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segunda-feira, 3 de julho de 2017

As populações já não se revoltam, exigem



Os políticos estavam habituados a lidar com a revolta das populações e preparavam-se para isso.
Acontece que a revolta apenas esgotava a resistência emocional num determinado período de tempo.
As pessoas comuns perceberam que não estão isoladas, são comunidades vivas, ligadas entre si por fios invisíveis e inteligentes. A tecnologia permite-nos estender o olhar e dar as mãos mesmo estando distantes.

As populações já não se revoltam, exigem.
Mas estarão os candidatos partidários preparados para a cultura da participação cívica que implica prestar contas, transparência, informação adequada, respostas eficazes?
As autárquicas são o primeiro passo para refrescar a democracia e equilibrar as desigualdades. 

Hoje soa-nos obsoleto, ridículo e até ofensivo, o espectáculo das autárquicas. Deputados que se candidatam, candidaturas que mudam de partido, a continuidade dos mesmos rostos e dos mesmos tiques, todo esse folclore.
Os partidos convencionais, PS, PSD, CDS, ainda não perceberam que esse folclore deixa agora de ser tolerado.



domingo, 28 de maio de 2017

Venezuela, ONU, e a possibilidade de ultrapassar alguns equívocos culturais sobre eleições livres





Inicio com uma provocação sobre os equívocos culturais relativamente às condições básicas de umas quaisquer eleições livres, para depois tentar visualizar possíveis soluções para uma situação de emergência humanitária e a criação de condições favoráveis à realização de eleições na Venezuela.


Alguns equívocos culturais sobre eleições livres:
Umas eleições são consideradas livres
1 - desde que se apresentem dois candidatos, o do governo e o da oposição ao governo, 
2 - e não haja batota na contagem dos votos.

Temos aqui dois equívocos nestas duas condições básicas. Equívocos que levam a pensar que se resolve o assunto com observadores imparciais e já está.


O primeiro equívoco: basta que haja dois candidatos, o do governo e o da oposição.

Para serem livres, umas quaisquer eleições necessitam de condições favoráveis à observação e avaliação das candidaturas, e à reflexão para uma decisão adequada às expectativas dos eleitores.
Considerando estas condições básicas, já temos duas eleições que não as respeitam: a recente, nos Estados Unidos, e as próximas, no Reino Unido.
Nos Estados Unidos, pela apresentação de duas candidaturas indesejadas pela maioria da população. No Reino Unido, pela situação de tensão social pós-Brexit.

Estados Unidos: a apresentação de apenas duas candidaturas a votos parece-me muito fraca para garantir uma escolha abrangente. Pior ainda quando nenhuma responde às expectativas da população: mudança e equilíbrio social.
Reino Unido: programar eleições quando o país vive uma situação de tensão social, uma enorme ansiedade relativamente a um futuro incerto, desconfiança instalada, agressividade xenófoba, parece-me altamente irresponsável.

Ora, muito mais difícil será criar estas condições na Venezuela. É preciso tempo, assegurado por um compromisso entre o governo e a população com a mediação da ONU. Não vejo legitimidade num compromisso governo - oposição.

É precisamente quando há turbulência nas ruas, tensão social, ou mesmo o caos a instalar-se, que aparecem os heróis de circunstância, que captam votos apenas a navegar as ondas de protesto.
Os eleitores têm de ter as condições necessárias para analisar o candidato, o seu percurso, a sua credibilidade, antes de lhe conferir legitimidade.


O segundo equívoco: desde que não haja batota na contagem dos votos.

Antes do processo contagem dos votos, as batotas possíveis podem ter já acontecido: mentiras, boatos, ocultação de informação importante, ausência de transparência, acordos e agendas secretas.
E não vamos mais longe, voltamos aos Estados Unidos. A confusão mediática sobre as relações presidente e os seus próximos - Rússia, vai continuar. E isto podia ter sido evitado com mais exigência relativamente às candidaturas. A responsabilidade é, pois, do partido republicano, do partido democrata e do próprio sistema político.



Quais as condições básicas que garantem que umas quaisquer eleições sejam consideradas hoje, de facto, livres?

- a possibilidade dos eleitores observarem, analisarem, avaliarem os candidatos e as suas agendas;
- as condições favoráveis, tempo e tranquilidade social, a esta reflexão dos eleitores para uma escolha que responda às suas expectativas;
- as candidaturas devem respeitar as regras da democracia: transparência, informação fidedigna, credibilidade, experiência comprovada, equipas de suporte, participação de comunidades, etc.
- o papel da comunicação social, que deve igualmente respeitar as referidas regras democráticas. 
Os media têm servido mais de transmissores acríticos de informação duvidosa, de fugas de informação contraditórias, numa motivação mais financeira do que ética e cívica;
- a abrangência das candidaturas ser suficiente para responder às expectativas da população na sua diversidade, o que permite garantir legitimidade. 
Ora, dificilmente a existência de apenas duas candidaturas que chegam à final, depois de filtradas por um sistema político, podem assegurar esta abrangência, ficando uma grande parte da população sem candidato. Exemplo: muitos jovens que estavam com Bernie Sanders, nas eleições americanas.




segunda-feira, 24 de abril de 2017

França: o que está a falhar na segurança das populações?




