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quarta-feira, 31 de maio de 2017

Reino Unido: o voto dos jovens e a possibilidade da inovação cultural na política





O debate está aceso no Reino Unido. As eleições de 8 de Junho serão decisivas.

Muitos jovens podem ainda não ter percebido a importância do seu voto. Afinal, o seu voto não contou no Brexit, atiraram-nos para fora de uma Europa onde já se sentiam em casa.
E no entanto, a possibilidade da inovação cultural na política reside no seu voto.


Vivemos numa época de transição da política: das ideologias de grupos competitivos com propostas para formatar a nossa vida colectiva, para plataformas políticas baseadas na participação cívica responsável, comunidades criativas que trabalham em colaboração.

Neste momento, o Labour é o que se aproxima dessa cultura política inclusiva, que responde a desafios concretos e procura o equilíbrio social. É o primeiro passo para a inovação cultural na política.
Os conservadores são actualmente o principal obstáculo a essa possibilidade.

A fórmula é muito simples: votar estrategicamente - participar na vida política - criar comunidades criativas - trabalhar em colaboração.


Não se sabe ainda se o Brexit é ou não um processo reversível.
Tudo está a mudar muito rapidamente.

Quando votaram Brexit, ainda desconheciam a nova realidade mundial e as suas implicações:
- a nova administração americana e os estragos que pode implicar a nível político, económico, ambiental;
- os atentados em Londres e Manchester, e os enormes desafios a nível da segurança, que depende de uma colaboração estreita entre países e continentes; 
- as tensões sociais e a agressividade xenófoba, inflamada pela irresponsabilidade política dos Brexiteers, que utilizaram os imigrantes como bodes expiatórios.


A Europa também está a viver um período de transição, o que terá implicações, inevitavelmente, na UE, nos seus actuais desequilíbrios, e na sua cultura política e económica.


Este é o portal que se abre no tempo para os jovens do Reino Unido. 
E porquê no tempo?
Porque a incompetência política, a incapacidade de identificar os desafios, destacar as prioridades, escolher as estratégias eficazes, pode atrasar um país e com ele as vidas de gerações, por uma ou mais décadas. 
Essa é a importância do seu voto.







quinta-feira, 20 de abril de 2017

O que é que está a acontecer com as lideranças políticas actuais que todas se assemelham?





Como senti na alma o peso de lideranças que abafaram e alienaram o país, consigo imaginar o que estarão a sentir populações de países como o Reino Unido, a América, a Turquia... só para referir alguns.
No caso português, encontrou-se uma solução inovadora, uma equipa formada por um acordo inédito, de três grupos políticos, e que funciona. Parte da sua eficácia deve-se à vontade da maioria da população. E a outra parte à própria equipa: quem estragar o seu funcionamento sabe que irá enviar a população de volta ao séc. XX.

Hoje deve pensar-se na gestão política em termos de equipas, de acordos e/ou coligações. Já não faz sentido a gestão política apresentada ao público por um rosto e uma voz que tudo transmite e tudo representa. Estou a pensar, é claro, em Theresa May, em Trump e em Erdogan.
Dir-me-ão: alto lá! Há diferenças.
Diferenças? Em termos das consequências para as suas populações? 
Uma quer reforçar a sua legitimidade e a do Brexit, outro quer mostrar que é o homem mais poderoso do mundo, o terceiro juntou poderes em si próprio que legitimam uma tirania.

As populações do Reino Unido vêem-se agora condicionadas a voltar ao séc. XX e nem sei se não será para séculos anterioresAs que votaram Brexit arrastam agora todas as outras. 
As próximas eleições extraordinárias poderiam ser uma oportunidade para travar este desastre cultural, económico e político, se os grupos e movimentos se juntassem e colaborassem na construção de uma alternativa viável ao governo actual.

Estou mais optimista em relação à América. A inovação cultural está viva nas populações, mesmo naquelas que votaram Trump. 
O grande desafio será conseguirem furar um sistema político que foi construído para favorecer as elites e manter as populações no seu lugar. A nomeação de Trump deixou essa realidade a céu aberto. Agora as populações sabem que há um sistema político a reconstruir, equipas a formar, novos grupos e movimentos.

Quanto à Turquia, já imaginaram uma cidade como Istambul, que reflecte uma cultura aberta e flexível e consegue a proeza de fazer a ponte entre uma civilização antiga e uma perspectiva actual, ser condicionada à lógica do controle absoluto, à linguagem bélica, à criação alucinada de inimigos?

   
O que é que está a acontecer com as lideranças políticas actuais que todas se assemelham? E logo em países estratégicos para a vida do planeta.





segunda-feira, 10 de abril de 2017

A França pode aprender com o retrocesso cultural do Reino Unido pós-Brexit





Fiquei arrepiada ao ver esta reportagem da TVI 24, O Novo Muro. O Reino Unido, que no séc. XX esteve na vanguarda, retrocedeu culturalmente e ainda ando a ver para que século. De qualquer modo, foi para um tempo de trevas.

Reparem em cada experiência relatada, neste caso são conterrâneos nossos mas podiam ser quaisquer outros estrangeiros. 
Reparem também como os nossos conterrâneos não têm qualquer apoio, digno desse nome, do consulado ou da embaixada. Estão entregues a si próprios num meio hostil. 
E reparem na gravação do discurso da PM e no tom de voz, frio, impessoal, como se de um robot se tratasse.

