Todas as possibilidades de convivência das diversas formas de vida na Terra. A relação humanos - Terra. A relação humanos - humanos. A relação humanos - outras espécies.
Os políticos estavam habituados a lidar com a revolta das populações e preparavam-se para isso. Acontece que a revolta apenas esgotava a resistência emocional num determinado período de tempo. As pessoas comuns perceberam que não estão isoladas, são comunidades vivas, ligadas entre si por fios invisíveis e inteligentes. A tecnologia permite-nos estender o olhar e dar as mãos mesmo estando distantes. As populações já não se revoltam, exigem. Mas estarão os candidatos partidários preparados para a cultura da participação cívica que implica prestar contas, transparência, informação adequada, respostas eficazes? As autárquicas são o primeiro passo para refrescar a democracia e equilibrar as desigualdades. Hoje soa-nos obsoleto, ridículo e até ofensivo, o espectáculo das autárquicas. Deputados que se candidatam, candidaturas que mudam de partido, a continuidade dos mesmos rostos e dos mesmos tiques, todo esse folclore. Os partidos convencionais, PS, PSD, CDS, ainda não perceberam que esse folclore deixa agora de ser tolerado.
Quais são as estratégias eficazes para minimizar os danos que a retirada dos Estados Unidos vai provocar? Este é o grande desafio para os restantes países que mantêm o compromisso. Apenas lembrar que: - de nada vale tentar chamar o presidente americano à razão, pois os seus neurónios estão formatados pela lógica reptiliana. Objectivos: ser o mais rico, o mais poderoso, o mais famoso. Obstáculos: tudo o que se colocar à frente dos objectivos. Simples. E quais são? ONU; a encíclica do Papa Francisco; as sanctuary cities; os media, excepto a Fox; uma Europa forte; uma China forte; e sabe-se lá mais o quê... - os responsáveis por esta decisão relativa ao ambiente são: o partido republicano, o partido democrata e a próprio sistema político. De todos os protagonistas, o presidente é o que apresenta mais atenuantes :) - as lideranças dos restantes países envolvidos no acordo de Paris devem evitar afirmações ou declarações que confiram legitimidade à decisão do presidente americano. A decisão não respeita a vontade da maioria da população americana. - a ONU, que está a ser pressionada pelo presidente americano que pretende fragilizar a sua intervenção, é hoje fundamental para definir as estratégias eficazes que permitam atingir os objectivos do acordo de Paris e minimizar os danos que a retirada dos Estados Unidos vai provocar. - a Europa pode ter aqui um papel fundamental na liderança da inovação cultural, de valores, da possibilidade de respeitar o futuro a que a maioria legitimamente aspira, os equilíbrios sociais e económicos, a segurança. - o acordo de Paris é uma espécie de alerta máximo para a sobrevivência da nossa espécie no planeta. Mesmo que a tecnologia nos apresente formas de sobrevivência em condições climáticas adversas e extremas, é esse o futuro que queremos para as novas gerações?
O debate está aceso no Reino Unido. As eleições de 8 de Junho serão decisivas. Muitos jovens podem ainda não ter percebido a importância do seu voto. Afinal, o seu voto não contou no Brexit, atiraram-nos para fora de uma Europa onde já se sentiam em casa. E no entanto, a possibilidade da inovação cultural na política reside no seu voto.
Vivemos numa época de transição da política: das ideologias de grupos competitivos com propostas para formatar a nossa vida colectiva, para plataformas políticas baseadas na participação cívica responsável, comunidades criativas que trabalham em colaboração. Neste momento, o Labour é o que se aproxima dessa cultura política inclusiva, que responde a desafios concretos e procura o equilíbrio social. É o primeiro passo para a inovação cultural na política. Os conservadores são actualmente o principal obstáculo a essa possibilidade. A fórmula é muito simples: votar estrategicamente - participar na vida política - criar comunidades criativas - trabalhar em colaboração. Não se sabe ainda se o Brexit é ou não um processo reversível. Tudo está a mudar muito rapidamente. Quando votaram Brexit, ainda desconheciam a nova realidade mundial e as suas implicações: - a nova administração americana e os estragos que pode implicar a nível político, económico, ambiental; - os atentados em Londres e Manchester, e os enormes desafios a nível da segurança, que depende de uma colaboração estreita entre países e continentes; - as tensões sociais e a agressividade xenófoba, inflamada pela irresponsabilidade política dos Brexiteers, que utilizaram os imigrantes como bodes expiatórios. A Europa também está a viver um período de transição, o que terá implicações, inevitavelmente, na UE, nos seus actuais desequilíbrios, e na sua cultura política e económica. Este é o portal que se abre no tempo para os jovens do Reino Unido. E porquê no tempo? Porque a incompetência política, a incapacidade de identificar os desafios, destacar as prioridades, escolher as estratégias eficazes, pode atrasar um país e com ele as vidas de gerações, por uma ou mais décadas. Essa é a importância do seu voto.
