Todas as possibilidades de convivência das diversas formas de vida na Terra. A relação humanos - Terra. A relação humanos - humanos. A relação humanos - outras espécies.
A reparação às vítimas e às famílias afectadas é simplesmente impossível. Acompanhar a sua dor, ouvir, ou estar, simplesmente. Casas, memórias, fábricas, o trabalho dedicado de populações laboriosas, podem reparar-se apenas com indemnizações? Recursos colectivos de um país esquecido e abandonado, destruídos sistematicamente pelo terrorismo incendiário sem que se tenha sequer assumido essa realidade, podem reparar-se enquanto este governo se mantiver em funções? Não podem. A Assembleia da República tem condições, neste momento, de encontrar uma alternativa viável, quando dali não saiu sequer uma perspectiva da realidade do país? Não tem. Teremos de aguardar pela reformulação e reorganização do PSD. A meu ver, um governo provisório, constituído por pessoas experientes da sociedade civil, que nos levasse até às próximas legislativas era o ideal na nossa actual situação de desmoralização e insegurança. Desafios a curto-prazo: prevenção de situações de risco (a Protecção civil sob a tutela das forças armadas); a investigação para melhor prevenção com agilização legislativa da Justiça; mobilização de recursos e apoios para reconstrução de habitações, fábricas e empresas. Contrariamente à opinião de uma comentadora de serviço para controle de danos, na RTP3, que "somos bipolares", considero que somos fortemente comunitários e essa tem sido a nossa hipótese de sobrevivência a sucessivos governos incompetentes. Sobrevivemos ao gonçalvismo, ao soarismo, ao cavaquismo, ao guterrismo, ao barrosismo, ao socratismo, ao passismo. Mais difícil e doloroso será sobreviver a esta mistura híbrida socratismo no marketing e na arrogância, passismo nos preconceitos culturais e na ausência de empatia. Um governo provisório seria uma solução que poderia ajudar a recuperar a confiança e a esperança.
Em entrevista à TVI o PM revela ter procurado respostas que possam esclarecer a tragédia em Pedrógão Grande. A causa do incêndio, a rapidez da sua propagação e a estrada que se manteve aberta ao trânsito, foram as questões fundamentais. As entidades técnicas, científicas, administrativas, inclinam-se para circunstâncias adversas em simultâneo: fenómenos atmosféricos como trovoada seca, ausência de humidade, ventos como furacão. As várias entradas ao longo da estrada teriam dificultado o seu encerramento. A propagação rápida e em várias direcções terá dificultado a informação correcta a quem procurava escapar de carro. No início verificou-se uma divergência entre o comandante dos bombeiros, Marta Soares, a referir "mão criminosa", e a polícia judiciária a não encontrar indícios criminais e a apoiar a tese da trovoada seca. Parece que entretanto ja admite a hipótese de origem criminosa. Esta hesitação da policia judiciária deixa-nos logo uma sensação de insegurança. Afinal, deveriam ser os primeiros a descobrir... Já vimos, ao longo dos anos, como a maior parte dos incândios florestais evolui em Portugal, para deduzir a sua origem criminosa. Raciocinem comigo. Um incêndio que, logo no seu início, apresenta várias frentes que evoluem para um enorme círculo atingindo, em muito pouco tempo, uma dimensão de muitos quilómetros. Mesmo contando com as condições atmosféricas e a trovoada seca, era preciso a queda de vários raios a uma distância considerável uns dos outros e em simultâneo, para que o incêndio evoluísse em várias frentes e àquela velocidade devoradora. Estes crimes repetem-se anualmente e sem uma intervenção clara e eficaz das autoridades competentes, como se estes crimes não configurassem gravidade equivalente a um acto terrorista. Vejam o que foi necessário acontecer para acordar o pais para a exigência de respostas eficazes e responsáveis. As pessoas não vão aceitar, a partir daqui, a mesma negligência de décadas da gestão política.
Ontem acompanhei os resultados da 1ª volta das eleições presidenciais francesas. E, no final, quando se tinham já perfilado os 2 candidatos à 2ª volta e vi ali Le Pen, percebi claramente que o medo a ajudou.
