Todas as possibilidades de convivência das diversas formas de vida na Terra. A relação humanos - Terra. A relação humanos - humanos. A relação humanos - outras espécies.
A Vida na Terra dedica vários posts a este magnífico planeta que nos tem suportado e sustentado. Inevitavelmente teria de falar de equilíbrio, a chave da vida. Os organismos sobrevivem num determinado ambiente. Há uma capacidade de adaptação a ambientes adversos, mas até essa adaptação tem um limite. Também os humanos se têm adaptado a ambientes adversos: poluição, alterações na qualidade dos alimentos, químicos tóxicos, vagas de calor e seca, inundações, e outros desafios. Inevitável também falar de política e economia, a chave das decisões essenciais para os humanos e a sua sobrevivência. Aqui a chave também está no equilíbrio e na sustentabilidade. Isto implica uma mudança cultural profunda que está nas mãos das novas gerações. Para isso precisam de descodificar a cultura tecnológica financeira actual disfarçada de benéfica e amiga dos humanos. O que esta nova cultura propõe não valoriza os humanos, o que é intrinsecamente humano. O desenho do futuro que nos propõem, em propaganda institucional e empresarial, não serve aos humanos, aos direitos humanos, ao valor inalienável da vida humana. E não só humana, também das outras espécies, os seres vivos que nos têm acompanhado nesta aventura humana.
Os políticos estavam habituados a lidar com a revolta das populações e preparavam-se para isso. Acontece que a revolta apenas esgotava a resistência emocional num determinado período de tempo. As pessoas comuns perceberam que não estão isoladas, são comunidades vivas, ligadas entre si por fios invisíveis e inteligentes. A tecnologia permite-nos estender o olhar e dar as mãos mesmo estando distantes. As populações já não se revoltam, exigem. Mas estarão os candidatos partidários preparados para a cultura da participação cívica que implica prestar contas, transparência, informação adequada, respostas eficazes? As autárquicas são o primeiro passo para refrescar a democracia e equilibrar as desigualdades. Hoje soa-nos obsoleto, ridículo e até ofensivo, o espectáculo das autárquicas. Deputados que se candidatam, candidaturas que mudam de partido, a continuidade dos mesmos rostos e dos mesmos tiques, todo esse folclore. Os partidos convencionais, PS, PSD, CDS, ainda não perceberam que esse folclore deixa agora de ser tolerado.
As próximas autárquicas são fundamentais na mudança da cultura política economicista que dominou no país desigual e que agravou desequilíbrios.
Jerónimo tem razão. A reforma florestal ão resolve tudo, o argumento abandono da floresta não esclarece tudo. O abandono foi outro: desinvestimento progressivo no interior, desmantelamento das estruturas uma a uma, e isto durante décadas. Lembram-se? Postos de GNR, centros de saúde, postos dos correios, escolas, tudo foi fechando apesar dos protestos das populações. A administração pública foi abandonando as populações do interior. É certo que há agora unidades móveis para certos serviços. Mas e a presença da GNR? E os correios? E a escola? E as ligações dos transportes públicos? Vejam bem a rede actual que serve as populações e que os obriga a utilizar o táxi para se deslocar para tudo, sobretudo para ir a um centro de saúde. Estas são as questões essenciais nas próximas autárquicas. A cultura política a valorizar: - as pessoas primeiro, as famílias, a qualidade de vida, a segurança; - optimização dos recursos e gestão responsável; - uma comunidade em colaboração com outras comunidades; - abertura à participação cívica, transparência da informação; - cultura democrática, de equilíbrio, na gestão dos recursos colectivos. O perfil de presidente de câmara e de presidente da junta de freguesia começa a delinear-se. Vou dedicar um post à definição do perfil e à análise dos candidatos às câmaras e juntas de freguesia do interior do pais, abandonado e esquecido pelas elites políticas.
Eleições no Reino Unido. Primeiras projecções. Os conservadores perdem a maioria, o Labour ganha mais de 20 deputados. Enquanto esperamos mais resultados, temos mais uma diversão americana, desta vez FBI - Presidente. Os nossos neurónios pediam desafios mais interessantes, mas foi o que se pôde arranjar. O director do FBI, recentemente demitido pelo Presidente, respondeu em audição no Senado. Percebemos imediatamente que não é qualquer um que chega a director do FBI. Aliás, é muito mais fácil chegar a Presidente :) Não fossem as perguntas do senador McCain, fora da linha geral, e a personagem (porque, tal como o Presidente, trata-se de mais um actor, só que convincente), saía da prova oral com 20 valores :) Assim, encalhou na investigação a Hillary Clinton. O sistema político americano já revelou a sua fraca performance, o seu lado obsoleto, o seu falso equilíbrio. É um corpo de leis e de personagens que se movimentam para servir as elites. Verifica-se uma distância enorme com a realidade do dia a dia, o seu ritmo, as vidas de pessoas comuns. Mas há que se lhes tirar o chapéu: são bons actores. Actores convincentes. E de novo voltar à Europa. Ao Reino Unido. Reacções festivas do Labour. Os jovens perceberam a importância de ir votar nestas eleições. Repõe-se o equilíbrio e a representatividade das populações no parlamento. Entre a audição do director do FBI e as eleições no Reino Unido, ficamos de coração apertado com imagens da violência da polícia contra manifestantes na Venezuela.