Na beleza incrível de Taormina, que inspira qualquer mortal, passeou-se a personagem que os republicanos, os democratas e o próprio sistema político americano colocaram no poder. Indiferente ao lugar, os seus olhos avaliadores fixaram um a um, os políticos de cada país, pelo seu valor monetário e pelos negócios lucrativos que daí podem advir. Só isso conta, nada mais. As relações diplomáticas, a colaboração científica, as prioridades actuais, os grandes desafios, tudo isso é colocado no cesto do lixo e o que fica na secretária é o que surge resumido num tweet. Compreendemos a frustração de Merkel. Todos gostaríamos de ver na presidência americana alguém com quem se pudesse trocar ideias claras e concretas sobre assuntos vitais para a uma convivência mutuamente favorável.
A nossa frustração, por essa impossibilidade actual, não nos deve levar a esquecer a frustração idêntica de milhões de americanos. A presidência americana actual não representa as suas populações. A personagem pode ter sido levada a prestar juramento mas verifica-se, em todo o processo, uma clara ausência de credibilidade e legitimidade. Desde o presidente Carter que a América vive uma grave crise cultural, uma reviravolta de valores. A partir de Reagan a cultura que emerge é a do valor monetário, a globalização baseada na finança. Isto coincidiu com o início das alucinantes desigualdades sociais. Este olhar avaliador sobre as pessoas, quanto valem em números, que lugar ocupam na lista dos mais ricos, acentuou-se a partir daí. E no entanto, esta cultura do objecto, da avaliação de tudo em termos monetários, continentes, regiões, países, recursos e pessoas, não corresponde à cultura da colaboração que vemos bem activa e dinâmica nas comunidades, nas cidades, numa grande parte da população americana. É nestas comunidades e cidades que está a inovação cultural, a possibilidade de criar novas plataformas políticas, que permitam às populações escolher o futuro em que querem viver.
O projecto inicial dos Estados Unidos tem uma forte ligação à França. Hoje, tal como no início do seu projecto, os Estados Unidos podem aprender com a experiência actual francesa: a possibilidade da inovação cultural na política. Já não se trata de revolução mas de evolução, ainda que seja um salto quântico, uma vez que passar de uma lógica de sistema político partidário para uma perspectiva da política baseada na participação cívica, implica a passagem do domínio do cérebro reptiliano para a utilização do córtex cerebral. :) É como saltar de uma plataforma plana, estática e disfuncional para uma plataforma interactiva, móvel, eficaz. Passar de uma cultura de grupos competitivos para uma cultura de comunidades criativas que colaboram entre si. O sistema político americano deu o berro com Trump. Chegou a um impasse. Não consigo visualizar qualquer futuro viável para o partido republicano e já agora, para o partido democrata também. Embora o partido democrata ainda possa servir de fonte para o surgimento de algumas plataformas, isto é, tem alguns recursos técnicos e culturais que podem ser utilizados e optimizados numa perspectiva prática. Por isso, acho que é tempo dos americanos começarem a preparar novas plataformas políticas. Sugeri começarem pela experiência política recente na França, mas em caminho também podem passar por Portugal. :) Portugal é um caso de estudo que vale a pena visitar. Passou por uma sequência de governos de partidos que se alternavam no poder. Esta cultura política partidária da alternância já vem do séc. XIX e provou não levar a lado nenhum mas servia às elites. No intervalo ainda passámos por um sistema unipartidário :) fechado sobre si próprio, que exigia o pensamento único e a obediência cega. Já viram que tivemos que fazer esta viagem incómoda, aos solavancos, para chegar aqui? Agora aqui estamos, pela primeira vez, a aprender a viver realmente numa democracia de qualidade. Digamos que a alternância deixou as pessoas sem alternativa política. :) E só foi possível sair desse impasse porque os votos estavam de tal forma distribuídos que se conseguiu formar um governo baseado em acordos parlamentares. Tal como cá, o mesmo irá suceder em França. Acabou-se a alternância entre conservadores e socialistas. Já saíram do impasse, já saltaram da plataforma plana, estática e disfuncional para uma plataforma interactiva, móvel e eficaz.