Post publicado no Vozes Dissonantes:

Ontem acompanhei os resultados da 1ª volta das eleições presidenciais francesas. E, no final, quando se tinham já perfilado os 2 candidatos à 2ª volta e vi ali Le Pen, percebi claramente que o medo a ajudou.
O paradoxo do securitarismo a partir do medo é que não garante a segurança das populações e cria obstáculos à própria segurança ao alimentar um ambiente propício à insegurança.
É isso que os media deveriam ter descodificado da mensagem de Le Pen, e desmontado as ligações perigosas com a Rússia.
É aqui que as democracias actuais falham na protecção das populações: a segurança depende da democracia, da transparência, da informação correcta às populaçõesTudo isto faz parte da prevenção.
Também faz parte da prevenção: o trabalho dos serviços de informação, dos especialistas da internet, dos ataques cibernéticos, da contra-informação, da investigação de ligações políticas e/ou financeiras a interesses adversários ao país e às populações que representam.
Assim como os media não contextualizam o resultado de Le Pen, nem os serviços de informação assinalam nada de estranho nas ligações à Rússia, também não esperamos que consigam contextualizar a revolta de jovens parisienses logo depois de conhecidos os resultados da 1ª volta. O desespero inconformado de quem se sente impotente, quando expresso em violência caótica e revolta mal dirigida, não gera empatia ou compreensão nas populações. E geralmente é-nos apresentado apenas de forma simplista: grupos de anarquistas, por exemplo. São jovens e estão desesperados. São jovens e sentem-se impotentes. São jovens e o sistema não os ouve.
A tensão social é propícia à violência, e se juntarmos a este ambiente de alta tensão quaisquer interferências previstas, todo o cuidado é pouco.

O que está a falhar na segurança das populações?
o sistema político actual. Para se dizer democrático, precisa de se reformar de cima abaixo;
a investigação de ligações políticas e/ou financeiras perigosas para a segurança do país, da população, mas também da Europa e das suas populações;
os media que normalizam o inaceitável, acabando por ser um obstáculo à informação que as populações precisam para decidir da melhor forma (neste caso, as eleições). O voto deveria servir para garantir a sua própria segurança e a possibilidade de ver concretizadas as suas legítimas expectativas.

As bases de uma democracia de qualidade - informação, transparência, comunicação, equilíbrio, inclusão - são as que melhor garantem a prevenção e a segurança.

As pessoas estão entregues a si próprias e é natural que procurem informação nas redes sociais. É certo que lá encontramos muita informação falsa, contra-informação, propaganda mal intencionada, etc., mas há a possibilidade de aprender a filtrar a informação fiável, fidedigna e útil, se estivermos atentos e treinarmos a capacidade de verificar a correlação de diversos factores.
Há que estar atento, alerta, mantendo a calma. Não é fácil.
Há que observar, descodificar, desmontar, procurando a informação mais fiável.
Há que escolher a melhor solução, a que melhor garante o ambiente de segurança propício ao equilíbrio democrático e à prosperidade económica. 




sexta-feira, 24 de março de 2017

A segurança depende da democracia





Quais são as condições básicas da segurança? Como deve ser perspectivada? Qual é o ambiente favorável à segurança? De que lideranças europeias precisamos?

A equação que proponho é: democracia - equilíbrio - colaboração - inovação cultural. 
É aqui que reside a nossa segurança.


1ª componente: democracia

Vamos fazer rewind: só um amnésico ou muito distraído não aprendeu nada com a história do séc. XX. Acredito que muitos da minha geração, a que viveu a adolescência nos anos 70 e bebeu alguns ideais de paz em liberdade e amor universal, aprenderam a imunizar-se ao vírus das grandes ideologias das gerações anteriores. Por isso é que considero que a minha geração é uma geração de transição. Ficou pendurada no tempo. A cultura dominante em que viveu não correspondia à sua forma de ver e viver. Restava-lhe observar, analisar, deduzir. Restava-lhe aprender.
A internet, pelo acesso à informação e pela comunicação em tempo real, foi o primeiro salto no tempo. A partir daí, o desafio era essencialmente cultural: tínhamos as tecnologias mas faltava-nos a acção inteligente e inovadora e a descodificação cultural.

É aqui que a nossa geração de transição pode ser útil às gerações posteriores: passar o testemunho do que vimos e vivemos de uma cultura passada, organizada em ideologias, e por uma lógica de separação, competição e desequilíbrio de poderes, que não é compatível com a democracia, a participação, a colaboração. Essa cultura não nos serve.

Dizem-nos que este populismo que vemos na liderança americana e em lideranças de países europeus é novo. Não é. É o mesmo populismo das ideologias do séc. XX. O que mudou foi a forma, a mensagem, a propaganda. Tornou-se mais simples, directa, reactiva, impulsiva, no tempo sincopado do séc. XXI. Não é por acaso que a forma utilizada pela liderança americana é o tweet. :)

É preciso aprender a descodificar a mensagem, identificar a cultura de base e desmontar a agenda.
Não é um desafio fácil, a mensagem é apresentada de forma simples e atractiva. Apela às emoções básicas como o medo, a raiva, e torna-se viral. Recorre a bodes expiatórios, a forma de bullying político mais eficaz. A separação e divisão das comunidades começa assim, e liga-se aos preconceitos culturais subliminares.

