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segunda-feira, 16 de maio de 2016

Quando um governo não tem legitimidade política: o caso do Brasil






Neste vídeo, a proximidade com as pessoas que se manifestam espontaneamente compensa o facto de ser um vídeo amador. O jovem que filma vai descrevendo de forma objectiva o que vê: o facto de ser uma manifestação espontânea, não programada, o facto de se verem muitas mulheres, muitos jovens, o que vão dizendo, em nome das mulheres, dos operários, dos pobres, dos indígenas. Recordam o caminho que os avós e os pais percorreram contra a ditadura. Democracia e luta. Esta é a essência da sua revolta contra o golpe político e o governo Temer.  

"A democracia brasileira morre aos 27 anos" diz Gregório Duvivier, um dos colaboradores do Porta dos Fundos. E esclarece numa síntese perfeita a cultura retrógrada do governo Temer.
A minha primeira perplexidade: onde é que estes fantasmas estavam escondidos? Nalgum sótão de um casarão velho cheio de teias de aranha? Este tipo de homem saído do séc. XIX existe mesmo? Não é uma imagem halográfica replicada em 16 figuras para nos convencer que são mesmo reais, de carne e osso?
A minha segunda perplexidade: como foi possível isto acontecer no Brasil?

Como tudo na vida, caros Viajante que passam por este cantinho do vozes_dissonantes, se não tivessem saído do sótão escuro de onde manipulavam os negócios da política e a política dos negócios, nunca saberíamos da sua existência e nunca poderíamos desmontar a sua cultura de base.
As medidas que este governo já anunciou lembraram-me outras que aqui também já sofremos durante os 4 anos do governo-troika. Só que estes fantasmas estão todos implicados em casos de justiça. 

Para já, o povo brasileiro não aceita este governo. Mas não subestimar a força policial e militar que governos sem legitimidade política e com esta cultura retrógrada podem mobilizar contra as populações.



Post publicado no Vozes Dissonantes.


terça-feira, 8 de março de 2016

Como lidar com a cultura autoritária da CE e do Eurogrupo?

A CE e o Eurogrupo nunca poderiam permitir que um orçamento que segue uma orientação diferente da austeritária pudesse funcionar. Para boicotar essa possibilidade utilizaram várias estratégias, ao nível interno, através do PSD e do CDS, e ao nível internacional, através da vinda da troika e dos avisos das agências de rating. Finalmente, ao falharem estas linhas da frente, resolveram bater o pé na comissão e no Eurogrupo.

Qual é o argumento do comissário e do presidente do Eurogrupo? Nós é que definimos a necessidade de medidas adicionais que têm mesmo de ser implementadas. Será este argumento razoável? Não. Trata-se da continuação da cultura autoritária da CE e do Eurogrupo.

Há esperança, no entanto, para o nosso pequeno país plantado no oeste da Europa. Pela primeira vez em democracia temos uma cultura de colaboração entre o governo e o Presidente e, em breve, entre as diversas instituições públicas. Esta cultura é fundamental para que tudo funcione melhor.

Sabe bem ver, para variar, que estamos a navegar de novo à frente, a absorver o ar fresco de quem vai à frente, a aprender a viver no séc. XXI, na cultura própria do séc. XXI, no seu ritmo próprio. Os jovens começarão a ver as suas ideias aproveitadas e valorizadas. Veremos equipas heterogéneas, em idade e formação, funcionar em todas as áreas do conhecimento e da tecnologia. E, se tudo correr mesmo bem, as mulheres verão os seus salários equiparados aos dos homens. Seremos, para variar, um exemplo a seguir. 




  

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Nobel da Literatura para uma mulher jornalista de investigação

Ontem ouvi na RTP 3 uma especialista falar de Svetlana Aleksievitch, jornalista de investigação bielorrussa, que acaba de ganhar o Nobel da Literatura. O seu percurso, a sua experiência com a "mãe Rússia". Só um dos seus livros está traduzido em português, "O Fim do Homem Soviético - um tempo de desencanto".
Uma frase ficou a tilintar nos meus neurónios: encontra-se no que escreve mais jornalismo e menos literatura.

Como leitora compulsiva, tem sido esse o meu trajecto - da poesia, romance histórico, novela psicológica - para os textos de viagem, a reportagem, os ensaios.
Como se houvessem dois planos, o plano fantástico e o plano realista (Tennessee Williams através da personagem Rev. Lawrence Shannon em "A Noite da Iguana") e eu tivesse caminhado de um para o outro.
Se olharmos à profundidade, estes dois planos coexistem, e é isso que dá consistência e intensidade à verdadeira literatura.