Quais são as estratégias eficazes para minimizar os danos que a retirada dos Estados Unidos vai provocar? Este é o grande desafio para os restantes países que mantêm o compromisso. Apenas lembrar que: - de nada vale tentar chamar o presidente americano à razão, pois os seus neurónios estão formatados pela lógica reptiliana. Objectivos: ser o mais rico, o mais poderoso, o mais famoso. Obstáculos: tudo o que se colocar à frente dos objectivos. Simples. E quais são? ONU; a encíclica do Papa Francisco; as sanctuary cities; os media, excepto a Fox; uma Europa forte; uma China forte; e sabe-se lá mais o quê... - os responsáveis por esta decisão relativa ao ambiente são: o partido republicano, o partido democrata e a próprio sistema político. De todos os protagonistas, o presidente é o que apresenta mais atenuantes :) - as lideranças dos restantes países envolvidos no acordo de Paris devem evitar afirmações ou declarações que confiram legitimidade à decisão do presidente americano. A decisão não respeita a vontade da maioria da população americana. - a ONU, que está a ser pressionada pelo presidente americano que pretende fragilizar a sua intervenção, é hoje fundamental para definir as estratégias eficazes que permitam atingir os objectivos do acordo de Paris e minimizar os danos que a retirada dos Estados Unidos vai provocar. - a Europa pode ter aqui um papel fundamental na liderança da inovação cultural, de valores, da possibilidade de respeitar o futuro a que a maioria legitimamente aspira, os equilíbrios sociais e económicos, a segurança. - o acordo de Paris é uma espécie de alerta máximo para a sobrevivência da nossa espécie no planeta. Mesmo que a tecnologia nos apresente formas de sobrevivência em condições climáticas adversas e extremas, é esse o futuro que queremos para as novas gerações?
O debate está aceso no Reino Unido. As eleições de 8 de Junho serão decisivas. Muitos jovens podem ainda não ter percebido a importância do seu voto. Afinal, o seu voto não contou no Brexit, atiraram-nos para fora de uma Europa onde já se sentiam em casa. E no entanto, a possibilidade da inovação cultural na política reside no seu voto.
Vivemos numa época de transição da política: das ideologias de grupos competitivos com propostas para formatar a nossa vida colectiva, para plataformas políticas baseadas na participação cívica responsável, comunidades criativas que trabalham em colaboração. Neste momento, o Labour é o que se aproxima dessa cultura política inclusiva, que responde a desafios concretos e procura o equilíbrio social. É o primeiro passo para a inovação cultural na política. Os conservadores são actualmente o principal obstáculo a essa possibilidade. A fórmula é muito simples: votar estrategicamente - participar na vida política - criar comunidades criativas - trabalhar em colaboração. Não se sabe ainda se o Brexit é ou não um processo reversível. Tudo está a mudar muito rapidamente. Quando votaram Brexit, ainda desconheciam a nova realidade mundial e as suas implicações: - a nova administração americana e os estragos que pode implicar a nível político, económico, ambiental; - os atentados em Londres e Manchester, e os enormes desafios a nível da segurança, que depende de uma colaboração estreita entre países e continentes; - as tensões sociais e a agressividade xenófoba, inflamada pela irresponsabilidade política dos Brexiteers, que utilizaram os imigrantes como bodes expiatórios. A Europa também está a viver um período de transição, o que terá implicações, inevitavelmente, na UE, nos seus actuais desequilíbrios, e na sua cultura política e económica. Este é o portal que se abre no tempo para os jovens do Reino Unido. E porquê no tempo? Porque a incompetência política, a incapacidade de identificar os desafios, destacar as prioridades, escolher as estratégias eficazes, pode atrasar um país e com ele as vidas de gerações, por uma ou mais décadas. Essa é a importância do seu voto.
Ontem acompanhei os resultados da 1ª volta das eleições presidenciais francesas. E, no final, quando se tinham já perfilado os 2 candidatos à 2ª volta e vi ali Le Pen, percebi claramente que o medo a ajudou.
O paradoxo do securitarismo a partir do medo é que não garante a segurança daspopulações e cria obstáculos à própria segurança ao alimentar um ambiente propício à insegurança.