A partir do momento em que se descodifica a mensagem e se identifica a cultura de base, a agenda surge-nos mesmo à nossa frente: manter a sociedade organizada numa nova versão do velho formato de sociedades hierarquizadas, em que o poder é concentrado num pequeno grupo com privilégios especiais. A democracia é esvaziada e fica a funcionar como caricatura, alimentada por tablóides. 
Estas lideranças pensam que estão a lidar com cidadãos ignorantes e facilmente manipuláveis, que podem alienar com promessas de um futuro brilhante. Na realidade, ainda conseguem alguma ressonância nas pessoas que foram fortemente prejudicadas pela globalização selvagem e/ou pelas fraudes financeiras e/ou pela austeridade europeia, assim como nalgumas franjas de fanáticos.


2ª componente: equilíbrio

O equilíbrio é uma das palavras-chave da vida na terra (ver aqui ao lado). Porque é uma condição básica da vida.
Também é uma condição básica da segurança.
A democracia pode ser perspectivada como uma forma equilibrada de organizar a nossa vida colectiva. Também é assim que podemos perspectivar a liberdade e resolver alguns equívocos culturais.


3ª componente: colaboração

Outra condição básica da vida. Basta estudar as células, os neurónios, como respondem a uma emergência.
Transponham este princípio para as pessoas, as comunidades, as cidades, os países, os continentes.  
Hoje temos de pensar no mundo global. Somos, em primeiro lugar, cidadãos do mundo, habitantes de um mesmo planeta. A seguir, somos cidadãos de um continente, de um país, de uma comunidade.

Os populismos quiseram uma globalização só para alguns (Thatcher) e agora querem negócios protegidos e trocas trans-nacionais à sua medida (Trump, Le Pèn). Podem prometer o mundo como o vêem e querem transformar, mas 
estão apenas a bater com a cabeça nos muros que querem construir. E a levar atrás da sua alucinação as populações conformistas.


4ª componente: inovação cultural

Se as ideologias não funcionaram no séc. XX, a não ser para alguns fanáticos e alucinados, como continuam a fazer estragos no séc. XXI? Que tipo de ideologias estão a ser propagadas pelos fanáticos actuais? 
Ideia-base comum: A supremacia de uns sobre outros, uns são os líderes, as elites, são servidos e protegidos por um grupo de fiéis, e dominam sobre as massas.
Quem são os líderes, as elites, ou os escolhidos? A meu ver, é importante observar que o escolhido nem sempre é quem detém o verdadeiro poder. O exercício do poder efectivo tornou-se mais ramificado e sofisticado (também funciona em rede). Actualmente vemos que a imagem proposta é um cabelo louro platinado, uma voz forte, os tablóides atrás e algumas frases simples e com impacto. Por trás está a máquina, os interesses, as finanças, os negócios.

Acham que depois de provar e saborear as possibilidades que o séc. XXI nos pode trazer, que conseguiríamos sequer respirar nesse mundo abafado, poluído, ruidoso, dos populistas actuais?

O futuro já nos inspira actualmente, aprendemos todos os dias, comunicamos em tempo real com pessoas de todo o planeta, encontramos ideias comuns, objectivos comuns, queremos colaborar em novas soluções. Já vimos que os recursos podem ser optimizados de forma inteligente, que todos podem ter acesso ao essencial para a vida, sem prejudicar o planeta = destruir as condições da própria vida. 


Concluindo:

A segurança deve ser encarada numa perspectiva aberta, ampla, inteligente, preventiva, de colaboração e em democracia




quinta-feira, 23 de março de 2017

Londres: a segurança em democracia





É incrível como depois de Berlim cidades como Londres, potenciais alvo deste tipo de ataques terroristas, não alteram a sua mobilidade. Esta é uma questão essencial, de segurança.
A protecção das populações é uma prioridade em democracia. O valor da vida é, numa democracia, um valor prioritário. E a liberdade deve ser considerada, em primeiro lugar, como o direito à vida. É aqui que a segurança entra.

Continuo sem perceber esta mensagem dos responsáveis políticos depois de ataques horríveis no coração das suas cidades, como se estivessem num teatro bélico a falar directamente para os terroristas: vamos continuar com o nosso estilo de vida. 
O que as pessoas precisam de ouvir não é isso. O que as pessoas precisam de ouvir é: vamos tomar todas as medidas de segurança preventiva para que este tipo de ataques não volte a ocorrer.

Tal como em Berlim, põe-se a questão fundamental da mobilidade. A mobilidade dentro das cidades tem de ser encarada de uma forma inteligente e inovadora.
Os transportes públicos também têm alguns desafios relativamente à segurança: aglomeração de pessoas num espaço reduzido. Com as novas tecnologias não há forma de disparar alarmes com a presença de metal, como nos aeroportos? (Muitas chaves de casa vão disparar? E muitas moedas nas carteiras? Bem, de qualquer modo em breve tudo isso será substituído por cartões.)