A série televisiva que mais impacto teve na minha forma de abordar os assuntos foi Cosmos de Carl Sagan.
E, também de Carl Sagan, um livro, O Cérebro de Broca. Há uma parte do livro que nunca esqueci, em que compara o comportamento humano, na expressão de emoções básicas como a agressividade e o medo, com o comportamento dos nossos antepassados primatas :) Se lerem essa parte começam a perceber um pouco melhor porque é que a expressão da agressividade, na linguagem actual, está tão ligada a zonas corporais muito específicas :) Os nossos antepassados primatas exprimiam o seu poder exibindo os genitais. Até que ponto o homem actual evoluiu quando, ao querer exprimir agressividade, traduz em linguagem o que os primatas exibem? Fará sentido continuar a ligar automaticamente sexo e agressividade? De forma tão primária? A utilizá-lo nas piadas humorísticas e na crítica política e social? A meu ver, já não faz qualquer sentido. Há vários níveis cerebrais do humor, querem ver? - humor primário, aquele que praticamente não tem mediação do córtex cerebral, e aqui temos as chamadas anedotas de teor sexual, que encontramos hoje nalguns comediantes e nalgumas comédias enlatadas americanas; - humor mimético: quantas vezes, sem sabermos a razão porque o outro está a rir, somos contagiados pelo seu riso? Sobretudo em situações em que o riso contradiz o contexto social e/ou será motivo de reprovação. Podemos incluir neste nível o riso nervoso, uma forma de acalmar a ansiedade :) - humor empático: quando descobrimos contradições e paradoxos, na nossa humanidade comum. Depois do riso fica uma sensação agradável de bem-estar que não se dissolve, como acontece nos níveis anteriores. Ficamos algum tempo nesse estado de relação existencial com quem nos rodeia. Um exemplo deste nível humorístico:
No vídeo mais longo Jimmy Kimmel também refere a alegria da irmã mais velha de Billy, o que contradiz claramente com a fotografia. :) Aqui entram diversas emoções, ligadas entre si, e já estamos a utilizar os neurónios do córtex cerebral: o suspense relativamente à história do recém-nascido Billy, a nossa empatia com os pais, o alívio ao ver como a história correu bem, a atenção profissional da enfermeira, a sorte no meio da desgraça, a noção da nossa fragilidade humana, a confirmação das histórias familiares comuns, a incrível parecença do bébé Billy com o pai :) e os ciúmes da irmã mais velha :) Vivemos num tempo em que a agressividade e o cinismo humorístico chegaram a um beco sem saída. Também na política já começamos a verificar isso mesmo. Pode ter resultado até aqui, mas já se começam a ver sinais de que essa forma de expressão primária de poder está esgotada. As pessoas procuram cada vez mais a autenticidade, que é diferente de ingenuidade. Querem ser desafiadas pela sua inteligência, não pelos seus impulsos e automatismos. E querem sentir que não são simples espectadores ou figurantes, participam na história, fazem parte da mesma história, dão o seu feed-back. Isso mesmo: feed back. E reparem nas implicações que isto já está a ter no mundo do entretenimento (espectáculos ao vivo), e na política (novos movimentos). E nas implicações que vai ter no trabalho (actividades profissionais) num futuro próximo. Palavras-chave: comunicação; empatia; aprender; experimentar; participar; inovar; mas também os afectos. Que áreas de actividade vos saltam à vista?
Política e economia: num novo patamar de colaboração e responsabilidade, as comunidades criativas. Ciência: para lá da inovação tecnológica, a inovação cultural. Saúde: na prevenção e nas situações de maior dependência. Educação: na primeira fase sobretudo, com crianças. Entretenimento e espectáculos ao vivo: humor, música, teatro, ou tudo misturado :) Novas modalidades desportivas e desafios em grupo. Visitas guiadas e actividades culturais. Enfim, tudo o que implicar a nossa especificidade humana: sociabilidade, afectividade, criatividade, sentido humorístico, e capacidade de aprender.
Será possível alguém formado na finança, formatado na cultura financeira, para quem a economia se baseia na finança, desformatar-se dessa cultura?
É certo que Macron vê a economia como uma intercomunicação em tempo real, sempre em movimento, a que ele ainda chama de "ciclos" (e nós sabemos o que é que influencia os ciclos: os riscos financeiros).