É isso que os media deveriam ter descodificado da mensagem de Le Pen, e desmontado as ligações perigosas com a Rússia.
É aqui que as democracias actuais falham na protecção das populações: a segurança depende da democracia, da transparência, da informação correcta às populações. Tudo isto faz parte da prevenção.
Também faz parte da prevenção: o trabalho dos serviços de informação, dos especialistas da internet, dos ataques cibernéticos, da contra-informação, da investigação de ligações políticas e/ou financeiras a interesses adversários ao país e às populações que representam.
Assim como os media não contextualizam o resultado de Le Pen, nem os serviços de informação assinalam nada de estranho nas ligações à Rússia, também não esperamos que consigam contextualizar a revolta de jovens parisienses logo depois de conhecidos os resultados da 1ª volta. O desespero inconformado de quem se sente impotente, quando expresso em violência caótica e revolta mal dirigida, não gera empatia ou compreensão nas populações. E geralmente é-nos apresentado apenas de forma simplista: grupos de anarquistas, por exemplo. São jovens e estão desesperados. São jovens e sentem-se impotentes. São jovens e o sistema não os ouve.
A tensão social é propícia à violência, e se juntarmos a este ambiente de alta tensão quaisquer interferências previstas, todo o cuidado é pouco.
O que está a falhar na segurança das populações?
- o sistema político actual. Para se dizer democrático, precisa de se reformar de cima abaixo;
- a investigação de ligações políticas e/ou financeiras perigosas para a segurança do país, da população, mas também da Europa e das suas populações;
- os media que normalizam o inaceitável, acabando por ser um obstáculo à informação que as populações precisam para decidir da melhor forma (neste caso, as eleições). O voto deveria servir para garantir a sua própria segurança e a possibilidade de ver concretizadas as suas legítimas expectativas.
As bases de uma democracia de qualidade - informação, transparência, comunicação, equilíbrio, inclusão - são as que melhor garantem a prevenção e a segurança.
As pessoas estão entregues a si próprias e é natural que procurem informação nas redes sociais. É certo que lá encontramos muita informação falsa, contra-informação, propaganda mal intencionada, etc., mas há a possibilidade de aprender a filtrar a informação fiável, fidedigna e útil, se estivermos atentos e treinarmos a capacidade de verificar a correlação de diversos factores.
Há que estar atento, alerta, mantendo a calma. Não é fácil.
Há que observar, descodificar, desmontar, procurando a informação mais fiável.
Há que escolher a melhor solução, a que melhor garante o ambiente de segurança propício ao equilíbrio democrático e à prosperidade económica.
A motivação essencial de David Attenborough é o seu fascínio pela natureza e as suas espécies. Basta-nos ver a série para valorizarmos a importância da sua preservação.
N' A Vida na Terra procuro analisar o equilíbrio da vida, a relação humanos - Terra, humanos - humanos, humanos - outras espécies. As palavras-chave da vida na Terra são: equilíbrio, diversidade, movimento, sustentabilidade, comunidades, interacção, colaboração. Porque são as condições que criam e mantêm a vida. A melhor imagem pode ser encontrada uma floresta e como se torna o habitat de tantas espécies tão diversas, os acordos comerciais entre comunidades diversas, entre cidades, entre países.
O seu contrário é: desequilíbrio, monoculturas, estagnação, esgotar os recursos, clãs, separação, isolamento, exactamente as condições que não criam nem mantêm a vida. As melhores imagens são os animais empalhados pendurados nas paredes de um salão de um caçador, centenas de carros parados numa via rápida de acesso a uma cidade ou um cofre-forte num paraíso fiscal. Agrada-me pensar (ou trata-se de uma consolação) que o que procuro aqui analisar pode ter alguma utilidade para os Millennials. Talvez porque a minha geração sonhou com o futuro próximo de uma cultura que iria acompanhar o desenvolvimento tecnológico, mas viu-se limitada pelos anos 80, em que a cultura começou a andar para trás. Refiro-me, claro, à cultura ligada ao poder, à política e à finança, que passaram a dominar a economia e as nossas vidas.