Os cidadãos têm o direito à informação sobre medidas de segurança preventiva, que comportamentos adoptar, que comportamentos evitar. É mais inteligente lidar com os riscos e evitá-los do que a atitude de querer manter um estilo de vida e correr riscos porque se é corajoso. 

Os actuais equívocos relativamente à liberdade são culturais e políticos. Ninguém se questiona sobre os desequilíbrios económicos e financeiros que também limitam (e muito) a liberdade.
Resolver os equívocos relativamente à liberdade também resolve os equívocos relativamente à segurança em democracia.




segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

O assalto à Casa Branca





Provavelmente todos já viram o filme White House Down. Mas poucos imaginaram que um assalto à Casa Branca estava a ser preparado com todo o cuidado e secretismo. Sim, na vida real.

É sempre nos pormenores que estes planos falham. Refiro-me ao secretismo que é essencial, porque neste momento já quase todos perceberam qual é a agenda do gabinete de Trump.


Pormenores que comprometeram o assalto à Casa Branca:

- confiar demasiado na eficácia do plano: depois de passarem o primeiro teste, conseguir que os eleitores engolissem o anzol com um discurso feito à medida, e utilizando a popularidade mediática da personagem, contaram que nada iria falhar a partir daí;

- negligenciar a imprevisibilidade e impulsividade da personagem: para o controle da personagem contaram com os filhos, sobretudo a filha e o genro, que o acompanham para todo o lado e que estão presentes nos encontros com as diversas personalidades. Também conseguiram que a personagem não respondesse a jornalistas em conferência de imprensa. Mas não contaram com o seu impulso, a sua sede de revelar ao mundo quem manda agora. Quase consigo visualizar o rosto dos assessores ao ler mais um tweet, especialmente os dirigidos à China, os mais difíceis de explicar;

- não saber esperar pacientemente pelo seu momento, o do assalto à Casa Branca: a escolha das personagens para as pastas mais importantes do Gabinete revelam a agenda, influenciar os negócios, escolher os parceiros de negócio, e não esquecer os biliões do tesouro da administração. A indústria do petróleo é a mais evidente, ainda por cima alguém ligado a Putin. E depois o Goldman Sachs, os grandes bancos. As personagens do Gabinete foram-se perfilando e tudo ficou a céu aberto: quem ia mandar a partir daqui. De fora, os acordos do clima, os direitos civis, a economia.


Ainda não é certo que a Constituição americana e os valores democráticos consigam travar este assalto à Casa Branca. São precisos 35 eleitores presidenciais republicanos a não confirmar Trump. E mesmo que o consigam, ainda não é certo que não o confirmem depois na Câmara dos Representantes. Mas é um travão importante. E um sinal de alarme difícil de apagar.

A nossa sorte, cidadãos do mundo, é que um dos Pais Fundadores da América, Hamilton, quis prevenir o assalto ao poder de qualquer possível populismo perigoso. É um dos filtros de defesa da democracia. E nós sabemos que este assalto teria um impacto global: instabilidade, insegurança, conflitos, terrorismo, pobreza, desastres naturais... 



sábado, 19 de novembro de 2016

O que falhou nos mecanismos da democracia americana?





Lembro-me bem das eleições presidenciais americanas de 2000, Bush vs Al Gore. Essas eleições determinaram drasticamente as nossas vidas, enquanto cidadãos do mundo, até hoje.
Al Gore teve de fazer uma travessia do deserto, foi descredibilizado e ridicularizado, e o mundo continuou alegremente a basear a sua economia em indústrias poluentes. Mas ainda pior!, em nome de megalomanias do poder e da finança, o mundo tornou-se um lugar mais perigoso.

Passados 16 anos, o sistema eleitoral americano não tinha melhor para oferecer aos cidadãos do que Trump vs Hillary Clinton? Como é isto possível?
Um candidato à presidência da maior potência mundial não tem de se submeter a uma avaliação psicológica, mental e de personalidade, para se verificar a sua capacidade para o cargo, mental, comportamental, experiência profissional, valores democráticos, respeito pela Constituição? Não há qualquer exigência básica?

Reparem: por muito menos, erros de avaliação psicológica em profissionais de transporte levaram um piloto de uma companhia aérea a dirigir o avião - e as pessoas lá dentro -, contra uma montanha, e um piloto de um comboio de alta velocidade a descarrilar - com as pessoas lá dentro -, ao entrar numa curva acentuada.

Ao ver as notícias da CNN, da Fox, da BBC, da Sky News, até tremo. As lideranças mundiais, de que esperávamos algum bom senso e que nos dessem alguma sensação de segurança, estão em suspense. Algumas até já se dirigiram à torre de Trump - se não fosse um caso tão sério para todos nós até dava um tema para um filme. Algumas lideranças verbalizaram o impensável: Estamos à espera de ver se o Trump presidente é diferente do Trump candidato. A sério? E se o Trump presidente for mesmo o Trump candidato? Têm algum plano B?