Não prevejo a possibilidade de ver pacificar e regenerar esta tensão cultural, que odeia e rejeita tudo o que é diferente, no tempo de duas gerações. 
Primeiro, ainda têm de sentir as consequências sociais e económicas desta decisão, que foi irresponsavelmente promovida pelos conservadores e pelos populistas.
Depois, ainda têm de verificar que lhes mentiram, que a presença dos estrangeiros não era a causa das suas dificuldades económicas.

Quando um país atinge este grau preocupante de tensão social, tudo nos indica que vai passar por um período de conflitos e até de uma certa violência.
Ora, o ambiente propício à qualidade de vida, à prosperidade económica, à inovação, à segurança, é a democracia e a colaboração entre comunidades.

Estarão os jovens europeus dispostos a viver num ambiente em tudo hostil às suas expectativas legítimas? 
Não creio. Os que tiverem alternativa num outro país europeu, não hesitarão.


A França pode aprender muito com o actual cenário cultural e social do Reino Unido pós-Brexit. 
As eleições são um teste importante à capacidade dos franceses descodificarem a mensagem dos populistas, identificarem a sua cultura de base e desmontarem a sua agenda.

   

terça-feira, 5 de julho de 2016

Assédio moral contra países do sul


Gostei de saber ontem, numa reportagem da TVI e numa entrevista a Isabel Moreira na TVI24, que o assédio moral foi recentemente criminalizado e integrado no crime mais amplo da perseguição.
Nesta criminalização já vamos com um atraso de uma década relativamente a outros países europeus, mas isto também se explica culturalmente. Não aturámos pacificamente o assédio moral do anterior governo?, dos discursos do anterior PM?, das conferências de imprensa de Gaspar e de Albuquerque?
Agora assistimos, nós e a Espanha, a uma pressão política ilegítima da CE e do Eurogrupo. A Espanha está em negociações para formar governo, Portugal tem um governo recente.

O assédio moral implica uma perseguição reiterada, é o que temos vindo a sofrer da CE e das intervenções dos comissários e do presidente do Eurogrupo, desde o início do novo governo. 
O assédio moral implica um agressor e uma vítima, uma relação de poder e dependência, força e fragilidade.
O assédio moral tem um objectivo, neste caso é político: um governo conservador na Espanha e uma mudança de governo em Portugal.
  
Esta demonstração de força da CE revela, na realidade, uma fraqueza: vendo-se impotente para lidar com o Brexit, uma ferida aberta no coração da UE, tenta mostrar a sua força onde pode bater, ou seja, nos mais fracos.
Já vimos o que fizeram ao povo grego, apesar do povo grego referendar a vontade de permanecer na UE. A humilhação que lhes foi infligida teve todos os ingredientes do assédio moral. E do double bind, estratégia de manipulação que anula e fragiliza.

Se a CE e o Eurogrupo continuarem nesta perseguição ilegítima, a quem podemos recorrer? Há algum mecanismo que nos possa defender? Exactamente, é este o perigo de estar integrado numa UE que não respeita as regras dos tratados (igualdade) nem tem a noção de equilíbrio, de colaboração e de oportunidade.
Uma comunidade pressupõe ainda a noção de bem comum. Ora, prejudicar Portugal e Espanha, assim como a Grécia, também é prejudicar os restantes países da zona euro.

Talvez o Brexit revele a resposta das populações esquecidas pela centralização do poder e pela globalização que agravou o desequilíbrio na distribuição dos recursos (aumento exponencial das desigualdades sociais).







domingo, 26 de junho de 2016

Brexit, um sinal de mudança cultural, política e económica





Esta foi uma semana de emoções fortes: a 5ª feira do referendo inglês, a 6ª feira do Brexit, o domingo das eleições legislativas em Espanha.

O Brexit tem sido dramatizado mas não compreendido. Depois de ouvir muitas reacções e opiniões, o Brexit começa a surgir, aos meus neurónios curiosos, como um sinal de mudança cultural, política e económica profunda. Esta mudança já se iniciou e vai comprometer grandes organizações centralizadas e burocráticas como a UE.
A relação local-global e indivíduos-organizações está a mudar com a tecnologia e a comunicação em rede.

A UE podia ter escolhido um caminho mais equilibrado e flexível nos acordos económicos e políticos e nos tratados que os países foram assinando, mas isso impediria a arquitectura económica do euro e o poder teria sido distribuído e equilibrado, e não centralizado em Bruxelas e nos países ricos e influentes.

A cultura da austeridade, em que os cidadãos foram penalizados pelos erros financeiros em cima da má gestão política, não ajudou nada à imagem da UE.
A forma incompetente e desorganizada como se lidou com os refugiados, atingindo o cúmulo de um acordo cínico com a Turquia, revelou a cultura da indiferença. O dinheiro vale mais do que as pessoas. Dinheiro em troca de pessoas. As pessoas não contam.

Criticam agora os ingleses por querer sair da Europa. Mas eles não saem da Europa, saem da grande organização UE. E se os acordos forem orientados por responsáveis competentes podem conseguir-se vantagens para todos.