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sábado, 8 de abril de 2017

Transplantados do séc. XIX para nos assombrar






As lideranças europeias não souberam lidar com o caso Dijsselbloem. Primeiro porque não perceberam a sua dimensão cultural, depois porque a sua perspectiva está formatada pela lógica financeira.
O que nos leva a perguntar: como é possível que ainda tenhamos de aturar, em lugares estratégicos para a possibilidade de reabilitar os valores europeus, indivíduos transplantados do séc. XIX?

Não é uma questão de palavras, como disse o ainda presidente do Eurogrupo, é a cultura que está por trás, própria de um burguês do séc. XIX: vinho e mulheres.
Não é uma questão de palavras, porque voltou a repetir a palavra solidariedade com a definição subvertida, o que tornou a explicação ainda mais horrível do que a entrevista original. A arrogância está lá, eu tenho razão, as palavras é que não foram bem escolhidas.

A solidariedade não foi com os países intervencionados, foi com os grandes bancos, porque essa é a sua prioridade: a finança, a moeda.
Foi nisto, nesta lógica fundamentalista, nesta máquina metalizada, que se transformou a Europa das estrelinhas. A que os países e os seus cidadãos têm de se submeter. É isto que Dijsselbloem representa no Eurogrupo, os interesses dos grandes bancos e da moeda.
Enquanto a Europa das estrelinhas nos quiser assombrar com a sua cultura do passado bafiento de cofres fechados, não podemos construir o futuro.
O futuro já aqui está, outras regiões do globo já vivem e respiram a cultura da colaboração, mas a Europa das estrelinhas, que foi vanguardista noutras épocas, virou-se para o passado.


Post publicado no Vozes Dissonantes.



quarta-feira, 8 de junho de 2016

Double bind é o que está a ser aplicado na Grécia


Double bind foi o que primeiro me ocorreu a propósito do filme Baby the rain must fall.
Double bind, uma forma de colocar alguém sem uma alternativa viável. Exactamente o que está a ser aplicado na Grécia.

Aqui também estivemos subjugados ao double bind da austeridade, da ausência de alternativa. A circunstância feliz dos partidos de esquerda ultrapassarem as suas divergências e encontrarem objectivos comuns é que abriu essa prisão.

Espero que também surja uma alternativa para a Grécia, entalada no double bind europeu e na vertigem de auroras douradas.
Um povo que aturou placidamente a humilhação da finança. Um povo que escolheu a Europa e o euro mas numa verdadeira cultura europeia. Um povo que recebeu milhares e milhares de refugiados apesar da sua situação precária.








quarta-feira, 1 de junho de 2016

Ser criança hoje





Hoje a pergunta do dia do Sapo:
"A melhor coisa de ser criança é:
- não ter de trabalhar;
- ser o centro das atenções;
- ainda ter a vida toda pela frente; 
- não ter as preocupações e responsabilidades de um adulto;
- apesar de tudo prefiro ser adulto;
- poder fazer birras."
A minha opção é claramente "apesar de tudo, prefiro ser adulto". Comigo estão apenas 4% de outros adultos. Pelo mens, até agora. 

A infância é, sem dúvida, a melhor fase das nossas vidas, porque é determinante. Tudo é vivido mais intensamente, os sons são mais fortes, as cores são mais brilhantes, o riso é genuíno, assim como o sorriso, a alegria, mas também a tristeza, a dor, a impaciência, a frustração.
É preciso ter sorte para ser uma criança razoavelmente feliz, não ter nascido num país em guerra, ou afectado pela austeridade financeira, ou num ambiente conflituoso, ou numa comunidade hostil. E mesmo com sorte, todos os cuidados não são demais. Sem se cair na superprotecção, estar atento e vigilante. 
Exercer a autoridade não é moldar uma criança a um formato social ou aos seus próprios objectivos. Quanto melhor tiverem resolvido esse conflito essencial com os próprios pais, melhores pais serão. Como é a vossa criança? É que cada criança é uma unidade complexa a aprender rapidamente a viver no mundo, e todas são diferentes. Mesmo os irmãos são todos diferentes. A forma como se lida com cada um também se deve adaptar a cada um. Pode exercer-se a autoridade de forma firme com um e pode ter de se explicar tudo muito bem a outro até ele compreender.
Aceitar a sua criança com as suas próprias características é respeitá-la, amá-la incondicionalmente, ajudá-la e desafiá-la num ambiente ameno e acolhedor. A sua criança irá ter desafios pela frente, viverá o medo, a angústia, a insegurança, o stress. Saber que tem uma base de apoio em casa é a melhor fonte de energia e de coragem para enfrentar esses desafios.
E é aqui que tudo se complica para uma criança. Está no auge da sua inteligência, da sua capacidade de aprender coisas novas, de criar, de inventar, e está sujeita a situações que a vão condicionar e limitar. Enquanto um adulto se pode defender do bullying ou da humilhação por exemplo, uma criança pode ficar traumatizada para sempre.