Apenas referir que há muitos mais homens prémio Nobel da Literatura do que mulheres. Também como leitora, a proporção de escritoras que li é ínfima em relação aos escritores. Por isso, já é tempo de ouvir a voz das mulheres, o seu olhar e o seu sentir.








domingo, 20 de setembro de 2015

As mulheres na política

Já aqui reflecti sobre o papel das mulheres na política.
Vemos agora esse papel tornar-se mais evidente e efectivo numa fase das mais difíceis e desafiantes da nossa frágil democracia.
E quem são as mulheres que revelam hoje uma outra forma de estar na política?, uma outra forma de pegar nos assuntos tabu da gestão do colectivo?, uma outra forma de se apresentar às pessoas concretas e de interagir com elas?
Vou colocar estas novas protagonistas da política portuguesa em dois grupos bem distintos e já explico porquê:

No primeiro grupo coloco Catarina Martins, Mariana Mortágua, Joana Mortágua, Marisa Matias (de que já falei no post anterior), e outras mulheres com o seu perfil;
No segundo grupo coloco Joana Amaral Dias e outras mulheres com o seu perfil.

Qualidades comuns às mulheres dos dois grupos: agilidade de raciocínio, capacidade de relacionar factos, capacidade de síntese, acutilância, criatividade. Qualidades essencialmente mentais, em que todas se revelam brilhantes.
Qualidades que as distinguem: as emocionais.

Enquanto no primeiro grupo vemos surgir uma nova forma de estar na política e de interagir com as pessoas concretas, o perfil empático, que valoriza a equipa, a colaboração, a partilha, capaz de negociar (ganha-ganha), no segundo grupo vemos um perfil mais típico dos homens na política, o perfil competitivo, de confronto, de poder (ganha-perde).
O que nos indica que, na política, o facto de ser mulher não nos garante à partida um perfil empático, capaz de colaborar e de negociar.

Hoje o poder pelo poder (ganha-perde) é muito atractivo, afinal vivemos numa sociedade narcísica.
Mas há esperança: as novas gerações funcionam cada vez mais numa outra dimensão, e é isso que lhes irá permitir sobreviver por enquanto numa economia dependente da lógica financeira (fria, metálica, de exclusão), criando as suas próprias redes de interacção e colaboração, e construindo uma nova economia e uma nova política.









terça-feira, 19 de maio de 2015

A cultura de violência financeira

Se alguém acreditou no slogan da propaganda eleitoral europeia "desta vez é diferente", já teve oportunidade de verificar que era mais uma grande mentira. Afinal, não é com vinagre que se apanham moscas (graças a Deus deixei de ser mosca).
Não só não é diferente como o BCE, a CE e o Eurogrupo ganharam novo fôlego no caminho do domínio da finança sobre a economia e os europeus, as tais pessoas do vídeo eleitoral.
Este caminho do domínio da finança está perfeitamente visível na humilhação da Grécia, esse processo abjecto em que Portugal colaborou activamente. Também aqui se verifica não apenas a distorção completa do que prometia a propaganda eleitoral como uma terrível violência contra todo um povo em apuros, as tais pessoas que se prometia ouvir e apoiar. Afinal, para estes tecnocratas quem são os europeus do vídeo eleitoral?

A violência na humilhação da Grécia, pelo BCE, a CE e o Eurogrupo, secundados pelo FMI, vai ter consequências imprevisíveis.
Há muitas formas de violência e esta, a financeira, efectuada à distância, de forma impessoal, fria, metálica, à séc. XXI. é tão destrutiva como as outras. Provocar a exclusão e espalhar a fome, por países da Europa e por novos guetos regionais, enquanto reembolsa os últimos trocos e os juros, é uma forma de violência abjecta.
Mas veja-se como a ministra das finanças de Portugal se comportou quando chegou ao "Olimpo dos Deuses" da nova Europa: perfeitamente enquadrada na cultura de violência financeira.

Uma resposta criativa deu-a uma jornalista que furou a segurança de Mr. Draghi para espalhar confetti sobre a sua "divina"cabeça.      







domingo, 16 de fevereiro de 2014

O plano escondido por trás da propaganda eleitoral europeia

Reparem neste vídeo publicitário das próximas eleições europeias sob o mote: "This time is different" (???)


É diferente de "quê"? Porque não se fala nesse "quê" de que agora é diferente? 
Mostrando precisamente as áreas que foram sendo destruídas sistematicamente, saúde, qualidade de vida, futuro, as palavras e frases da propaganda a contrastar com o que verdadeiramente aconteceu e continua a acontecer chega a configurar insanidade mental.

Este tipo de marketing político, além de obsoleto e de soar a falsidade em cada palavra cuidadosamente escolhida e cada frase delicodoce, é absolutamente intragável. Quem querem eles influenciar e/ou programar com este discurso e estes sorrisos mais próprios de um anúncio de pasta dentífrica?
Agora coloquem-se no lugar dos cidadãos dos países intervencionados e de outros, prensados e amolgados em diversas receitas e doses, ao ver e ouvir vídeos como este!
Porque não assumem os tecnocratas europeus, e os políticos nacionais, a sua responsabilidade na grande mentira que permitiu um verdadeiro assalto aos cidadãos e que sacrificou já várias gerações?