Quais são as condições básicas da segurança? Como deve ser perspectivada? Qual é o ambiente favorável à segurança? De quelideranças europeias precisamos? A equação que proponho é: democracia - equilíbrio - colaboração - inovação cultural. É aqui que reside a nossa segurança. 1ª componente: democracia Vamos fazer rewind: só um amnésico ou muito distraído não aprendeu nada com a história do séc. XX. Acredito que muitos da minha geração, a que viveu a adolescência nos anos 70 e bebeu alguns ideais de paz em liberdade e amor universal, aprenderam a imunizar-se ao vírus das grandes ideologias das gerações anteriores. Por isso é que considero que a minha geração é uma geração de transição. Ficou pendurada no tempo. A cultura dominante em que viveu não correspondia à sua forma de ver e viver. Restava-lhe observar, analisar, deduzir. Restava-lhe aprender. A internet, pelo acesso à informação e pela comunicação em tempo real, foi o primeiro salto no tempo. A partir daí, o desafio era essencialmente cultural: tínhamos as tecnologias mas faltava-nos a acção inteligente e inovadora e a descodificação cultural. É aqui que a nossa geração de transição pode ser útil às gerações posteriores: passar o testemunho do que vimos e vivemos de uma cultura passada, organizada em ideologias, e por uma lógica de separação, competição e desequilíbrio de poderes, que não é compatível com a democracia, a participação, a colaboração. Essa cultura não nos serve.
Dizem-nos que este populismo que vemos na liderança americana e em lideranças de países europeus é novo. Não é. É o mesmo populismo das ideologias do séc. XX. O que mudou foi a forma, a mensagem, a propaganda. Tornou-se mais simples, directa, reactiva, impulsiva, no tempo sincopado do séc. XXI. Não é por acaso que a forma utilizada pela liderança americana é o tweet. :) É preciso aprender a descodificar a mensagem, identificar a cultura de base e desmontar a agenda. Não é um desafio fácil, a mensagem é apresentada de forma simples e atractiva. Apela às emoções básicas como o medo, a raiva, e torna-se viral. Recorre a bodes expiatórios, a forma de bullying político mais eficaz. A separação e divisão das comunidades começa assim, e liga-se aos preconceitos culturais subliminares. A partir do momento em que se descodifica a mensagem e se identifica a cultura de base, a agenda surge-nos mesmo à nossa frente: manter a sociedade organizada numa nova versão do velho formato de sociedades hierarquizadas, em que o poder é concentrado num pequeno grupo com privilégios especiais. A democracia é esvaziada e fica a funcionar como caricatura, alimentada por tablóides. Estas lideranças pensam que estão a lidar com cidadãos ignorantes e facilmente manipuláveis, que podem alienar com promessas de um futuro brilhante. Na realidade, ainda conseguem alguma ressonância nas pessoas que foram fortemente prejudicadas pela globalização selvagem e/ou pelas fraudes financeiras e/ou pela austeridade europeia, assim como nalgumas franjas de fanáticos. 2ª componente: equilíbrio O equilíbrio é uma das palavras-chave da vida na terra (ver aqui ao lado). Porque é uma condição básica da vida. Também é uma condição básica da segurança. A democracia pode ser perspectivada como uma forma equilibrada de organizar a nossa vida colectiva. Também é assim que podemos perspectivar a liberdade e resolver alguns equívocos culturais. 3ª componente: colaboração Outra condição básica da vida. Basta estudar as células, os neurónios, como respondem a uma emergência. Transponham este princípio para as pessoas, as comunidades, as cidades, os países, os continentes. Hoje temos de pensar no mundo global. Somos, em primeiro lugar, cidadãos do mundo, habitantes de um mesmo planeta. A seguir, somos cidadãos de um continente, de um país, de uma comunidade. Os populismos quiseram uma globalização só para alguns (Thatcher) e agora querem negócios protegidos e trocas trans-nacionais à sua medida (Trump, Le Pèn). Podem prometer o mundo como o vêem e querem transformar, mas estão apenas a bater com a cabeça nos muros que querem construir. E a levar atrás da sua alucinação as populações conformistas. 4ª componente: inovação cultural Se as ideologias não funcionaram no séc. XX, a não ser para alguns fanáticos e alucinados, como continuam a fazer estragos no séc. XXI? Que tipo de ideologias estão a ser propagadas pelos fanáticos actuais? Ideia-base comum: A supremacia de uns sobre outros, uns são os líderes, as elites, são servidos e protegidos por um grupo de fiéis, e dominam sobre as massas. Quem são os líderes, as elites, ou os escolhidos? A meu ver, é importante observar que o escolhido nem sempre é quem detém o verdadeiro poder. O exercício do poder efectivo tornou-se mais ramificado e sofisticado (também funciona em rede). Actualmente vemos que a imagem proposta é um cabelo louro platinado, uma voz forte, os tablóides atrás e algumas frases simples e com impacto. Por trás está a máquina, os interesses, as finanças, os negócios. Acham que depois de provar e saborear as possibilidades que o séc. XXI nos pode trazer, que conseguiríamos sequer respirar nesse mundo abafado, poluído, ruidoso, dos populistas actuais? O futuro já nos inspira actualmente, aprendemos todos os dias, comunicamos em tempo real com pessoas de todo o planeta, encontramos ideias comuns, objectivos comuns, queremos colaborar em novas soluções. Já vimos que os recursos podem ser optimizados de forma inteligente, que todos podem ter acesso ao essencial para a vida, sem prejudicar o planeta = destruir as condições da própria vida. Concluindo: A segurança deve ser encarada numa perspectiva aberta, ampla, inteligente, preventiva, de colaboração e em democracia.