Será o mundo actual amigo da infância? No geral, não é. Podemos pensar que já foi muito pior no passado, sem dúvida. E não é preciso recuar muito. A revolução industrial já bastaria para a nossa comparação, o trabalho infantil, a fome, as doenças. Mas não é essa a comparação necessária. A comparação honesta e responsável só pode ser com a carta dos direitos da criança
E aqui, caros Viajantes, chegamos à conclusão que, apesar dos progressos sociais, da saúde, da educação, as nossas crianças não estão devidamente protegidas. O exemplo dos refugiados é gritante. Se não fossem os italianos e os gregos, como teria sido a sobrevivência de tantas famílias a fugir da guerra? Assim como a austeridade recente, ao menor desequilíbrio financeiro, e debaixo de governos-troika como o anterior, as famílias viram-se desapossadas do seu rendimento e da sua vida organizada, quantas das suas casas, e muitas tiveram de emigrar.
Relatórios revelam que as crianças e os velhos são os mais vulneráveis em situação de crise económica. Precisamente os grupos que deveriam ser mais protegidos. É por isso que não podemos deixar de desejar que lideranças culturais como o Papa Francisco sejam ouvidas.


Post publicado n' As coisas essenciais.



quinta-feira, 30 de julho de 2015

Eleições legislativas: é fácil desmontar a propaganda da coligação

E um belo dia ouvimos na televisão o impensável em adultos responsáveis: se ganharmos as eleições damos-vos um prémio... as empresas de rating estão à espera de ver quem ganha...

Conseguem imaginar o riso que terá acompanhado a elaboração deste folheto de propaganda a que chamaram programa?
País mais competitivo do mundo daqui a 4 anos?
Descer a dívida para 107% do PIB?
Basta ver estas duas promessas para se perceber o que pretendem fazer.

Mas analisemos a primeira: país competitivo.
Com o serviço da dívida? E com uma das energias mais caras da Europa? E com as fraudes financeiras? E com as falhas na supervisão bancária? E com os recursos públicos nas mãos de privados estrangeiros? E com grandes grupos a pagar impostos noutros países? E com a grande evasão fiscal? E com os paraísos fiscais no coração da Europa?
Estes são constrangimentos que impedem o país, logo à partida, de ser competitivo.

A não ser... que o valor trabalho desça ainda mais.
Será por isso que o nível do desemprego não pode descer muito mais, tal como nos está a querer mentalizar o FMI?
Mas isso não nos irão dizer. 

Não sendo esta propaganda minimamente credível, é evidente que não podem apresentar números, nem estudos, nem projecções.

Os portugueses aceitaram a austeridade porque assumiram a dívida que contraíram em seu nome, como sua. E porque acreditaram na lógica dos benefícios da austeridade e na ausência de alternativa.
Foi assim que a coligação se apresentou em Bruxelas, como o exemplo de sucesso. Exemplo que serviu às instituições europeias e ao FMI para atirar à cara dos gregos.









terça-feira, 28 de julho de 2015

A propaganda eleitoral da coligação baseada na lógica dos benefícios da austeridade

Para entreter a classe média que paga impostos, o governo colocou ou vai colocar um simulador na sua conta fiscal. Assim, o contribuinte pode fazer as continhas a um possível alívio fiscal no ano que vem se o governo arrecadar mais receita fiscal do que o previsto. A esta probabilidade chamou o governo manhosamente crédito fiscal.

Mas o cinismo não se fica por aqui. O governo gaba-se de ter reduzido o desemprego saltando por cima do emprego destruído, do falso emprego, do subemprego, e da emigração.
E vai mesmo mais longe: não vai cortar nas pensões, a mesma promessa de 2011.
A pedra de toque foi a proposta de lei anti-corrupção, mais uma que foi chumbada pelo tribunal constitucional e que, segundo um jurista ouvido na Sic Notícias, consegue ser pior do que a proposta há uns anos pelos socialistas. De qualquer modo, o que importa é que os cidadãos fiquem com a ideia que a coligação se preocupa com a corrupção...