É que tudo nos indica que o Trump presidente é mesmo o Trump candidato. E sendo assim, o que falhou? Quais os mecanismos da democracia americana, Constituição, instituições, filtros do poder, dispositivos de segurança básicos, que falharam?
Já tinham falhado com Bush, e vejam o resultado. Agora conseguiram falhar muito mais.

O que falhou:

1 - o sistema eleitoral: a avaliação prévia de cada candidato para se verificar a sua capacidade para o cargo, mental, comportamental, experiência profissional, valores democráticos, respeito pela Constituição. Imagine-se agora o Trump presidente a jurar sobre a Constituição no dia da tomada de posse, depois de ter desrespeitado quase todos os valores constitucionais... Tudo é permitido durante as campanhas, a linguagem, os preconceitos e os bodes expiatórios, o apelo à divisão, a ameaça de deportação e prisão, próprios das culturas fascizóides, e subitamente, depois das eleições, a imagem é limpa e surge imaculada na torre com o seu nome. A equipa que rodeia o eleito é toda constituída por "a good guy", "a good person". E o mundo em suspense...;

2 - o sistema político: os eleitores só têm duas opções de escolha, dois únicos partidos, duas únicas cores, vermelho e azul. O sistema está encriptado, fossilizado, fechado a uma terceira escolha. E mesmo nas duas únicas opções chega ao final quem tem mais recursos: exposição mediática, apoios influentes, etc. Foi assim com Hillary vs Bernie nas Primárias, deixando os jovens sem candidato;

3 - a cultura americana: o que é promovido nos media?, a quem se dá voz? Às elites, a celebridades, a megalómanos, a uma cultura narcísica, a uma minoria de pessoas e de interesses. Falta descodificar as agendas das elites e desmontar a desinformação. Falta dar voz aos grupos representativos das diversas regiões, dos milhões de cidadãos esquecidos pelo sistema político e financeiro. Senão, o que é que acontece? A raiva e a revolta leva-os a votar emocionalmente. O trágico é que votaram, dentro das duas únicas opções, no seu pior inimigo.



quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Como é que uma personagem como Trump chegou à final da corrida presidencial?





Gravei o 3º debate da corrida presidencial americana na Sic Notícias. 
No início do debate o que sobressaiu, a meu ver, foi o profissionalismo dos assessores políticos das campanhas: é obra conseguir treinar Trump, por exemplo, a comportar-se com firmeza controlada. Isto durou cerca de meia hora.
No resto do debate a personalidade de Trump começou a sobrepor-se ao treino cuidadoso a que o tinham sujeito. 
E perto do final Trump espalhou-se ao comprido no tapete: era o K.O.

Alguém que se inscreve numa qualquer corrida tem de aceitar as regras do jogo. Senão pura e simplesmente não deve participar. 
Quando o adversário o ultrapassa quase no final começar a gritar que a corrida está viciada, é ridículo.
Não foi apenas esse momento que determinou o K.O., houve outros, mas esse foi claramente o pior.
Pensar nas horas de trabalho árduo dos treinadores de Trump para o ajudarem a comportar-se e a decorar as respostas às questões principais, e vê-lo desbaratar todo esse esforço, é até risível.

A imagem do final do debate também diz tudo sobre Trump: cumprimenta o jornalista de cima para baixo do palco, mantém-se no palco, a família é que se aproxima dele, rodeando-o, ficando todos em círculo em cima do palco, como um grupo de celebridades. Esta é a imagem que fica.

Hillary desce do palco e aproxima-se das pessoas. O seu rosto é aberto e sorridente. A cor branca do fato ajuda, dá-lhe uma luminosidade afirmativa pacífica. Tudo isto é estudado ao milímetro, nada é deixado ao acaso.

Hoje os bons políticos têm de ser bons actores. Apresentar-se na televisão, informar, afirmar, comunicar. Aguentar a pressão, a crítica, os golpes, e a agressividade. Ir a jogo para ganhar, mas saber lidar com a frustração de perder.



A minha perplexidade nestas eleições presidenciais americanas mantém-se: como é que uma personagem como Trump pode sequer ter chegado à final?

Mesmo contando com (e até precisamente por causa disso):
- a dimensão da revolta dos cidadãos esquecidos, maltratados, excluídos pelo sistema político americano;
- a destruição económica pelo sistema financeiro de indústria, comércio, cidades, empregos, deixando famílias na rua, comunidades desestruturadas;
- a desigualdade impensável e incomportável na distribuição dos rendimentos, dos recursos, do património, do poder e da influência, entre o 1% e os restantes 99%.

Trump apresenta-se como o bilionário que não paga impostos porque é esperto!
Trump construiu o seu império imobiliário com trabalhadores ilegais.
Trump também fez negócios ruinosos deixando para trás edifícios megalómanos abandonados.
Trump, segundo uma investigação do Financial Times, terá ligações a uma rede internacional de lavagem de dinheiro.
Isto não seria mais do que suficiente para afastar os votos dos revoltados?

Será que os outros candidatos republicanos eram assim tão fracos?
Será que o "one man show" e o entretenimento vêm substituir o perfil e a preparação dos políticos?