Post publicado em Vozes Dissonantes: Foi a ouvir ontem o "Economia das coisas" de Paulo Pinto, na Rádio Renascença, que me inspirei a voltar a este cantinho de vozes dissonantes.
O economista Carlos Farinha referiu-se aos indicadores "linha da pobreza" e "linha da riqueza". O economista do ISEG refere ser mais fácil definir a linha da pobreza do que a linha de riqueza, como se para esta o céu fosse o limite. :)
Neste cantinho achamos que é fácil definir a linha da riqueza: está na sustentabilidade, nos recursos disponíveis de uma população. Uma população que hoje, no século XXI, tem de ser considerada globalmente, a população mundial.
Foi assim que se conseguiram definir limites para as emissões de CO2 e é assim que temos de começar a pensar relativamente aos recursos e ao seu acesso e utilização pela população.
O acesso à água potável, aos produtos agrícolas, à habitação, a cuidados de saúde, à energia, à ciência e tecnologia. Estas passam a ser as condições básicas de uma vida com qualidade.
Uma sociedade inteligente é aquela que procura o equilíbrio, a sustentabilidade. Não se trata de limitar o ânimo empreendedor e criativo, a vontade de enriquecer e expandir um negócio. O limite é o equilíbrio e a sustentabilidade, a todos os níveis e em todas as fases da produção da riqueza. E os próprios consumidores farão parte dessa correcção natural.
Já todos percebemos que os governos e a finança apenas agravaram as desigualdades económicas. E o pior foi terem-no feito na fase da austeridade. A CE, o Eurogrupo e o FMI, o tripé disfuncional, deixaram para trás sociedades desiguais e divididas. Portugal teve sorte, apesar de tudo. A Grécia ficou a pedalar em seco numa pobreza sem fim à vista para a maior parte da sua população.
Num futuro próximo a questão não se irá colocar na distribuição da riqueza, mas sim no acesso e na utilização dos recursos disponíveis.
A nova economia basear-se-á nos recursos e não na moeda. A economia monetária provou não servir o trabalho, apenas o colocou dependente da renda, da finança. Ora, o trabalho (e aqui incluímos tudo o que é contribuição para melhorar os recursos disponíveis e a sua utilização), terá de se libertar desta lógica disfuncional, distorcida e desequilibrada.
O UBI (universal basic income) pode ser interessante e útil nesta fase de transição, mas já não surge como uma proposta radical.
A nova economia, como a perspectivamos neste cantinho, seguirá a lógica do equilíbrio e da sustentabilidade a todos os níveis e em todas as fases da produção da riqueza.
A credibilidade tem a ver essencialmente com a confiança. A base da confiança tem a ver com: - informação fidedigna, fiável, factual ou baseada em dados científicos e estatísticos; - capacidade de reconhecer uma falha ou um erro e corrigi-lo de imediato; - apresentar, sempre que possível, as fontes de informação, das ideias, das estratégias, dos equipamentos; - é possível identificar os seus valores-base, mesmo que controversos e não baseados na opinião geral ou oficial; - em caso de mudança de opinião sobre questões essenciais, partilhar esse facto e as razões dessa evolução cultural. A legitimidade baseia-se na confiança em situação de liderança e de influência: poder. Requer representatividade e o reconhecimento de um grupo ou população. E implica: - respeito escrupuloso pelas regras do jogo: documentos-base, contratos, acordos; - capacidade de liderança: ouvir, observar, estudar, negociar e decidir; - capacidade de empatia, de forma a assegurar a inclusão e colaboração necessárias ao equilíbrio e bem-estar de um grupo ou população; - lidar com situações de forte pressão e stress: identificar sinais de alarme, recorrer à capacidade de controle emocional; - capacidade de antecipar o futuro e mobilizar o grupo ou população para as mudanças culturais e organizacionais necessárias à sua qualidade de vida, assim como das gerações futuras. Provavelmente já se aperceberam que há lideranças com graves falhas de legitimidade: a América, a gerir o equívoco cultural da "grandeza"; o Reino Unido, a gerir o equívoco social e económico do "Brexit"; a Europa, a gerir o equívoco cultural, económico e político da "união". A grandeza da América está na sua cultura de futuro, a nível social, artístico, científico e tecnológico. A unidade do Reino está na identificação e correcção dos desequilíbrios sociais e económicos das diversas regiões e populações. A união e coesão europeias mantêm-se respeitando a diversidade e especificidade cultural, económica e política dos países-membros. Como facilmente se percebe, as lideranças em questão e as suas agendas não só não são as certas, como não podiam ser as mais erradas. Ao basearem-se em equívocos, não só perderam credibilidade como legitimidade.