A economia, assim perspectivada, valoriza sobretudo as empresas como o motor essencial, mas esquece-se que já estamos numa nova plataforma da economia. As empresas precisam da inovação e a inovação está nas pessoas e nas equipas. Mais, a inovação está nos jovens, aqueles que têm sido esquecidos pela cultura financeira.
E aqui temos o paradoxo de Macron, que esperemos ele consiga resolver em si próprio:
- ao perspectivar a economia colocando-se do lado das empresas como o motor da economia, é evidente que tem de referir "a protecção do trabalhador".
Estão a ver? Este é o paradoxo.
Se perspectivarmos a economia do lado das pessoas, das equipas, dos jovens, e da inovação, não precisamos de criar mecanismos de "protecção do trabalhador". Porque estará tudo interligado.
E se perspectivarmos a economia para lá da inovação tecnológica, considerando a inovação cultural, ninguém fica de fora, todos têm um lugar, todos participam e colaboram.
As limitações da economia baseada na moeda e submetida à finança e aos mercados, já estão visíveis, já ninguém confia na sua viabilidade, a não ser se aceitarmos o futuro como uma sequência do presente: desigualdades sociais, altos níveis de desemprego, instabilidade, desperdício de recursos.
A economia só pode ser "revitalizada", palavra cara a Macron, quando a economia for baseada nos recursos e na sua urilização pelas pessoas. É essa a desformatação cultural financeira que Macron terá de fazer e depressa. :) Porque, se tudo correr bem para os franceses e para os europeus, em breve vai ter de negociar com grupos e movimentos políticos.
Porque considero que a cultura financeira não é uma ideologia?
Porque as ideologias têm um corpo teórico, uma visão de sociedade que querem implementar, com um conjunto de princípios e valores. Exemplo: Le Pen e recriar ou replicar a "civilização francesa" (quase que visulizamos o Rei Sol e a sua corte em Versailles. Ou será a Revolução francesa? Ou será Pétain?) E é bom lembrar que as ideologias têm recorrido à finança, andam de braço dado. :)
A cultura financeira é uma perspectiva do mundo e da economia: tudo gira à volta da capacidade de produção (empresas), num mundo competitivo em que tudo é valorizado em termos monetários. Tudo. Nesta cultura financeira confia-se na competência dos grandes bancos e das empresas. E se falharem, há mecanismos de "protecção do trabalhador".
Se observarmos Macron na perspectiva da política convencional - ideologias identificáveis -, estranhamos de imediato a sua elasticidade e plasticidade. Onde antes identificávamos os espaços políticos e o público-alvo, que condicionam a comunicação, vemos um candidato dirigir-se a todos os eleitores, sem excepção. Não há fronteiras, direita e esquerda, europeístas e não europeístas. Há um projecto, En Marche!, que é apresentado e operacionalizado, comum a todos os franceses e aos valores da República. A República é aqui utilizada como a base comum. Na operacionalização do projecto são definidas prioridades: Europa - economia - trabalho - segurança -, e estão todas interligadas, dependendo umas das outras. Exemplo: a educação e a formação influenciam a economia, o trabalho e a segurança. É como olhar para um visualizador de informação onde vários pontos estão em comunicação em tempo real. As acções concretas, as iniciativas na gestão diária, dependem de condições de funcionamento, que também são apresentadas. Aqui já podemos começar a definir o perfil do candidato: inteligência pragmática e estratégica; atenção focada no essencial; elevada capacidade de comunicação; mensagem clara, sintetizada e operacional; a imagem serve a comunicação. São os seus trunfos. Onde surge a inovação cultural? Na possibilidade de, além destas capacidades, Macron revelar inteligência emocional, a capacidade de ouvir e de interpretar as inquietações do eleitorado francês. É certo que Macron o verbaliza, que está atento à revolta de muitos franceses e às suas inquietações, dirigindo-se a todos directamente. Resta-nos verificá-lo na prática. Macron surge hoje como a tábua de salvação da Europa. E esperemos que a Europa ainda seja capaz de se regenerar e revitalizar. E que a Alemanha perceba que esta é a sua janela de oportunidade. Amanhã pode ser outro o seu interlocutor e outro, aliás, o seu protagonista.