Só no dia das eleições poderemos saber e compreender um pouco melhor o fenómeno. Mas estas questões são preocupantes.


segunda-feira, 16 de maio de 2016

Quando um governo não tem legitimidade política: o caso do Brasil






Neste vídeo, a proximidade com as pessoas que se manifestam espontaneamente compensa o facto de ser um vídeo amador. O jovem que filma vai descrevendo de forma objectiva o que vê: o facto de ser uma manifestação espontânea, não programada, o facto de se verem muitas mulheres, muitos jovens, o que vão dizendo, em nome das mulheres, dos operários, dos pobres, dos indígenas. Recordam o caminho que os avós e os pais percorreram contra a ditadura. Democracia e luta. Esta é a essência da sua revolta contra o golpe político e o governo Temer.  

"A democracia brasileira morre aos 27 anos" diz Gregório Duvivier, um dos colaboradores do Porta dos Fundos. E esclarece numa síntese perfeita a cultura retrógrada do governo Temer.
A minha primeira perplexidade: onde é que estes fantasmas estavam escondidos? Nalgum sótão de um casarão velho cheio de teias de aranha? Este tipo de homem saído do séc. XIX existe mesmo? Não é uma imagem halográfica replicada em 16 figuras para nos convencer que são mesmo reais, de carne e osso?
A minha segunda perplexidade: como foi possível isto acontecer no Brasil?

Como tudo na vida, caros Viajante que passam por este cantinho do vozes_dissonantes, se não tivessem saído do sótão escuro de onde manipulavam os negócios da política e a política dos negócios, nunca saberíamos da sua existência e nunca poderíamos desmontar a sua cultura de base.
As medidas que este governo já anunciou lembraram-me outras que aqui também já sofremos durante os 4 anos do governo-troika. Só que estes fantasmas estão todos implicados em casos de justiça. 

Para já, o povo brasileiro não aceita este governo. Mas não subestimar a força policial e militar que governos sem legitimidade política e com esta cultura retrógrada podem mobilizar contra as populações.



Post publicado no Vozes Dissonantes.


segunda-feira, 4 de abril de 2016

O dossier Panamá

Ora aqui está um belíssimo título para um livro ou um filme. Um trabalho de partilha de informação de jornalistas de investigação. Uma de muitas tentativas de divulgação do que se passa nos bastidores das finanças e das negociatas de quem não se quer sujeitar às regras da convivência justa, equilibrada e civilizada do comum dos mortais.

E quem encontramos lá? Algumas personagens não nos surpreendem, já contávamos com isso. Mas o primeiro-ministro da Islândia? De um país que acabou de atravessar uma das crises financeiras mais terríveis? E eu que pensava que as mulheres islandesas tinham tomado conta do poder para não deixar que cenas destas voltassem a acontecer...

O Messi? Admirado por tantos jovens de todo o mundo? Um símbolo do desporto? E logo quando o futebol ainda tem a mancha da corrupção agarrada à FIFA como pastilha elástica?

O mais interessante é constatar, quando se fala de offshores, que a cultura vigente ainda é aceitar a sua existência com naturalidade, como se fosse normal fugir ao fisco só porque se tem muito dinheiro. Tudo ao contrário, não acham? Mais aceitável seria perdoar uma pequena fuga ao fisco de quem tem pouco dinheiro... Só que para esses é a penhora.

Isto dos offshores já é uma grande rede de interesses, todos a retirar a sua parcela, bancos, empresas, advogados... A cultura vigente está tão enraizada que até gestores políticos propõem o perdão fiscal parcial e ainda se sentem gratos por esses montantes regressarem à legalidade.

E haverá ainda o argumento de que a finança poderá colapsar se se sujeitar às regras democráticas do equilíbrio de uma sociedade civilizada. De onde se poderá concluir que esta finança actual se baseia no desequilíbrio, na ausência de regras democráticas, e só funciona fora da lei.

E há outra questão muito actual que aqui surge como prioritária: a segurança. Os offshores são um óptimo esconderijo para financiar o terrorismo. 

A mudança necessária é cultural, mas tem de se começar por um lado, pelo trabalho jornalístico. 







terça-feira, 13 de outubro de 2015

Ainda não temos governo mas já temos Presidente

É impressão minha ou este Outono está a revelar-se mais suave e alegre? Como se um peso nos tivesse sido tirado dos ombros... e só pelo facto de estarmos, bem... sem governo. 
Agradeço, pois, a todos os Indecisos que foram votar terem hesitado até ao último momento e terem mantido o suspense até ao fim. Assim, comparando com as sondagens na semana anterior às eleições, podemos concluir que a distribuição dos seus votos foi deveras interessante: bastantes votos para o BE, alguns para o PS, uns poucos para a CDU, e ainda se lembraram do PAN, o único dos novos partidos a merecer a sua atenção.

Apesar da dupla PSD/CDS, da comunicação social e dos comentadores agitarem os fantasmas do passado, para assustar os cidadãos quanto à possibilidade de formação de um governo de esquerda, os ditos cidadãos não parecem preocupados. A vida continua docemente e em paz.
Afinal, podemos não ter governo mas já temos Presidente.