O paradoxo do securitarismo a partir do medo é que não garante a segurança daspopulações e cria obstáculos à própria segurança ao alimentar um ambiente propício à insegurança.
É isso que os media deveriam ter descodificado da mensagem de Le Pen, e desmontado as ligações perigosas com a Rússia.
É aqui que as democracias actuais falham na protecção das populações: a segurança depende da democracia, da transparência, da informação correcta às populações. Tudo isto faz parte da prevenção.
Também faz parte da prevenção: o trabalho dos serviços de informação, dos especialistas da internet, dos ataques cibernéticos, da contra-informação, da investigação de ligações políticas e/ou financeiras a interesses adversários ao país e às populações que representam.
Assim como os media não contextualizam o resultado de Le Pen, nem os serviços de informação assinalam nada de estranho nas ligações à Rússia, também não esperamos que consigam contextualizar a revolta de jovens parisienses logo depois de conhecidos os resultados da 1ª volta. O desespero inconformado de quem se sente impotente, quando expresso em violência caótica e revolta mal dirigida, não gera empatia ou compreensão nas populações. E geralmente é-nos apresentado apenas de forma simplista: grupos de anarquistas, por exemplo. São jovens e estão desesperados. São jovens e sentem-se impotentes. São jovens e o sistema não os ouve.
A tensão social é propícia à violência, e se juntarmos a este ambiente de alta tensão quaisquer interferências previstas, todo o cuidado é pouco.
O que está a falhar na segurança das populações?
- o sistema político actual. Para se dizer democrático, precisa de se reformar de cima abaixo;
- a investigação de ligações políticas e/ou financeiras perigosas para a segurança do país, da população, mas também da Europa e das suas populações;
- os media que normalizam o inaceitável, acabando por ser um obstáculo à informação que as populações precisam para decidir da melhor forma (neste caso, as eleições). O voto deveria servir para garantir a sua própria segurança e a possibilidade de ver concretizadas as suas legítimas expectativas.
As bases de uma democracia de qualidade - informação, transparência, comunicação, equilíbrio, inclusão - são as que melhor garantem a prevenção e a segurança.
As pessoas estão entregues a si próprias e é natural que procurem informação nas redes sociais. É certo que lá encontramos muita informação falsa, contra-informação, propaganda mal intencionada, etc., mas há a possibilidade de aprender a filtrar a informação fiável, fidedigna e útil, se estivermos atentos e treinarmos a capacidade de verificar a correlação de diversos factores.
Há que estar atento, alerta, mantendo a calma. Não é fácil.
Há que observar, descodificar, desmontar, procurando a informação mais fiável.
Há que escolher a melhor solução, a que melhor garante o ambiente de segurança propício ao equilíbrio democrático e à prosperidade económica.
Voltaram as incursões bélicas sem legitimidade democrática internacional. Está a esvaziar-se o papel das Nações Unidas e a relegá-lo para as situações de emergência humanitária, a prevenção de conflitos bélicos e a formação das lideranças do futuro. E a fase intermédia?, a fase que pode evitar as situações de emergência? A mesa das negociações multilaterais, o seu maior desígnio, vai passar-lhe agora ao lado? Façamos o exercício, difícil, de entrar na cabeça dos generais com muita experiência de jogos do género. Já sentem a adrenalina no sangue? E ao mesmo tempo, a capacidade de raciocinar estrategicamente em situação-limite? Só mais um passo: que argumentos vos levam a decidir uma incursão bélica? E a escolher no menu das hipóteses: um aviso sério - ataque cirúrgico - perímetro a destruir. Claro que partimos do princípio que, nesta fase de decisão determinante, os generais já foram informados pelos serviços secretos e outros, do contexto em que se movem e dos cenários que podem provocar. Estão prontos? Vamos a isso. A Coreia do Norte quer festejar o aniversário do avô com umas demonstrações nucleares. A China, o seu único aliado, vê-se impotente para resolver o assunto. Situação actual: os Estados Unidos mobilizaram porta-aviões e o Japão aviões militares. O Japão também quer retirar os seus conterrâneos da Coreia do Sul. Qual será a estratégia que os generais americanos vão escolher? Trata-se de um aviso? Um aviso grau 4?, grau 5? Que estratégia acham possível numa situação como esta, em que deixaram acontecer festejos nucleares de ensaio seguidos, e só agora lhes querem estragar a festa? E do outro lado?, qual o grau de alucinação bélica com que estamos a lidar? Quais os riscos reais para as populações da região em primeiro lugar, e do mundo logo a seguir? É possível comunicar com o lado de lá? Eles aceitam trocar os festejos bélicos por outros? Entendem sequer o conceito de troca? Eles começam a acreditar que somos tão alucinados como eles, ao ponto de passar a jogar a sério? Nesta altura uma pessoa comum começa a vacilar. Isto é um jogo perigoso. Várias dúvidas surgem a confundir os seus pobres neurónios. Pode-se argumentar, a favor de incursões bélicas não legitimadas internacionalmente, a sua eficácia? Podemos até aceitar que um aviso bélico repentino é mais sério e perigoso do que um um aviso convencional, porque tem o factor imprevisibilidade. Mas é esse factor que joga contra nós todos, os habitantes de um planeta que ainda alberga este tipo de lideranças alucinadas. Não é preferível investir a nossa inteligência colectiva na prevenção de situações-limite e de emergência humanitária? E para isso não é fundamental o papel das Nações Unidas: o anfiteatro dos argumentos e a mesa das decisões? Os papéis estão interligados. Como se podem aplicar sanções ao Irão, a Israel, à Rússia, à Síria, à Coreia do Norte, fora das Nações Unidas?
Quais são as condições básicas da segurança? Como deve ser perspectivada? Qual é o ambiente favorável à segurança? De quelideranças europeias precisamos? A equação que proponho é: democracia - equilíbrio - colaboração - inovação cultural. É aqui que reside a nossa segurança. 1ª componente: democracia Vamos fazer rewind: só um amnésico ou muito distraído não aprendeu nada com a história do séc. XX. Acredito que muitos da minha geração, a que viveu a adolescência nos anos 70 e bebeu alguns ideais de paz em liberdade e amor universal, aprenderam a imunizar-se ao vírus das grandes ideologias das gerações anteriores. Por isso é que considero que a minha geração é uma geração de transição. Ficou pendurada no tempo. A cultura dominante em que viveu não correspondia à sua forma de ver e viver. Restava-lhe observar, analisar, deduzir. Restava-lhe aprender. A internet, pelo acesso à informação e pela comunicação em tempo real, foi o primeiro salto no tempo. A partir daí, o desafio era essencialmente cultural: tínhamos as tecnologias mas faltava-nos a acção inteligente e inovadora e a descodificação cultural. É aqui que a nossa geração de transição pode ser útil às gerações posteriores: passar o testemunho do que vimos e vivemos de uma cultura passada, organizada em ideologias, e por uma lógica de separação, competição e desequilíbrio de poderes, que não é compatível com a democracia, a participação, a colaboração. Essa cultura não nos serve.
Dizem-nos que este populismo que vemos na liderança americana e em lideranças de países europeus é novo. Não é. É o mesmo populismo das ideologias do séc. XX. O que mudou foi a forma, a mensagem, a propaganda. Tornou-se mais simples, directa, reactiva, impulsiva, no tempo sincopado do séc. XXI. Não é por acaso que a forma utilizada pela liderança americana é o tweet. :) É preciso aprender a descodificar a mensagem, identificar a cultura de base e desmontar a agenda. Não é um desafio fácil, a mensagem é apresentada de forma simples e atractiva. Apela às emoções básicas como o medo, a raiva, e torna-se viral. Recorre a bodes expiatórios, a forma de bullying político mais eficaz. A separação e divisão das comunidades começa assim, e liga-se aos preconceitos culturais subliminares. A partir do momento em que se descodifica a mensagem e se identifica a cultura de base, a agenda surge-nos mesmo à nossa frente: manter a sociedade organizada numa nova versão do velho formato de sociedades hierarquizadas, em que o poder é concentrado num pequeno grupo com privilégios especiais. A democracia é esvaziada e fica a funcionar como caricatura, alimentada por tablóides. Estas lideranças pensam que estão a lidar com cidadãos ignorantes e facilmente manipuláveis, que podem alienar com promessas de um futuro brilhante. Na realidade, ainda conseguem alguma ressonância nas pessoas que foram fortemente prejudicadas pela globalização selvagem e/ou pelas fraudes financeiras e/ou pela austeridade europeia, assim como nalgumas franjas de fanáticos. 2ª componente: equilíbrio O equilíbrio é uma das palavras-chave da vida na terra (ver aqui ao lado). Porque é uma condição básica da vida. Também é uma condição básica da segurança. A democracia pode ser perspectivada como uma forma equilibrada de organizar a nossa vida colectiva. Também é assim que podemos perspectivar a liberdade e resolver alguns equívocos culturais. 3ª componente: colaboração Outra condição básica da vida. Basta estudar as células, os neurónios, como respondem a uma emergência. Transponham este princípio para as pessoas, as comunidades, as cidades, os países, os continentes. Hoje temos de pensar no mundo global. Somos, em primeiro lugar, cidadãos do mundo, habitantes de um mesmo planeta. A seguir, somos cidadãos de um continente, de um país, de uma comunidade. Os populismos quiseram uma globalização só para alguns (Thatcher) e agora querem negócios protegidos e trocas trans-nacionais à sua medida (Trump, Le Pèn). Podem prometer o mundo como o vêem e querem transformar, mas estão apenas a bater com a cabeça nos muros que querem construir. E a levar atrás da sua alucinação as populações conformistas. 4ª componente: inovação cultural Se as ideologias não funcionaram no séc. XX, a não ser para alguns fanáticos e alucinados, como continuam a fazer estragos no séc. XXI? Que tipo de ideologias estão a ser propagadas pelos fanáticos actuais? Ideia-base comum: A supremacia de uns sobre outros, uns são os líderes, as elites, são servidos e protegidos por um grupo de fiéis, e dominam sobre as massas. Quem são os líderes, as elites, ou os escolhidos? A meu ver, é importante observar que o escolhido nem sempre é quem detém o verdadeiro poder. O exercício do poder efectivo tornou-se mais ramificado e sofisticado (também funciona em rede). Actualmente vemos que a imagem proposta é um cabelo louro platinado, uma voz forte, os tablóides atrás e algumas frases simples e com impacto. Por trás está a máquina, os interesses, as finanças, os negócios. Acham que depois de provar e saborear as possibilidades que o séc. XXI nos pode trazer, que conseguiríamos sequer respirar nesse mundo abafado, poluído, ruidoso, dos populistas actuais? O futuro já nos inspira actualmente, aprendemos todos os dias, comunicamos em tempo real com pessoas de todo o planeta, encontramos ideias comuns, objectivos comuns, queremos colaborar em novas soluções. Já vimos que os recursos podem ser optimizados de forma inteligente, que todos podem ter acesso ao essencial para a vida, sem prejudicar o planeta = destruir as condições da própria vida. Concluindo: A segurança deve ser encarada numa perspectiva aberta, ampla, inteligente, preventiva, de colaboração e em democracia.
É incrível como depois de Berlim cidades como Londres, potenciais alvo deste tipo de ataques terroristas, não alteram a sua mobilidade. Esta é uma questão essencial, de segurança. A protecção das populações é uma prioridade em democracia. O valor da vida é, numa democracia, um valor prioritário. E a liberdade deve ser considerada, em primeiro lugar, como o direito à vida. É aqui que a segurança entra. Continuo sem perceber esta mensagem dos responsáveis políticos depois de ataques horríveis no coração das suas cidades, como se estivessem num teatro bélico a falar directamente para os terroristas: vamos continuar com o nosso estilo de vida. O que as pessoas precisam de ouvir não é isso. O que as pessoas precisam de ouvir é: vamos tomar todas as medidas de segurança preventiva para que este tipo de ataques não volte a ocorrer. Tal como em Berlim, põe-se a questão fundamental da mobilidade. A mobilidade dentro das cidades tem de ser encarada de uma forma inteligente e inovadora. Os transportes públicos também têm alguns desafios relativamente à segurança: aglomeração de pessoas num espaço reduzido. Com as novas tecnologias não há forma de disparar alarmes com a presença de metal, como nos aeroportos? (Muitas chaves de casa vão disparar? E muitas moedas nas carteiras? Bem, de qualquer modo em breve tudo isso será substituído por cartões.) Os cidadãos têm o direito à informação sobre medidas de segurança preventiva, que comportamentos adoptar, que comportamentos evitar. É mais inteligente lidar com os riscos e evitá-los do que a atitude de querer manter um estilo de vida e correr riscos porque se é corajoso. Os actuais equívocos relativamente à liberdade são culturais e políticos. Ninguém se questiona sobre os desequilíbrios económicos e financeiros que também limitam (e muito) a liberdade. Resolver os equívocos relativamente à liberdade também resolve os equívocos relativamente à segurança em democracia.
O papel das Nações Unidas adquire uma importância vital a partir deste ano. Passa a ter uma responsabilidade determinante na segurança mundial: - na prevenção de conflitos bélicos, de crimes de guerra, do terrorismo; - na prevenção de danos irreversíveis ao já frágil equilíbrio do nosso habitat terrestre. Há quem já considere a América como o risco geopolítico nº 1 e coloque a Coreia do Norte no nº 9. Já viram o que isto implica? Para já, no grupo problemático que se está a perfilar temos, além da América e da Coreia do Norte, a Rússia e Israel. Vamos deixar, habitantes deste planeta, que uns poucos países destruam vidas, economias, e o habitat das gerações futuras? E em nome de quê? Da estupidez de lideranças sem legitimidade pela forma como adquiriram e mantêm o poder, e pela sua motivação megalómana e alucinada: sede de fama e poder + apropriação de recursos + acumulação de dinheiro nos paraísos fiscais. Os países que colocarem em risco os restantes países devem ser responsabilizados. Sempre que atropelarem os direitos humanos, devem ser responsabilizados. Sempre que causarem danos no habitat de todos e das gerações futuras, devem ser responsabilizados.
O atentado em Berlim deixou-nos deprimidos e com razão. As pessoas sentem-se vulneráveis e indefesas. Muitos comentadores especializados nestas questões têm dito que a ameaça terrorista actual é dirigida ao nosso modo de vida e que é importante darmos uma clara mensagem de que não temos medo. A sério? Continuar a frequentar locais de grandes aglomerações para mostrar que não temos medo? Continuar a dar-lhes os cenários perfeitos para nos tornarmos as próximas vítimas de outros atentados? O medo é natural e aceitável, negar o direito a sentir medo é que não é aceitável. Correr riscos desnecessários é que não é aceitável. A melhor segurança das populações está na antecipação e na prevenção. Portanto, relativamente a este tipo de atentados, a primeira condição de segurança que se pode assegurar às populações é não permitir a circulação de veículos pesados dentro de um perímetro definido nas cidades. A meu ver, esta é a primeira condição de segurança preventiva nas cidades. É claro que estudar os motivos dos atentados é útil para evitar a sua ocorrência futura. Há um ódio cego nestes atentados de Nice e Berlim, que aponta para uma retaliação. Mas o objectivo final dos atentados parece ser o de desestabilizar, separar, desunir, assegurar o caminho a governos que retaliam em vez de anteciparem e prevenirem, e de retaliação em retaliação, arrastar estupidamente as populações para o caos, guerras, destruição, e mais mortes. Nos condomínios privados onde estas lideranças populistas vivem, podem engendrar estratégias reactivas e de retaliação, porque quem morre nas ruas são as populações indefesas. Portanto, de que forma se pode melhor prevenir a escalada de violência? Assegurar governos de lideranças inteligentes, equilibradas, sensatas, que promovam a estabilidade, a segurança, a união. Isto implica, naturalmente, exigir uma avaliação imparcial da saúde mental e dos traços de personalidade, de todos os candidatos à liderança de qualquer país. Trump não passaria na avaliação, Marine Le Pen também não. O que nos leva necessariamente a questionar o papel das Nações Unidas na questão da antecipação e prevenção, para assegurar a segurança das populações. Já vimos documentários suficientes em que a ONU só intervém para salvar as populações quando a situação já se descontrolou e já ocorreram muitas mortes e destruição.
Hoje qual é a melhor estratégia para assegurar a segurança dos cidadãos? E qual foi a estratégia escolhida pelas lideranças de França, Reino Unido, Alemanha? O que falhou em Paris? Não era lógico que fosse por aí que deviam começar? Reunir para analisar o que falhou, que tipo de violência é esta, como se financia, como adquire o armamento, como se desloca entre países, como se infiltra nos países, como recruta adolescentes? E seguidamente definir as melhores estratégias para lidar com este tipo de ameaça para os cidadãos? Os cidadãos são precisamente o alvo deste tipo de ataques. Os cidadãos que querem apenas viver em paz e poder confiar que as lideranças são capazes de assegurar a sua segurança.
Os cidadãos têm de observar e reflectir no que se está a passar em seu nome: Qual a resposta mais adequada a este tipo de ataques terroristas? Qual o papel dos cidadãos na sua própria defesa e segurança? Qual o papel dos cidadãos na questão urgente dos refugiados? Quem ganha com intervenções militares? Quem lucra com a guerra convencional? A resposta mais adequada a este tipo de violência terrorista é a prevenção, utilizando as novas tecnologias e procurando antecipar possíveis ataques. Ao nível da Defesa, um novo tipo de intervenção, na nova lógica do séc. XXI: inteligente, rápida, de antecipação. Com a utilização das novas tecnologias. Com a capacidade de ter acesso ao mundo opaco e informal da Finança, porque é aí que hoje tudo começa.
Ao nível social, todos sabemos o que isso implica: investir realmente no futuro dos jovens sem futuro. Contrariar as crescentes desigualdades sociais. E começar já. Claro que as condições sociais não explicam tudo, mas explicam muito. Como disse recentemente um especialista, a frustração de jovens desocupados que deambulam por bairros que são autênticos guetos, e se apercebem das crescentes desigualdades sociais, é uma condição favorável à sua recruta.
O papel dos cidadãos é mais importante do que se imagina:
Desmontar os equívocos sobre a violência. E, para isso, nada como ler atentamente Arno Gruen: "Falsos Deuses", "A Loucura da Normalidade" e "A Traição do Eu". É preciso compreender a natureza da violência, aprender a lidar com ela e a prevenir que se expanda. E é tão fácil expandi-la, justificá-la e massificá-la... Segundo Arno Gruen, uma grande parte da população é conformista, isto é, facilmente manipulável. É aqui que reside a sua maior fragilidade.
Não se deixar embalar pelos discursos oficiais, distanciar-se de respostas reactivas, pensar pela sua própria cabeça. Observar as decisões políticas das lideranças, e a comunicação social que matraqueia as posições oficiais. Observar a realidade sem filtros ilusórios ou distorcidos. Só na BD ou nos discursos oficiais o mundo é a preto e branco. As lideranças falam de uma ameaça exterior, como se a violência viesse de fora, de um território delimitado e de culturas e nacionalidades definidas. A ameaça já cá está. Recrutando adeptos, jovens vulneráveis e impressionáveis à glorificação da morte, a ilusão de uma heroicidade. Não é por acaso que estes jovens são adolescentes. E não é por acaso que vivem em bairros sem futuro. Ninguém pode viver sem futuro.
Estar atento e vigilante, de forma calma e ponderada, a todos os apelos à violência e tentar definir a forma como prevenir os focos de violência. Prevenir é agir de forma empática e sensata, cada um à sua dimensão e responsabilidade, e em colaboração. As redes sociais são um meio de comunicação e de informação muito poderoso. A globalização não beneficiou apenas a finança sem lei nem regras, os negócios internacionais obscuros, e agora este tipo de violência contra cidadãos. A globalização aproximou os cidadãos à escala planetária.
Promover a cultura da empatia e da colaboração. A intervenção vai passar pela educação das novas gerações, pela sua preparação para um mundo que publicita e glorifica a violência e a morte. A sua preparação para observar e reflectir, e agir de forma autónoma e responsável. A sua preparação para identificar a violência, no local onde vive, na família, na escola, na universidade, nas redes sociais, na finança, nas multinacionais, na venda de armas, nos crimes ambientais, nas decisões políticas. O ódio e o medo são os melhores aliados da cultura da violência e da destruição. É o ódio que preenche o vazio da linguagem do poder, e é o medo que a alimenta. Num vídeo que se tornou viral, um pai tenta explicar ao filho o inexplicável sobre a violência, revelando a atitude saudável, calma, empática, de responder à violência. Quando a criança diz, amedrontada, Temos de mudar de casa, o pai responde, A França é a nossa casa. Mas eles são maus..., Há maus em todo o lado. Mas eles têm pistolas..., E nós temos velas e flores..., As velas e flores é para nos proteger. Um desabafo nas redes sociais que também se tornou viral, o de um pai que perdeu a mulher: Náo terão o meu ódio. E pensemos na coragem de alguns que, perante os tiros no recinto, ainda assim, protegeram outros com o seu corpo. Ou nos que, na rua, foram socorrer os feridos sem pensar nos riscos que corriam, enquanto outros escondiam os fugitivos aterrorizados na sua casa.
Vivemos num mundo estranho em que a ficção se mistura com a realidade e tudo se assemelha a um guião de um filme previamente escrito. As populações seguem esse guião obedientemente, sem reflectir no papel que lhes e atribuído. Para encontrarmos algum sentido, alguma lógica nas informações que vamos ouvindo e vendo, temos de estar atentos aos pequenos pormenores. Mas mesmo assim tudo nos parece irreal. Como conciliar por exemplo: - o jornal satírico já tinha sido vítima de um atentado à bomba e recebido várias ameaças e, por esse facto, as instalações do jornal tinham direito a guarda policial; - o cartoonista desafia o destino com uma provocação sobre um possível atentado ainda em Janeiro; - os serviços secretos franceses andavam a vigiar os movimentos destes dois terroristas há já algum tempo. Apesar de nos ser dito que muitos atentados são evitados pela intervenção dos serviços policiais, a verdade é que este atentado estava já anunciado e era quase uma certeza esperada, pelo menos pelo cartoonista principal. O que mais me incomoda é a morte dos mártires involuntários. Os mártires voluntários levam sempre atrás de si a morte evitável de outros, os que querem viver. Neste mundo estranho vivemos o culto da cultura da morte, o fascínio pela violência, seja a das armas, seja a das palavras, seja a das imagens. Lembro-me bem das anedotas sobre a fome em África, como se fosse tema sobre o qual é possível ironizar. Assim como não é possível ironizar sobre o terrorismo, os fanáticos, os psicopatas. Hoje vemos que não são os elementos supostamente mais informados e mais cultos de uma sociedade que se comportam como modelos de tolerância e democracia, mas sim as pessoas comuns, as pessoas simples. A verdadeira cidadania implica uma responsabilidade relativamente às diferenças culturais e uma rejeição de toda a violência verbal ou comportamental. O que está a acontecer em França lembra-me o filme Babel em que as elites sociais, as instituições, as organizações, são muitas vezes os elementos perturbadores, ao criar divisões e conflitos, enquanto as populações conseguem gerir mais facilmente as diferenças culturais. É que afinal somos todos o reflexo uns dos outros neste multifacetado rosto humano, em que nos reconhecemos como parte de uma mesma humanidade.