Como senti na alma o peso de lideranças que abafaram e alienaram o país, consigo imaginar o que estarão a sentir populações de países como o Reino Unido, a América, a Turquia... só para referir alguns. No caso português, encontrou-se uma solução inovadora, uma equipa formada por um acordo inédito, de três grupos políticos, e que funciona. Parte da sua eficácia deve-se à vontade da maioria da população. E a outra parte à própria equipa: quem estragar o seu funcionamento sabe que irá enviar a população de volta ao séc. XX. Hoje deve pensar-se na gestão política em termos de equipas, de acordos e/ou coligações. Já não faz sentido a gestão política apresentada ao público por um rosto e uma voz que tudo transmite e tudo representa. Estou a pensar, é claro, em Theresa May, em Trump e em Erdogan. Dir-me-ão: alto lá! Há diferenças. Diferenças? Em termos das consequências para as suas populações? Uma quer reforçar a sua legitimidade e a do Brexit, outro quer mostrar que é o homem mais poderoso do mundo, o terceiro juntou poderes em si próprio que legitimam uma tirania. As populações do Reino Unido vêem-se agora condicionadas a voltar ao séc. XX e nem sei se não será para séculos anteriores. As que votaram Brexit arrastam agora todas as outras. As próximas eleições extraordinárias poderiam ser uma oportunidade para travar este desastre cultural, económico e político, se os grupos e movimentos se juntassem e colaborassem na construção de uma alternativa viável ao governo actual. Estou mais optimista em relação à América. A inovação cultural está viva nas populações, mesmo naquelas que votaram Trump. O grande desafio será conseguirem furar um sistema político que foi construído para favorecer as elites e manter as populações no seu lugar. A nomeação de Trump deixou essa realidade a céu aberto. Agora as populações sabem que há um sistema político a reconstruir, equipas a formar, novos grupos e movimentos. Quanto à Turquia, já imaginaram uma cidade como Istambul, que reflecte uma cultura aberta e flexível e consegue a proeza de fazer a ponte entre uma civilização antiga e uma perspectiva actual, ser condicionada à lógica do controle absoluto, à linguagem bélica, à criação alucinada de inimigos? O que é que está a acontecer com as lideranças políticas actuais que todas se assemelham? E logo em países estratégicos para a vida do planeta.
Quais são as condições básicas da segurança? Como deve ser perspectivada? Qual é o ambiente favorável à segurança? De quelideranças europeias precisamos? A equação que proponho é: democracia - equilíbrio - colaboração - inovação cultural. É aqui que reside a nossa segurança. 1ª componente: democracia Vamos fazer rewind: só um amnésico ou muito distraído não aprendeu nada com a história do séc. XX. Acredito que muitos da minha geração, a que viveu a adolescência nos anos 70 e bebeu alguns ideais de paz em liberdade e amor universal, aprenderam a imunizar-se ao vírus das grandes ideologias das gerações anteriores. Por isso é que considero que a minha geração é uma geração de transição. Ficou pendurada no tempo. A cultura dominante em que viveu não correspondia à sua forma de ver e viver. Restava-lhe observar, analisar, deduzir. Restava-lhe aprender. A internet, pelo acesso à informação e pela comunicação em tempo real, foi o primeiro salto no tempo. A partir daí, o desafio era essencialmente cultural: tínhamos as tecnologias mas faltava-nos a acção inteligente e inovadora e a descodificação cultural. É aqui que a nossa geração de transição pode ser útil às gerações posteriores: passar o testemunho do que vimos e vivemos de uma cultura passada, organizada em ideologias, e por uma lógica de separação, competição e desequilíbrio de poderes, que não é compatível com a democracia, a participação, a colaboração. Essa cultura não nos serve.
