentido na nova cultura política que já nos rodeia. E se não valem como interpretação da realidade actual, também não valem como narrativa que se quer substituir à realidade.
É por isso também que já não me interessam as ideologias políticas. O PSD redescobriu a social democracia? Risível. O CDS redescobriu a sua alma democrata cristã? Risível. Até o PAN que está a dar os primeiros passos na experiência dos debates na AR se revela mais credível porque definiu e manteve a sua marca registada. 

Quais são agora as nossas prioridades como cidadãos deste país? Colaborar, cada um no seu lugar e no seu papel, para que tudo dê certo. Refiro-me ao orçamento, à economia, ao equilíbrio de poderes social e económico, à fiscalização da actividade financeira. Tudo o que determinará a relação de poder com a CE e o Eurogrupo.

Para já, as circunstâncias são-nos favoráveis, as principais instituições da gestão política colectiva, governo e Presidência, revelam a inteligência e a cultura do séc. XXI, da colaboração. 
A nossa auto-estima como país também levou uma refrescadela, o que muito ajuda. Os acontecimentos felizes que para isso contribuíram foram: a visita de Bento XVI em Maio de 2010; o perfil e o papel do Papa Francisco; os resultados das últimas legislativas que permitiram uma nova solução governativa e a candidatura de Marcelo à presidência.
Aproveitemos bem estas circunstâncias de modo a estarmos preparados para lidar com os desafios que valem a pena.

  



terça-feira, 8 de março de 2016

Como lidar com a cultura autoritária da CE e do Eurogrupo?

A CE e o Eurogrupo nunca poderiam permitir que um orçamento que segue uma orientação diferente da austeritária pudesse funcionar. Para boicotar essa possibilidade utilizaram várias estratégias, ao nível interno, através do PSD e do CDS, e ao nível internacional, através da vinda da troika e dos avisos das agências de rating. Finalmente, ao falharem estas linhas da frente, resolveram bater o pé na comissão e no Eurogrupo.

Qual é o argumento do comissário e do presidente do Eurogrupo? Nós é que definimos a necessidade de medidas adicionais que têm mesmo de ser implementadas. Será este argumento razoável? Não. Trata-se da continuação da cultura autoritária da CE e do Eurogrupo.

Há esperança, no entanto, para o nosso pequeno país plantado no oeste da Europa. Pela primeira vez em democracia temos uma cultura de colaboração entre o governo e o Presidente e, em breve, entre as diversas instituições públicas. Esta cultura é fundamental para que tudo funcione melhor.

Sabe bem ver, para variar, que estamos a navegar de novo à frente, a absorver o ar fresco de quem vai à frente, a aprender a viver no séc. XXI, na cultura própria do séc. XXI, no seu ritmo próprio. Os jovens começarão a ver as suas ideias aproveitadas e valorizadas. Veremos equipas heterogéneas, em idade e formação, funcionar em todas as áreas do conhecimento e da tecnologia. E, se tudo correr mesmo bem, as mulheres verão os seus salários equiparados aos dos homens. Seremos, para variar, um exemplo a seguir. 




  

domingo, 20 de setembro de 2015

As mulheres na política

Já aqui reflecti sobre o papel das mulheres na política.
Vemos agora esse papel tornar-se mais evidente e efectivo numa fase das mais difíceis e desafiantes da nossa frágil democracia.
E quem são as mulheres que revelam hoje uma outra forma de estar na política?, uma outra forma de pegar nos assuntos tabu da gestão do colectivo?, uma outra forma de se apresentar às pessoas concretas e de interagir com elas?
Vou colocar estas novas protagonistas da política portuguesa em dois grupos bem distintos e já explico porquê:

No primeiro grupo coloco Catarina Martins, Mariana Mortágua, Joana Mortágua, Marisa Matias (de que já falei no post anterior), e outras mulheres com o seu perfil;
No segundo grupo coloco Joana Amaral Dias e outras mulheres com o seu perfil.

Qualidades comuns às mulheres dos dois grupos: agilidade de raciocínio, capacidade de relacionar factos, capacidade de síntese, acutilância, criatividade. Qualidades essencialmente mentais, em que todas se revelam brilhantes.
Qualidades que as distinguem: as emocionais.

Enquanto no primeiro grupo vemos surgir uma nova forma de estar na política e de interagir com as pessoas concretas, o perfil empático, que valoriza a equipa, a colaboração, a partilha, capaz de negociar (ganha-ganha), no segundo grupo vemos um perfil mais típico dos homens na política, o perfil competitivo, de confronto, de poder (ganha-perde).
O que nos indica que, na política, o facto de ser mulher não nos garante à partida um perfil empático, capaz de colaborar e de negociar.

Hoje o poder pelo poder (ganha-perde) é muito atractivo, afinal vivemos numa sociedade narcísica.
Mas há esperança: as novas gerações funcionam cada vez mais numa outra dimensão, e é isso que lhes irá permitir sobreviver por enquanto numa economia dependente da lógica financeira (fria, metálica, de exclusão), criando as suas próprias redes de interacção e colaboração, e construindo uma nova economia e uma nova política.