2016 foi um ano que sacudiu as consciências adormecidas. Vimos perfilar-se lideranças com sede de poder. Lideranças que verbalizam o poder bélico na época do Natal. Lideranças que desvalorizam o papel das Nações Unidas. Lideranças que confrontam mesmo uma directiva das Nações Unidas. Lideranças sem consciência humana. Como espécie estamos desenhados para sobreviver como grupo, como comunidade. Se perdermos essa capacidade, perdemos tudo. E se assim é, porque entregamos o poder de nos destruir a pessoas que não adquiriram esta capacidade?
Que papel cabe à Europa? A voz da consciência humana. A par de todos os países de outros continentes que respeitam os direitos humanos. É um grande desafio para uma Europa que esqueceu esses valores durante mais de uma década, gerida pelo individualismo e o preconceito. E porquê a Europa? Porque é um continente que sofreu e infligiu sofrimento, e que ainda procura reabilitar-se de feridas cicatrizadas no corpo, mas ainda vivas na alma. É essa a força da consciência, uma ferida que nos lembra o sofrimento que é urgente evitar e que valoriza a frágil e preciosa harmonia. O choque civilizacional que vemos surgir no planeta é essencialmente entre os que respeitam a vida e os direitos humanos e os que não os respeitam; os que interagem, negoceiam e todos ganham, e os que seguem a lógica do poder, do ganha-perde; os que arrumam a casa respeitando os vizinhos e o planeta, e os que provocam conflitos e criam inimigos exteriores para controlarem a própria casa; os que procuram a harmonia e o equilíbrio, e os que só conhecem a lógica da conquista e da apropriação.
Vivemos num mundo que já é, nalgumas regiões do mundo, a utopia dos nossos antepassados: paz, saúde, qualidade de vida. Falhámos, no entanto, enquanto espécie, na grande vastidão do planeta e estamos muito perto de destruir as condições básicas para continuar a habitá-lo. Fome, guerra, deslocações em massa, esse é o inferno de milhões de conterrâneos. E entre estas duas realidades temos o limbo, vidas paradas, estagnadas, adiadas ou aprisionadas, onde a revolta é o motor principal a alimentar a esperança. Imaginem, tal como John Lennon imaginou, que era possível canalizar esta revolta, esta energia criativa, para acordar consciências, unir capacidades, criar comunidades, curar o mundo.
Já aqui referi o exemplo verdadeiramente impressionante da UXA (Unemployed Exchange Association)no tempo da grande depressão americana. Tudo o que foi conseguido entre 32 e 34! A capacidade criativa e organizativa, e sem os instrumentos de comunicação que hoje temos ao dispor. E o que fez o governo? Apressou-se a intervir, substituindo-se à liderança das comunidades de cidadãos. Antes que a moda pegasse e as pessoas se apercebessem que os governos podem ser facilmente substituídos... Não, não estou a propor tal ideia... mas simplesmente: é nossa responsabilidade mostrar aos governos como se pode liderar e gerir um projecto para os cidadãos e com os cidadãos. Porque já percebemos que os governos não podem ser deixados à vontade a governar sozinhos em nosso nome. É esta a nossa utopia como cidadãos do mundo, tornar possível a água potável, a alimentação, a saúde, a realização pessoal, a toda a população terrestre, em harmonia com o planeta e a sua diversidade. Eu sei, eu sei, para utopia parece uma megalomania. Mas por falar em megalomania... o que dizer então dos tresloucados que querem apropriar-se dos recursos terrestres?, e para, tão somente, aumentar as suas contas bancárias nos offshores, ou o seu poder de influência política, de pressão, de chantagem?, e os que provocam guerras para manter ou para expandir o seu poder alucinado?, e os que fecham as portas aos que fogem dessas guerras? O que vimos acontecer desde o início deste século já é mais do que suficiente para perceber com que megalomanias temos de lidar.