Dizem-nos que este populismo que vemos na liderança americana e em lideranças de países europeus é novo. Não é. É o mesmo populismo das ideologias do séc. XX. O que mudou foi a forma, a mensagem, a propaganda. Tornou-se mais simples, directa, reactiva, impulsiva, no tempo sincopado do séc. XXI. Não é por acaso que a forma utilizada pela liderança americana é o tweet. :) É preciso aprender a descodificar a mensagem, identificar a cultura de base e desmontar a agenda. Não é um desafio fácil, a mensagem é apresentada de forma simples e atractiva. Apela às emoções básicas como o medo, a raiva, e torna-se viral. Recorre a bodes expiatórios, a forma de bullying político mais eficaz. A separação e divisão das comunidades começa assim, e liga-se aos preconceitos culturais subliminares. A partir do momento em que se descodifica a mensagem e se identifica a cultura de base, a agenda surge-nos mesmo à nossa frente: manter a sociedade organizada numa nova versão do velho formato de sociedades hierarquizadas, em que o poder é concentrado num pequeno grupo com privilégios especiais. A democracia é esvaziada e fica a funcionar como caricatura, alimentada por tablóides. Estas lideranças pensam que estão a lidar com cidadãos ignorantes e facilmente manipuláveis, que podem alienar com promessas de um futuro brilhante. Na realidade, ainda conseguem alguma ressonância nas pessoas que foram fortemente prejudicadas pela globalização selvagem e/ou pelas fraudes financeiras e/ou pela austeridade europeia, assim como nalgumas franjas de fanáticos. 2ª componente: equilíbrio O equilíbrio é uma das palavras-chave da vida na terra (ver aqui ao lado). Porque é uma condição básica da vida. Também é uma condição básica da segurança. A democracia pode ser perspectivada como uma forma equilibrada de organizar a nossa vida colectiva. Também é assim que podemos perspectivar a liberdade e resolver alguns equívocos culturais. 3ª componente: colaboração Outra condição básica da vida. Basta estudar as células, os neurónios, como respondem a uma emergência. Transponham este princípio para as pessoas, as comunidades, as cidades, os países, os continentes. Hoje temos de pensar no mundo global. Somos, em primeiro lugar, cidadãos do mundo, habitantes de um mesmo planeta. A seguir, somos cidadãos de um continente, de um país, de uma comunidade. Os populismos quiseram uma globalização só para alguns (Thatcher) e agora querem negócios protegidos e trocas trans-nacionais à sua medida (Trump, Le Pèn). Podem prometer o mundo como o vêem e querem transformar, mas estão apenas a bater com a cabeça nos muros que querem construir. E a levar atrás da sua alucinação as populações conformistas. 4ª componente: inovação cultural Se as ideologias não funcionaram no séc. XX, a não ser para alguns fanáticos e alucinados, como continuam a fazer estragos no séc. XXI? Que tipo de ideologias estão a ser propagadas pelos fanáticos actuais? Ideia-base comum: A supremacia de uns sobre outros, uns são os líderes, as elites, são servidos e protegidos por um grupo de fiéis, e dominam sobre as massas. Quem são os líderes, as elites, ou os escolhidos? A meu ver, é importante observar que o escolhido nem sempre é quem detém o verdadeiro poder. O exercício do poder efectivo tornou-se mais ramificado e sofisticado (também funciona em rede). Actualmente vemos que a imagem proposta é um cabelo louro platinado, uma voz forte, os tablóides atrás e algumas frases simples e com impacto. Por trás está a máquina, os interesses, as finanças, os negócios. Acham que depois de provar e saborear as possibilidades que o séc. XXI nos pode trazer, que conseguiríamos sequer respirar nesse mundo abafado, poluído, ruidoso, dos populistas actuais? O futuro já nos inspira actualmente, aprendemos todos os dias, comunicamos em tempo real com pessoas de todo o planeta, encontramos ideias comuns, objectivos comuns, queremos colaborar em novas soluções. Já vimos que os recursos podem ser optimizados de forma inteligente, que todos podem ter acesso ao essencial para a vida, sem prejudicar o planeta = destruir as condições da própria vida. Concluindo: A segurança deve ser encarada numa perspectiva aberta, ampla, inteligente, preventiva, de colaboração e em democracia.
Post publicado no Rio sem Regresso: Como será o cinema num futuro próximo? Continuará a prevalecer a longa-metragem? Quais os géneros que terão mais audiência? O cinema passará a ser interactivo?
Em 10 anos em que este rio aqui navega (festeja a 14 de Julho), muita coisa mudou no cinema, embora pareça estar tudo na mesma. :) A longa-metragem é o formato que domina; o investimento necessário ainda é elevadíssimo; os prémios continuam a ter uma importância especial, sendo os óscares os mais valorizados; os actores continuam a ser os mais bem pagos da equipa, bem acima dos argumentistas e da edição/montagem, por exemplo.
O que mudou e está a mudar é cultural: uma maior proximidade dos actores com o público; uma maior participação dos actores, realizadores e produtores em projectos de valor social; uma consciência da responsabilidade do seu poder de influência. Vemos muitos actores a realizar filmes e/ou a produzir filmes, o que revela que hoje os actores participam activamente no processo criativo.
