Todas as possibilidades de convivência das diversas formas de vida na Terra. A relação humanos - Terra. A relação humanos - humanos. A relação humanos - outras espécies.
2016 foi um ano que sacudiu as consciências adormecidas. Vimos perfilar-se lideranças com sede de poder. Lideranças que verbalizam o poder bélico na época do Natal. Lideranças que desvalorizam o papel das Nações Unidas. Lideranças que confrontam mesmo uma directiva das Nações Unidas. Lideranças sem consciência humana. Como espécie estamos desenhados para sobreviver como grupo, como comunidade. Se perdermos essa capacidade, perdemos tudo. E se assim é, porque entregamos o poder de nos destruir a pessoas que não adquiriram esta capacidade?
Que papel cabe à Europa? A voz da consciência humana. A par de todos os países de outros continentes que respeitam os direitos humanos. É um grande desafio para uma Europa que esqueceu esses valores durante mais de uma década, gerida pelo individualismo e o preconceito. E porquê a Europa? Porque é um continente que sofreu e infligiu sofrimento, e que ainda procura reabilitar-se de feridas cicatrizadas no corpo, mas ainda vivas na alma. É essa a força da consciência, uma ferida que nos lembra o sofrimento que é urgente evitar e que valoriza a frágil e preciosa harmonia. O choque civilizacional que vemos surgir no planeta é essencialmente entre os que respeitam a vida e os direitos humanos e os que não os respeitam; os que interagem, negoceiam e todos ganham, e os que seguem a lógica do poder, do ganha-perde; os que arrumam a casa respeitando os vizinhos e o planeta, e os que provocam conflitos e criam inimigos exteriores para controlarem a própria casa; os que procuram a harmonia e o equilíbrio, e os que só conhecem a lógica da conquista e da apropriação.
Elysium não nos surge com um filme preocupado com a linguagem cinematográfica mas com a mensagem. E a mensagem é directa, clara, forte:
- as questões ambientais: uma Terra devastada, árida, poluída, de cidades sem as condições básicas da vida: qualidade do ar e da água, da habitação, de higiene, de saúde, da educação, do trabalho. As cidades são caóticas, o pó eleva-se nas ruas, imaginamo-nos numa zona esquecida de um país da América do Sul;
- a distância enorme entre os muito ricos (muito poucos) e os muito pobres (todos nós), entre o céu (Elysium) e o inferno (a Terra);
- a questão dos refugiados (todos nós);
- a cidadania, o acesso à saúde e à qualidade de vida (dos muito poucos);
- as novas tecnologias ao serviço dos cidadãos (os muito poucos);
- as indústrias poluentes e tóxicas (a operar na Terra);
- os terroristas, aqui ao serviço do poder (informal, não reconhecido oficialmente) de Elysium;
- os hackers, que aqui funcionam como agentes libertários e com consciência humana.
Os momentos mágicos do filme coincidem com o seu início e o fim, precisamente, e isto é raro nos filmes actuais que começam inspirados e acabam na mediocridade. Isso não acontece aqui. Um miúdo sonha um dia ir para lá, Elysium (o céu) e já lá, é essa a última imagem que o cérebro retém, e a premonição da personagem maternal: Vais fazer alguma coisa de extraordinário no mundo.
Outro recurso do filme que funciona muito bem, as línguas e os sotaques das personagens, a corresponder à cultura de base que representam:
- A Secretária de Defesa (responsável pela protecção de Elysium) é francesa, remetendo-nos de imediato para a cultura da elite dos muito ricos em França (divisão, classismo, preconceito, ausência de empatia e de consciência humana);
- a personagem maternal (freira) é sul americana, representando aqui o afecto, a empatia, a cultura comunitária e de colaboração;
- o nosso herói é um americano que absorveu a cultura de cidadão, sem saber que essa cidadania não serviria na sua pele de rebelde;
- o terrorista que executa serviços não oficiais para a Secretária de Defesa parece de origem boer (África do Sul do Apartheid) a que se junta uma miscelânea de línguas e sotaques dificilmente identificáveis;
- os hackers são internacionais e aqui surge-nos uma cultura mista de sobrevivência oportunista (preparam, e lucram com isso, viagens clandestinas de refugiados, pagas a peso de ouro, para Elysium).
Implícita fica outra mensagem, uma crítica à cultura pueril e profundamente egoísta dos cidadãos de Elysium: as casas reproduzem as mansões das celebridades actuais, com as suas piscinas, a suas amplas entradas, uma excentricidade imoral em termos de espaço e gastos energéticos. A sua vida quotidiana parece resumir-se a actividades de lazer, financiada com o trabalho dos refugiados (na Terra) e dos robots e das novas tecnologias, como a máquina da saúde (no céu). Esta visão de gente inútil e superficial contrasta, como um grito, com os hospitais da Terra sem condições nem pessoal, as fábricas sem protecção nem segurança, o desespero dos viajantes clandestinos, as crianças a correr nas ruas poeirentas.
Matt Damon é um dos poucos actores americanos que dá credibilidade e verosilhança ao papel do homem comum, o cidadão do mundo com que nos podemos identificar. Talvez porque seja essa a sua natureza, a que se sobrepõe à personagem, uma consciência humana, inteligente, rebelde, interventiva.