É raro ver uma situação social e económica tão mal gerida como esta actual dos táxis vs carros não identificados de transporte de passageiros. Como a maioria dos consumidores de notícias, debates televisivos, discursos directos e redes sociais é acrítica, não observa nem reflecte, aderiu de imediato às plataformas sem questionar o que está por trás. É por isso que o barómetro do Prós e Contras apontou para as plataformas. E é por isso também que nas redes sociais se multiplicaram opiniões insultuosas e agressivas contra os táxis. Há plataformas e plataformas. Há aplicações e aplicações. As novas tecnologias não escondem a cultura subjacente. Como não escondem o tipo de economia que praticam. A estratégia é invariavelmente a mesma: entra-se num sector de mercado com o inatacável argumento de facilitar a vida ao consumidor, poupar tempo e dinheiro, utilizando as novas tecnologias, e empurram-se os que já existem para dentro ou para fora. O céu é o limite, tudo pelo progresso, afinal estamos no séc. XXI, tudo pela liberdade de mercado, pelo bem-estar do consumidor, quantos mais melhor. A cultura subjacente é apenas e tão somente a mais pueril e selvagem: o lucro fácil e garantido pelo menor esforço de investimento e pela menor preocupação com a segurança do próprio consumidor. Por isso soa tão estranha a atitude dos responsáveis do governo pela gestão deste conflito social e económico. Desde a sua ignorância, ausência de visão e de cultura do interesse público, até à sua arrogância, cinismo e mesmo falta de respeito pelo cidadão que paga impostos, neste caso pelo motorista de táxi e pelo consumidor. Um gestor público deve prevenir problemas em vez de os agravar. Qualquer liderança com um mínimo de empatia e de bom senso teria percebido que um sector fragilizado e em desespero age de forma emocional. E quem sabe se isso não faria parte da estratégia para as negociações - e assim se entenderia a oferta dos 17 milhões? Pior é impossível. Esperemos que o PM, quando aterrar da China, consiga desenredar e clarificar esta triste situação. O governo tem promovido a cultura da sensibilidade pelas questões sociais e o respeito pelos mais vulneráveis. Não se trata, por isso, de um sector obsoleto vs um sector futurista, trata-se de duas culturas de base perfeitamente identificáveis. No essencial, há 2 tipos de tendência da economia de séc. XXI: uma, selvagem e desregulada, sem responsabilidade social; outra, equilibrada, sustentável e responsável. Uma, anónima e impessoal; outra, identificada e de confiança. Que tipo de economia quer o governo promover?
Gostei de saber ontem, numa reportagem da TVI e numa entrevista a Isabel Moreira na TVI24, que o assédio moral foi recentemente criminalizado e integrado no crime mais amplo da perseguição. Nesta criminalização já vamos com um atraso de uma década relativamente a outros países europeus, mas isto também se explica culturalmente. Não aturámos pacificamente o assédio moral do anterior governo?, dos discursos do anterior PM?, das conferências de imprensa de Gaspar e de Albuquerque? Agora assistimos, nós e a Espanha, a uma pressão política ilegítima da CE e do Eurogrupo. A Espanha está em negociações para formar governo, Portugal tem um governo recente. O assédio moral implica uma perseguição reiterada, é o que temos vindo a sofrer da CE e das intervenções dos comissários e do presidente do Eurogrupo, desde o início do novo governo. O assédio moral implica um agressor e uma vítima, uma relação de poder e dependência, força e fragilidade. O assédio moral tem um objectivo, neste caso é político: um governo conservador na Espanha e uma mudança de governo em Portugal. Esta demonstração de força da CE revela, na realidade, uma fraqueza: vendo-se impotente para lidar com o Brexit, uma ferida aberta no coração da UE, tenta mostrar a sua força onde pode bater, ou seja, nos mais fracos. Já vimos o que fizeram ao povo grego, apesar do povo grego referendar a vontade de permanecer na UE. A humilhação que lhes foi infligida teve todos os ingredientes do assédio moral. E do double bind, estratégia de manipulação que anula e fragiliza. Se a CE e o Eurogrupo continuarem nesta perseguição ilegítima, a quem podemos recorrer? Há algum mecanismo que nos possa defender? Exactamente, é este o perigo de estar integrado numa UE que não respeita as regras dos tratados (igualdade) nem tem a noção de equilíbrio, de colaboração e de oportunidade. Uma comunidade pressupõe ainda a noção de bem comum. Ora, prejudicar Portugal e Espanha, assim como a Grécia, também é prejudicar os restantes países da zona euro. Talvez o Brexit revele a resposta das populações esquecidas pela centralização do poder e pela globalização que agravou o desequilíbrio na distribuição dos recursos (aumento exponencial das desigualdades sociais).
Esta foi uma semana de emoções fortes: a 5ª feira do referendo inglês, a 6ª feira do Brexit, o domingo das eleições legislativas em Espanha. O Brexit tem sido dramatizado mas não compreendido. Depois de ouvir muitas reacções e opiniões, o Brexit começa a surgir, aos meus neurónios curiosos, como um sinal de mudança cultural, política e económica profunda. Esta mudança já se iniciou e vai comprometer grandes organizações centralizadas e burocráticas como a UE. A relação local-global e indivíduos-organizações está a mudar com a tecnologia e a comunicação em rede. A UE podia ter escolhido um caminho mais equilibrado e flexível nos acordos económicos e políticos e nos tratados que os países foram assinando, mas isso impediria a arquitectura económica do euro e o poder teria sido distribuído e equilibrado, e não centralizado em Bruxelas e nos países ricos e influentes. A cultura da austeridade, em que os cidadãos foram penalizados pelos erros financeiros em cima da má gestão política, não ajudou nada à imagem da UE. A forma incompetente e desorganizada como se lidou com os refugiados, atingindo o cúmulo de um acordo cínico com a Turquia, revelou a cultura da indiferença. O dinheiro vale mais do que as pessoas. Dinheiro em troca de pessoas. As pessoas não contam. Criticam agora os ingleses por querer sair da Europa. Mas eles não saem da Europa, saem da grande organização UE. E se os acordos forem orientados por responsáveis competentes podem conseguir-se vantagens para todos.
Ora aqui está um belíssimo título para um livro ou um filme. Um trabalho de partilha de informação de jornalistas de investigação. Uma de muitas tentativas de divulgação do que se passa nos bastidores das finanças e das negociatas de quem não se quer sujeitar às regras da convivência justa, equilibrada e civilizada do comum dos mortais. E quem encontramos lá? Algumas personagens não nos surpreendem, já contávamos com isso. Mas o primeiro-ministro da Islândia? De um país que acabou de atravessar uma das crises financeiras mais terríveis? E eu que pensava que as mulheres islandesas tinham tomado conta do poder para não deixar que cenas destas voltassem a acontecer... O Messi? Admirado por tantos jovens de todo o mundo? Um símbolo do desporto? E logo quando o futebol ainda tem a mancha da corrupção agarrada à FIFA como pastilha elástica? O mais interessante é constatar, quando se fala de offshores, que a cultura vigente ainda é aceitar a sua existência com naturalidade, como se fosse normal fugir ao fisco só porque se tem muito dinheiro. Tudo ao contrário, não acham? Mais aceitável seria perdoar uma pequena fuga ao fisco de quem tem pouco dinheiro... Só que para esses é a penhora. Isto dos offshores já é uma grande rede de interesses, todos a retirar a sua parcela, bancos, empresas, advogados... A cultura vigente está tão enraizada que até gestores políticos propõem o perdão fiscal parcial e ainda se sentem gratos por esses montantes regressarem à legalidade. E haverá ainda o argumento de que a finança poderá colapsar se se sujeitar às regras democráticas do equilíbrio de uma sociedade civilizada. De onde se poderá concluir que esta finança actual se baseia no desequilíbrio, na ausência de regras democráticas, e só funciona fora da lei. E há outra questão muito actual que aqui surge como prioritária: a segurança. Os offshores são um óptimo esconderijo para financiar o terrorismo. A mudança necessária é cultural, mas tem de se começar por um lado, pelo trabalho jornalístico.
A vida por vezes surpreende-nos, situações e circunstâncias que não conseguimos explicar. Anos mais tarde lembramos um olhar, uma frase, uma entoação, e a situação adquire um novo sentido e importância.
Antes procurava a lógica e o significado de tudo, não descansava enquanto não conseguisse descobrir uma explicação, uma interpretação. Agora é a situação que se revela a pouco e pouco, como um ecrã sensível e interactivo. É assim na vida pessoal, na vida da comunidade mais próxima e nas notícias que chegam diariamente do país e do mundo pelos diversos meios.
É por isso que já não consigo ouvir os comentários políticos, por exemplo. A maior parte dessas frases pomposas não faz sentido na nova cultura política que já nos rodeia. E se não valem como interpretação da realidade actual, também não valem como narrativa que se quer substituir à realidade.
É por isso também que já não me interessam as ideologias políticas. O PSD redescobriu a social democracia? Risível. O CDS redescobriu a sua alma democrata cristã? Risível. Até o PAN que está a dar os primeiros passos na experiência dos debates na AR se revela mais credível porque definiu e manteve a sua marca registada.
Quais são agora as nossas prioridades como cidadãos deste país? Colaborar, cada um no seu lugar e no seu papel, para que tudo dê certo. Refiro-me ao orçamento, à economia, ao equilíbrio de poderes social e económico, à fiscalização da actividade financeira. Tudo o que determinará a relação de poder com a CE e o Eurogrupo.
Para já, as circunstâncias são-nos favoráveis, as principais instituições da gestão política colectiva, governo e Presidência, revelam a inteligência e a cultura do séc. XXI, da colaboração.
A nossa auto-estima como país também levou uma refrescadela, o que muito ajuda. Os acontecimentos felizes que para isso contribuíram foram: a visita de Bento XVI em Maio de 2010; o perfil e o papel do Papa Francisco; os resultados das últimas legislativas que permitiram uma nova solução governativa e a candidatura de Marcelo à presidência.
Aproveitemos bem estas circunstâncias de modo a estarmos preparados para lidar com os desafios que valem a pena.