As maiores mudanças no cinema estão a delinear-se:
- as mega-produções e co-produções, como The Wall, serão frequentes e promissoras;
- haverá cada vez mais espaço e oportunidades para a inovação cultural, que surgirá´de micro-produções de equipas e/ou de comunidades criativas, pois a tecnologia acessível é cada vez mais sofisticada;
- o género documentário irá florescer a par dos outros géneros, e os actores poderão ser recrutados na população geral e/ou de uma comunidade local, especificamente para cada projecto;
- na ficção científica procurar-se-á a verosimilhança, o respeito pelas leis científicas em detrimento de efeitos especiais e da fantasia;
- a animação será a indústria com um potencial incrível, onde tudo ainda é possível;
- a curta-metragem passará a valer por si, deixando gradualmente de funcionar como uma simples apresentação de um trabalho para captar investimento para a longa-metragem;
- a média-metragem (40' a 50') começará a ser preferida relativamente à longa duração actual;
- o cinema torna-se interactivo: os espectadores participam na experiência, seja em forma de avaliação emocional de cada cena, de comentários em forma de símbolos ou outros feedbacks. Ir ao cinema será equivalente a ir a uma festa, participar numa experiência sensorial e emocional. Veremos, no final da apresentação do filme, a possibilidade de ficar para a segunda parte com o feedback da assistência que poderá levar a alguns momentos interessantes e até hilariantes, tal como acontece no teatro. Também poderá incluir filmagens de comentários dos elementos da equipa sobre a ideia e a experiência, ou cenas que não foram incluídas, ou episódios cómicos, tal como nas cassetes e nos cd's que alugávamos nos clubes vídeo. O espectador deixará, pois, de ser tratado como voyeur, excepto nos filmes considerados para adultos :) ;
- os clichés estarão fora de moda: ninguém consegue agarrar-se à ponta de um precipício depois de se ter desequilibrado, um fugitivo não escolhe correr no meio da rua ou da estrada, a explosão iminente de uma bomba não é travada no penúltimo segundo :)... e o cliché padrão da comédia romântica: rapaz conhece rapariga, sentem-se maravilhosamente na companhia um do outro, zangam-se, música de fundo e rostos tristíssimos de cada um e, já quase no final, as pazes com um beijo :).
A possibilidade de viajar no tempo já não me entusiasma como há uns tempos atrás. Mesmo que sempre me tenha virado para o futuro. Há a impossibilidade física (transformação molecular) e biológica (sobreviver a vírus). Resta aperfeiçoar os simuladores e virá-los para o passado e para o futuro próximo. De qualquer modo, viajo no tempo todos os dias. Sempre que ouço as notícias ou ouço um comentador, lá sou arrastada para os anos 80. América, conferência de imprensa para jornalistas creditados na Casa Branca, anos 40. França, eleições presidenciais, a candidata da máquina eleitoral bem oleada e financiada, anos 60. Ontem vi um filme-documentário, Memórias de Xangai, de Jia Zhangke, e aí deu-se um fenómeno interessante: o tempo misturou-se num turbilhão, o tempo imperial enrodilhou-se com a revolução cultural e quem sofre é sempre o homem comum: a guerra civil, a morte e as cicatrizes. A China continua a ser um enigma. Uma cultura milenar que sobrevive nos neurónios das novas gerações. É essa a verdadeira viagem no tempo: o sofrimento e a alegria viajam de geração em geração, no próprio corpo. A China está virada para o futuro porque teve uma vida muito longa, agora pode virar-se para as gerações do futuro, são elas que a continuam. É como os avós olham para os netos. Na idade impressionável li Pearl Buck, sobre essa China de contrastes gritantes, de fome, de trabalho escravo. É a voz de uma americana, mas uma voz que amou a China. A seguir peguei no livro A Colina da Saudade de Han Suyin. Uma Hong Kong ocidentalizada, um jardim de colinas sobre o mar onde habitam os pobres em barquinhos. A parte do livro que me fascinou foi a parte da revolução cultural e como afectou muitas famílias, sobretudo os intelectuais. E há ainda outra parte do livro, sobre a cultura familiar tradicional na China, em que não escondem a realidade da vida às crianças, como fazem os ocidentais. As crianças participam nas conversas dos adultos. Hoje já não precisamos de nos sentir divididos entre culturas e entre diversos tempos, podemos escolher a cultura que melhor ressoa nos nossos neurónios e, com sorte e disponibilidade, podemos evoluir e até inovar. A fórmula que melhor nos convém hoje é a de pessoas livres: identificação cultural - colaboração - inovação cultural.
O conceito de nacionalismo serviu historicamente o poder e permitiu a delimitação de fronteiras. Mais recente, o conceito de multiculturalismo serviu para promover a coexistência pacífica de diferentes culturas sem que se exija a cada uma a perda da sua identidade cultural, e até indicando as vantagens da sua interacção. Contrapor nacionalismo e multiculturalismo sempre foi um falso dilema. Podemos desmontá-lo ao desmontar os próprios conceitos e ao identificar as suas bases. O nacionalismo entendido como: - delimitação territorial de um determinado país, é definido hoje como soberania nacional e a questão prende-se com a política e a economia; - preservação de identidade cultural não tem qualquer base histórica, pois a própria cultura de um país já é uma mistura de muitas culturas diversas (Portugal é um óptimo exemplo disso). Trata-se, assim, de querer congelar o tempo num determinado período histórico, com os seus símbolos e valores, e tudo pelo poder e influência. - defesa étnica, à flor da pele, é uma recusa do contacto com populações de outros continentes, mas este facto nunca é afirmado abertamente. E será que as sociedades multiculturais são uma novidade histórica? Não coexistiram no médio oriente diversas tribos num mesmo espaço territorial? É o que nos dizem os historiadores em documentários. Mesmo que existisse uma estratificação social, a coexistência era pacífica. Cidades como Alexandria, culturalmente e cientificamente inovadora, não era uma sociedade multicultural? Atenas, não era uma sociedade multicultural? E saltando para o séc. XX temos Paris no seu apogeu desde o final do séc. XIX, Londres a partir dos nos 70, Berlim depois dos anos 90. Na América, Nova Iorque e São Francisco, dois exemplos de inovação cultural. Mas podemos impor aos cidadãos que querem viver num determinado tempo histórico (os anos 60 franceses, os anos 70 ingleses, os anos 80 americanos, por exemplo), que se adaptem ao séc. XXI? Não, nem sequer é necessário. É que a questão não é sequer social, é política e económica. É essa a confusão. Foi o thatcherismo que atirou o Reino Unido para o Brexit ao esquecer a maior parte dos seus cidadãos, não os imigrantes. Foi a má gestão política e económica da UE que deu fôlego ao nacionalismo de Le Pen, não os imigrantes ou os refugiados. E foi Wall Street, um sistema financeiro desregulado e a globalização que atiraram parte da América, que vivia da indústria, para os braços de interesses de grupos internacionais de agenda desconhecida, não os imigrantes latinos.
Depois de desmontado o falso dilema, a equação que fica é a da identificação cultural - colaboração - inovação cultural. Identificação cultural: hoje podemos escolher a cultura que melhor ressoa nos nossos neurónios e nas nossas emoções e afectos. Não estamos limitados a uma única cultura e forma de ver o mundo ou lidar com os outros. Colaboração: podemos todos coexistir na mesma casa, o planeta, na base do respeito mútuo. Há lugar para todos, desde que respeitados estes princípios: a universalidade dos direitos humanos em primeiro lugar; a delimitação territorial, que pode ser negociada mas não decidida unilateralmente; os acordos ambientais, cujo não cumprimento deve ser fortemente penalizado. Inovação cultural: estamos sempre a aprender com a interacção, a cultura é movimento.
A CE e o Eurogrupo nunca poderiam permitir que um orçamento que segue uma orientação diferente da austeritária pudesse funcionar. Para boicotar essa possibilidade utilizaram várias estratégias, ao nível interno, através do PSD e do CDS, e ao nível internacional, através da vinda da troika e dos avisos das agências de rating. Finalmente, ao falharem estas linhas da frente, resolveram bater o pé na comissão e no Eurogrupo. Qual é o argumento do comissário e do presidente do Eurogrupo? Nós é que definimos a necessidade de medidas adicionais que têm mesmo de ser implementadas. Será este argumento razoável? Não. Trata-se da continuação da cultura autoritária da CE e do Eurogrupo. Há esperança, no entanto, para o nosso pequeno país plantado no oeste da Europa. Pela primeira vez em democracia temos uma cultura de colaboração entre o governo e o Presidente e, em breve, entre as diversas instituições públicas. Esta cultura é fundamental para que tudo funcione melhor. Sabe bem ver, para variar, que estamos a navegar de novo à frente, a absorver o ar fresco de quem vai à frente, a aprender a viver no séc. XXI, na cultura própria do séc. XXI, no seu ritmo próprio. Os jovens começarão a ver as suas ideias aproveitadas e valorizadas. Veremos equipas heterogéneas, em idade e formação, funcionar em todas as áreas do conhecimento e da tecnologia. E, se tudo correr mesmo bem, as mulheres verão os seus salários equiparados aos dos homens. Seremos, para variar, um exemplo a seguir.