Alguém que finalmente apresenta a sua candidatura fora do centro político e das luzes da ribalta, junto dos cidadãos.
Alguém que define a sua futura forma de representar o seu país e os seus concidadãos, perto das pessoas e com as pessoas. Sim, finalmente alguém que gosta de pessoas.
Assim, se o governo que sair das negociações em curso se vir entalado ou pressionado, já temos alguém que pode construir pontes e manter a harmonia e equilíbrio há tanto desejados.

Entretanto vou saboreando estes dias de intervalo sem a dupla PSD/CDS no poder. Esta súbita paz, esta calma outonal... 
Afinal há uma década já que somos massacrados com personagens rígidas e arrogantes. Não seria bom que agora surgissem pessoas a sério?

Para celebrar este Outono e este intervalo, um filme muito arrumadinho dos anos 50:






  

sábado, 1 de agosto de 2015

Onde reside o verdadeiro radicalismo e onde reside a possível estabilidade

A coligação governamental tem utilizado o termo radicalismoa pensar sobretudo no adversário mais próximo, reforçando o medo de voltar ao despesismo, e atirando-nos com os papões dos mercados, do rating, e do esforço perdido destes 4 anos de sacrifícios.
E contrapondo a este radicalismo, apregoam que é com eles que reside a estabilidade. E insistem nas palavras-chave: estabilidade e prudência.

Desmontando esta lógica:

Radicalismo: querem mudanças mais radicais do que as que foram impostas aos portugueses, sobretudo à classe média, remediados e pobres, e ao país, à sua economia e aos seus recursos? Onde reside afinal o radicalismo?
E em nome de quê? Da confiança dos mercados, que se movem precisamente nas areias movediças das apostas e do oportunismo, e que são o mais voláteis possível, provocando a maior instabilidade?
Os sacrifícios, os cortes nos salários, nas pensões, nos subsídios, na saúde, na educação, e a enorme subida de impostos e taxas, seguiram a lógica do ajustamento necessário, isto é, da sua inevitabilidade, e dos benefícios da austeridadePara já, os sacrifícios não foram deles, foram dos piegas dos portugueses: classe média, remediados e pobres. Que agora se vão aproximando todos, cada vez mais, da pobreza.
Nestes 4 anos verificou-se, pois, uma mudança radical a nível social e a nível económico (ir além da troika). Hoje o país está completamente diferente: 
as desigualdades sociais aumentaram exponencialmente, com uma pequena minoria cada vez mais rica e a grande maioria cada vez mais pobre. Os recursos públicos nas mãos de privados estrangeiros. E mais buracos para pagar: fraudes financeiras (bancos), grande evasão fiscal, privilégios dos grandes grupos privados, etc.
 - a economia baseia-se em salários baixos, o que implica desemprego elevado, na transferência de recursos públicos para privados, nas empresas exportadoras, e no controle do consumo interno. 

Estabilidade: onde reside então a estabilidade e a prudência? Como vimos, não é na austeridade, um programa radical que provocou a maior insegurança e instabilidade na vida concreta das pessoas. E ir além da troika sem explicar aos cidadãos as razões de tal opção radical, revela precisamente o contrário da prudência. Prudência seria avaliar bem a situação económica e as exigências dos credores, e optar por um caminho que não destruísse a economia nem massacrasse os cidadãos. Quando as decisões políticas afectam de forma determinante vidas concretas e o seu futuro, a prudência indica informação e transparência.
Como vimos, não é na coligação governamental que reside a estabilidade que os portugueses necessitam e que o país, a sua economia, necessita.

Onde reside então a estabilidade possível?

A possível estabilidade reside em desmontar as mentiras, o que terá de ser ensinado às crianças, como referiu João Magalhães na SicNotícias. Mentiras que, segundo a sua experiência na investigação de casos de Justiça, são protegidas pelo secretismo, isto é, pela forma errada como se utilizam o segredo de Justiça, o segredo de Segurança, etc.  
Desmontar as mentiras baseia-se na capacidade de observação e análise, na inteligência prática, no bom senso, no equilíbrio, no respeito pelos valores da democracia, no respeito por si próprio e pelos outros.
A possível estabilidade implica informação fiável, transparência e justiça.  
A possível estabilidade reside nos valores democráticos perdidos e nos equilíbrios perdidos.









quarta-feira, 8 de abril de 2015

Presidente vs primeiro ministro

Hoje ser Presidente em Portugal é muito mais atractivo do que ser primeiro ministro.

E porquê? Porque o próximo primeiro ministro que sair do bloco central partidário terá de seguir o guião e obedecer à cultura política dominante.
E qual é o guião? É o manual europeu dos credores e dos mercados.
E qual é a cultura política dominante? A que nos é tristemente revelada na assembleia da república. 
Os novos partidos que vemos emergir terão de se afirmar culturalmente sem complexos nem receios, e isso dá muito trabalho.

Já ser Presidente é mais interessante actualmente, trata-se de: representar um país, um povo, uma cultura; lembrar os valores essenciais expressos na Constituição; inspirar para a acção criativa e para o bem comum; identificar as oportunidades e possibilidades e activá-las a partir do seu papel de influência. Um/a candidato/a de acção e exemplo.
Finalmente, um/uma candidato/a que revelar gostar realmente de pessoas, de interagir com pessoas, e que se movimente à vontade, não apenas no seu grupo de referência mas em todos os meios culturais e sociais. 






domingo, 11 de maio de 2014

Será que num futuro próximo poderemos estar perante a escolha entre o euro e a democracia?

Aqui referi que não saberia responder se a questão do euro era ou não central no debate sobre como a união europeia se afastou do projecto inicial. Entretanto, depois de ouvir as diferentes perspectivas, torna-se cada vez mais evidente para mim que, mais cedo ou mais tarde, a permanência no euro se vai tornar insustentável. A tal ponto que a escolha se fará entre o euro e a democracia na Europa, como refere Emmanuel Todd nesta conferência da Harper:



Para este antropólogo social e historiador, especialista em demografia, não se trata apenas de uma crise económica potenciada pela moeda única, mas de uma verdadeira crise social e cultural. Destaca as principais diferenças culturais entre franceses e alemães por exemplo, entre uma sociedade individualista e uma sociedade colectivista, uma sociedade pouco eficiente e uma sociedade muito eficiente. Refere também os preconceitos culturais norte-sul que entretanto surgiram na Europa e expõe os erros do projecto inicial. A sua proposta é um regresso à solidariedade regional e local, depois do tsunami da globalização.

Temos verificado que o euro se tornou um assunto tabu, excepto nalguns programas eleitorais, mas o pior que nos podia acontecer, e estamos muito mais vulneráveis do que a França, era não estarmos minimamente preparados para a possibilidade de uma saída forçada pelas circunstâncias. Deveríamos estar a pensar num plano B.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Liberdade: duas perspectivas

Uma das coisas que mais me fascina é a diversidade e a complexidade das perspectivas sobre conceitos como a liberdade. Quando se debate a liberdade, surgem logo equívocos culturais de que ainda não nos conseguimos libertar. E depois, há ainda os diversos patamares de liberdade: de expressão, de defesa, de reclamação, de reivindicação, de participação, de decisão, etc. Vejam só qual o patamar em que hoje podemos exercer a liberdade democrática, a liberdade de expressão. Os outros patamares são-nos vedados, a começar pela ausência de informação fidedigna sobre questões que nos dizem respeito.

1 - Numa sociedade narcisista como a actual, individualista e competitiva, a liberdade é perspectivada como a ausência de obstáculos à iniciativa individual na concretização de um projecto e na aquisição de bens. Nesta cultura "libertária" vale a lei do mais forte, do mais inteligente, hábil, bem relacionado e vocacionado para o "sucesso". Há vencedores e vencidos. De certo modo, é o regresso à lei da selva. Embora, mesmo na selva consigamos imaginar alguma forma de cooperação para aumentar as probabilidades de sobrevivência. Ora, na nossa cultura actual, a cooperação surge dentro de grupos de "vencedores" e, por consequência, entre grupos de "vencidos", mas raramente entre "vencedores" e "vencidos" e mesmo nesta é porque favorece os "vencedores". 
Esta é a cultura actualmente valorizada e promovida no país. Exemplo de uma consequência na Educação: voltámos a verificar os preconceitos de antigamente, há os filhos de classes privilegiadas e os outros, há os que frequentam escolas privadas e financiadas pelo Estado e os outros que frequentam a escola pública. O "bullying" e as praxes, o poder do mais forte sobre o mais fraco, o culto do herói, é um dos sinais que identifica esta organização social e é a anulação da empatia e da possibilidade de convivência social saudável.
Se quisermos analisar esta organização "libertária" da sociedade de forma aprofundada, iríamos descobrir que os mais fortes são afinal os mais frágeis pois dependem daqueles que conseguem dominar. É um paradoxo que alguns aproximam do síndrome de Estocolmo, mas que me parece mais próximo da explicação
de "conformismo" de Arno Gruen. Pensamos que precisamos de líderes fortes, os "falsos deuses", e acabamos por ser as suas principais vítimas.




2 - Numa sociedade democrática, a liberdade é um valor muito semelhante ao equilíbrio, à capacidade de adaptação, que se vai aprendendo à medida que se vai adquirindo alguma autonomia individual e consciência de grupo, de comunidade. A liberdade não é um conceito rígido em que vale tudo, mas um constante diálogo entre indivíduos e grupos numa comunidade. A cultura dominante é o respeito por todos e por cada um, e a protecção dos mais frágeis.
A capacidade fundamental é a da socialização equilibrada e saudável, em que a violência é penalizada firmemente.
Esta forma de organização social, cujo ideal é o da democracia participativa, exige muito mais responsabilidade de cada um e da comunidade, e implica uma educação para a cidadania desde a infância. A melhor forma de preparar as crianças e jovens para uma sociedade democrática é facilitar a sua autonomia progressiva até ao ponto de poder analisar e perspectivar o mundo de forma própria e consciente.
Esta é a organização que permite uma vida mais gratificante para todos os elementos de uma comunidade, porque ninguém é deixado de fora. Também me parece a organização mais viável e sustentável, termos hoje tão utilizados de forma desviante, isto é, que promove precisamente os desequilíbrios. Ora, só é sustentável o que é viável.