Desculpem insistir no tema dos graves erros da política e da economia, e dos malefícios da finança nas nossas vidas actuais. Não me canso de dizer que o problema é da dimensão cultural, a crise é cultural, de prioridades, da gestão dos recursos, do valor do trabalho. 
É por isso que tenho voltado ao tema da Europa, do falhanço do projecto europeu, da grande mentira do marketing político europeu, e do que está realmente em jogo mas que poucos identificaram: os recursos e a sua apropriação pelos grandes grupos económicos.
A austeridade veio permitir a sua concretização, da forma mais cínica e perversa possível. Como classificar políticos que colocam os seus países e cidadãos na maquinaria mortífera do negócio da dívida?
Cabe na cabeça de uma pessoa mentalmente saudável querer passar por cima do sofrimento causado a milhões de europeus para manter os lucros da finança e dos grandes grupos económicos? 

Cabe na cabeça de uma pessoa mentalmente saudável querer iludir os cidadãos europeus para os continuar a escravizar no negócio da dívida? 

Cabe na cabeça de uma pessoa mentalmente saudável tentar passar a mensagem de que "desta vez é diferente" sem falar desse "quê"?

É que esse "quê" é precisamente a sua responsabilidade na grande mentira que permitiu um verdadeiro assalto aos cidadãos e que sacrificou já várias gerações.

Gostei, pois, de ver que, no programa Eurodeputados mais recente da RTP2, são as mulheres, eurodeputadas, que desmontam a propaganda europeia, demonstram os erros cometidos e identificam o verdadeiro plano da austeridade.

A austeridade da troika não é nada mais nada menos do que o que o FMI fez nos países em vias de desenvolvimento: a apropriação progressiva e sistemática dos seus recursos que resultou tantas vezes em cenários de conflito armado: essa é a dimensão do seu plano maquiavélico e da sua insanidade mascarada de racionalismo económico.


quinta-feira, 23 de maio de 2013

O verdadeiro poder é vida: cria, constrói, une, regenera, cura

Ontem vi a notícia da lista da Forbes das mulheres mais poderosas do mundo e Merkel vem em primeiro lugar.
De que poder e de que mulher estamos aqui a falar? 
Do poder de destruir economias de países, equilíbrios sociais na Europa e, muito provavelmente, a própria democracia? 
Do poder de humilhar, com visitas-relâmpago, os países em dificuldades com a mensagem: continuem a austeridade?
Pode-se destruir com um sorriso e é o que Merkel representa: destruição da economia, erosão social, humilhação, fome, e já não apenas nos países em apuros, está a generalizar-se pela Europa.

Não vou aqui recordar a história bélica europeia e como se recompôs. 

Nem o projecto inicial da UE e do euro. 
Nem a promessa de uma economia estável e próspera, com equilíbrios negociáveis. 
Nem a esperança da democracia baseada na participação dos diversos estados membros.
À primeira sacudidela vinda da criminosa gestão financeira e da ausência de regulação e supervisão bancárias, os países mais fortes, que tinham beneficiado com as condições de integração, esqueceram os equilíbrios próprios de uma democracia e utilizaram os mecanismos autocráticos.
Isto é, depois de terem contribuído para a estrutura de consumo das economias do sul, subsidiadas para abandonar a produção industrial, agrícola e pesqueira, ignoraram isso tudo e impuseram condições impossíveis de concretizar sem destruir economias frágeis e vidas concretas de pessoas.
O absurdo deste poder de destruição foi aqui elevado a proporções inimagináveis de autêntica barbárie, na falta de visão e na ignorância da história, diversidade de culturas, psicologia social, economia e democracia.

No caso português, o próprio governo revelou, desde o início do programa da austeridade, conformismo e subserviência. Isso foi o mais difícil de aceitar como cidadã portuguesa. 

E penso até que somos caso único: os gregos protestaram desde o início ate ficarem completamente exaustos e os espanhóis fizeram tudo para, pelo menos, não deixar a troika entrar em Espanha.
Mas o governo português acena concordante quando o ministro das finanças alemão se refere ao nosso caso como um sucesso e desloca-se entre reuniões de ministros em carros de marca alemã.

O que Merkel não sabe, nem o governo português, nem a Forbes, é que este poder baseado na influência das decisões e na finança e cujo resultado é a destruição pura e simples da economia, do equilíbrio social e da democracia, não é verdadeiro poder, é um poder alucinado.


O verdadeiro poder cria, constrói, une, regenera, cura,  traz a vida consigo, não a morte. 

O verdadeiro poder está na vitalidade de uma economia da colaboração e de uma democracia da participação. 
O verdadeiro poder está na criatividade da diversidade e do respeito cultural e social.
Já dei aqui alguns exemplos: Alex Ojeda, Yacouba Sawadogo, Tim Brown.
Muitos mais surgirão aqui n' A Vida na Terra

Já existem propostas europeias que se distinguem deste programa da austeridade. Esperemos que consigam ainda atenuar, pelo menos, a devastação em sectores vitais: