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domingo, 31 de maio de 2015

As novas gerações e a colaboração

Ouvi recentemente Daniel Oliveira dizer, numa entrevista num telejornal matinal da SicNotícias, onde apresentava o seu livro de selecção de crónicas no Expresso, que os melhores dos melhores da nova geração são muito melhores do que os melhores dos melhores da sua geração. Concordo. E acrescento: e muito melhores do que os melhores dos melhores da minha geração. (De referir que o que captou a minha atenção para acompanhar a entrevista foi o título inspirado do livro: "A Década dos Psicopatas".)

Um simples exemplo da atitude consciente e responsável desses melhores dos melhores da nova geração verificou-se no Nepal logo após o terrível sismo. A minha frase favorita: "We had the money, two arms, one brain..." E felizmente as redes sociais responderam.
Além da consciência e responsabilidade, há neles uma frescura, uma simplicidade e autenticidade que não vejo realmente na generalidade das pessoas das gerações de 80 e 90 (considerei a década em que iniciaram a sua vida activa)
Estas qualidades, aliadas a uma inteligência prática e à utilização das redes sociais, pode concretizar muito mais e melhor do que a ajuda oficial sujeita a atrasos por motivos tantas vezes mesquinhos. E Isto dá-nos esperança para um futuro que vislumbramos incerto.

Por coincidência, a música com que finalizou hoje o programa "O Amor é" na Antena1, vibra na mesma onda da frase que destaquei lá em cima: "... tínhamos o dinheiro, dois braços, um cérebro..."






quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A verdadeira ironia

Do Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa, António Morais Silva, Editorial Confluência, 6ª edição: Ironia = Forma de interrogação outrora empregada por Sócrates em relação aos sofistas e que consistia em levá-los a contradições sucessivas para os convencer dos seus erros. // Sarcasmo em que se diz o contrário do que se que dizer e em que só pelo tom se reconhece a insinceridade das palavras. // Aquilo que apresenta contraste frisante com o que logicamente devia ser.

A verdadeira ironia desta tragédia recente em França é que os auto-intitulados "libertários", isto é, os que defendem a "liberdade acima de tudo", estão a contribuir activamente, e sem disso terem sequer consciência, para a limitação da liberdade na Europa.
E comparar a sátira agressiva (já vou explicar porque a considero assim) com o jornalismo de investigação ou com a reportagem de guerra que tornam visíveis as mortes anónimas diárias, não é compreensível.

Causar a morte de outro é o mesmo crime, não é isso que está aqui em causa.
O que está aqui em causa é a violência, a sua necessidade, a construção social de "inimigos", a alucinação de "inimigos", seja em nome da laicidade "libertária", seja em nome do fundamentalismo religioso, seja em nome do pragmatismo financeiro.

A violência e o ódio ateiam-se de várias formas, com palavras, com imagens, com armas.
Reparem que não encontramos a palavra "inimigo" apenas nos discursos inflamados dos fundamentalistas. A palavra "inimigo" surge com preocupante frequência nos discursos de políticos ocidentais, da esquerda à direita.

Tudo o que dizemos ou calamos, tudo o que fazemos ou deixamos de fazer, tem consequências. Primeiro estamos sensíveis à nossa própria experiência, seja agradável ou desagradável. A pouco e pouco aprendemos a ver e a sentir as experiências dos outros e a sentir o que os outros estão a sentir porque já o sentimos. É  a partir desta experiência que surge a consciência. E é a partir desta experiência que surge a responsabilidade.

A verdadeira ironia, a meu ver, é esta contradição humana: em nome do que se acredita (ou se diz acreditar) provocar exactamente o contrário.
Os defensores da "liberdade acima de tudo" estão a contribuir para um caminho securitário e limitador da liberdade (veja-se o que aconteceu depois do 11 de Setembro).
E os defensores da "vida", da "segurança", da "tranquilidade", da "tolerância", estão a contribuir para o aumento das divisões, fracturas e violência.
Como? Deixando-se embalar por palavras, imagens e ideologias que trazem em si mesmas a violência, a fractura, o ódio, a humilhação de outros.
Defender a vida e a liberdade é ter consciência das consequências das nossas palavras, atitudes, comportamento. Defender a vida e a liberdade é defender a paz e rejeitar todo o tipo de violência. 

A verdadeira ironia está de olhos abertos a olhar para dentro de nós e para o mundo. Pode ser directa e cruel, mas nunca apela à violência, nunca humilha. Pelo contrário, confere-nos o poder de nos sentirmos vivos, conscientes e unidos.
A verdadeira ironia traz em si mesma a capacidade de aceitarmos a nossa fragilidade e as nossas contradições. A verdadeira ironia une-nos a todos na nossa humanidade.






Também senti a crueldade da ironia neste início de ano: afinal comecei a falar da possibilidade da Europa se abrir e conseguir receber refugiados e emigrantes, e dias depois o futuro da Europa vai pender para o caminho inverso.









quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A cultura da morte

Vivemos num mundo estranho em que a ficção se mistura com a realidade e tudo se assemelha a um guião de um filme previamente escrito.
As populações seguem esse guião obedientemente, sem reflectir no papel que lhes e atribuído.
Para encontrarmos algum sentido, alguma lógica nas informações que vamos ouvindo e vendo, temos de estar atentos aos pequenos pormenores. Mas mesmo assim tudo nos parece irreal.

Como conciliar por exemplo:
- o jornal satírico já tinha sido vítima de um atentado à bomba e recebido várias ameaças e, por esse facto, as instalações do jornal tinham direito a guarda policial;
o cartoonista desafia o destino com uma provocação sobre um possível atentado ainda em Janeiro;
- os serviços secretos franceses andavam a vigiar os movimentos destes dois terroristas há já algum tempo.

Apesar de nos ser dito que muitos atentados são evitados pela intervenção dos serviços policiais, a verdade é que este atentado estava já anunciado e era quase uma certeza esperada, pelo menos pelo cartoonista principal.
O que mais me incomoda é a morte dos mártires involuntários. Os mártires voluntários levam sempre atrás de si a morte evitável de outros, os que querem viver.

Neste mundo estranho vivemos o culto da cultura da morte, o fascínio pela violência, seja a das armas, seja a das palavras, seja a das imagens.
Lembro-me bem das anedotas sobre a fome em África, como se fosse tema sobre o qual é possível ironizar.
Assim como não é possível ironizar sobre o terrorismo, os fanáticos, os psicopatas.

Hoje vemos que não são os elementos supostamente mais informados e mais cultos de uma sociedade que se comportam como modelos de tolerância e democracia, mas sim as pessoas comuns, as pessoas simples.
A verdadeira cidadania implica uma responsabilidade relativamente às diferenças culturais e uma rejeição de toda a violência verbal ou comportamental.

O que está a acontecer em França lembra-me o filme Babel em que as elites sociais, as instituições, as organizações, são muitas vezes os elementos perturbadores, ao criar divisões e conflitos, enquanto as populações conseguem gerir mais facilmente as diferenças culturais.
É que afinal somos todos o reflexo uns dos outros neste multifacetado rosto humano, em que nos reconhecemos como parte de uma mesma humanidade.







sábado, 2 de novembro de 2013

Equilíbrio vital - consciência abrangente - comunidades criativas

Ultimamente tenho dedicado algum tempo matinal a tentar compreender porque é que os debates culturais e políticos actuais se revelam inúteis para o grande plano e para as questões verdadeiramente importantes e prioritárias.
A minha perplexidade vai mais longe: porque é que pessoas em lugares estratégicos de grande responsabilidade na gestão colectiva, política e económica, se dedicam a exercícios verbais inúteis e nos tentam vender ideias e fórmulas esgotadas que já se verificou não terem qualquer resultado prático construtivo? Porque é que pessoas em lugares de poder e influência evitam as grandes questões que dizem respeito a todos nós? Porque tentam manter uma cultura obsoleta que não se adapta ao desenvolvimento científico e tecnológico actuais nem aos desafios que enfrentamos hoje?

Resolvi desligar a televisão, evitar os sites informativos oficiais e pegar na minha lista das questões prioritárias. Vamos a isso:

Quais são as questões verdadeiramente importantes e prioritárias?
1 - Começaria pela sobrevivência da vida humana na Terra, por exemplo. Pode parecer-nos uma forma muito dramática de colocar esta questão, mas hoje alguém pode negar o percurso auto-destrutivo da actual gestão política e económica e das grandes opções de quem exerce o poder?;
2 - a qualidade da vida humana (alimentação, habitação, saúde, educação, interacção social, autonomia, participação na comunidade, etc) e a utilização dos recursos de forma adequada e equilibrada;
3 - uma mudança cultural e política que nos permita acompanhar e optimizar o desenvolvimento científico e tecnológico e lidar com os grandes desafios actuais.

A seguir procurei identificar os princípios em comum. Se repararem bem, todas as grandes questões referidas, sobrevivência da vida humana na Terra, qualidade da vida humana, utilização dos recursos de forma adequada e equilibrada e uma cultura e política adequadas ao desenvolvimento científico e tecnológico e aos grandes desafios actuais, implicam
equilíbrio vital - consciência abrangente - comunidades criativas.
Pronto, aqui está uma fórmula muito simples que me surgiu em horas matinais e que me tem acompanhado ultimamente. A sua representação gráfica poderia ser: um círculo maior para o equilíbrio vital que está presente em tudo na vida na Terra; dentro dele num círculo mais pequeno onde cabe a consciência abrangente, isto é, a intervenção humana e, neste círculo, as interacções e a informação partilhada das comunidades criativas, as inevitáveis setinhas num ou em dois sentidos.

Equilíbrio vital: "homeostasis" vem da biologia e é uma das condições básicas das diversas formas de vida, desde as mais simples às mais complexas. É também um princípio fundamental para os neurocientistas (ex.: António Damásio, um dos autores que será abordado nesta análise).


Consciência abrangentebaseada na perspectiva de "consciência" de António Damásio e da importância das emoções; na análise de Arno Gruen sobre os riscos do conformismo baseado na "traição do Eu" e da importância da empatia na sobrevivência das comunidades; da consideração da dimensão terapêutica da arte por Alain de Botton, como construção cultural de uma história diária da sobrevivência humana.


Comunidades criativas: partindo das condições para a sua sobrevivência e qualidade de vida, surge actualmente a possibilidade das comunidades se tornarem participativas e responsáveis pela sua viabilidade, pelo seu futuro. Aqui entra a perspectiva alargada de economia e da criação de riqueza de Alvin Toffler, em que a economia não se esgota no sistema monetário: a importância da "informação partilhada":