Se estivermos bem atentos, começamos a perceber que há omissões nos discursos de propaganda governamental. Já aqui referi uma: a composição da dívida.
Mas há mais: as privatizações; os negócios privados com recursos públicos; as falhas na supervisão bancária; as fraudes financeiras; a grande evasão fiscal...

Entretanto, a coligação governamental apresentou as listas das personagens que propõe para a assembleia da república, reforçando a ideia que a equipa fez um bom trabalho e merece continuar no poder.

As palavras-chave que iremos ouvir repetidas: confiança dos mercadosrecuperação económicaredução do desemprego; e, mais recentemente, prudência.

Também ouviremos, se quisermos: era uma vez um país que vivia acima das suas possibilidades. Era governado por um partido que nos levou à bancarrota e tivemos de ser salvos pela solidariedade europeia. Para ganhar a confiança dos mercados, tivemos de cortar nos salários, nas pensões, nos subsídios, na saúde e na educação, e subir os impostos. Agora já podemos começar a dar o que tirámos, mas às prestações.

Paradoxalmente, esta lógica dos benefícios da austeridade, do caminho certo, das continhas bem feitas, de pagar o que se deve, de não viver acima das nossas possibilidades, soa muito bem à cultura tradicional da classe média. A classe média que foi precisamente a que pagou a factura.
Hoje o que vemos? Uma pequena minoria cada vez mais rica e uma grande maioria cada vez mais pobre: as desigualdades sociais agravaram-se.

Não nos podemos admirar, pois, que haja uma enorme percentagem de indecisos a dois meses das eleições.










sábado, 25 de julho de 2015

"A dívida como ela é" (Repórter TVI)

Uma das caixas fechadas a sete chaves aqui abertas é a dívida, "a dívida como ela é".
Esta é uma magnífica reportagem de Victor Moura-Pinto, editada por uma equipa talentosa.

Esta reportagem é mais reveladora e eficaz do que os discursos moralistas da coligação governamental, apelando ao medo do futuro. E mesmo mais reveladora e eficaz do que os discursos críticos e indignados da oposição. 
Porque nos mostra a realidade quotidiana de muitas famílias apanhadas na lógica perversa da austeridade.









sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O futuro da Europa

O futuro da Europa não está na UE nem no BCE nem na união bancária, fiscal e política. Quanto à moeda, o euro, deixo aos economistas essa avaliação.
O futuro da Europa está em reconhecer, em primeiro lugar, o falhanço do projecto europeu, os desvios, os erros, as mentiras, o desrespeito pelos cidadãos. Esta fase de reconhecimento da realidade é fundamental.
A seguir, há que analisar, caso a caso, a armadilha da dívida em que se colocaram países e pessoas concretas. Aqui já não é apenas a CE, o BCE, o FMI, que estão a ser avaliados, é também a gestão e opções dos governos desses países. No nosso caso, os governos do PSD e do PS, desde a negociação das condições de adesão até à aceitação do programa austeridade, passando pela análise e natureza da dívida. Chegaremos à conclusão que não será com estes partidos e estes políticos que conseguiremos sair desta armadilha, uma vez que a situação actual os favorece. Este é, aliás, o nosso maior desafio, encontrar alternativas políticas viáveis.

Quando visualizo o futuro da Europa surgem 2 cenários, ainda sobrepostos, talvez por serem ambos prováveis:

1 - a união bancária avança, independentemente da opinião dos cidadãos europeus, à semelhança dos tratados e mais tratados em que não se recorreu ao processo democrático do referendo. Para dar a volta a esta falha, os tecnocratas multiplicarão os debates, as palestras, o marketing político na internet, e os governos irão papaguear as receitas no mesmo tom: para salvar o euro... uma almofada de segurança para os países e os contribuintes... O marketing mais cínico é, aliás, este: Você é que escolhe a Europa que quer. A sério?
A seguir à união bancária - o passo decisivo do controle absoluto dos países e das pessoas -, já será mais fácil concluir todo o processo: união fiscal e política. Adeus, democracia, possibilidades de referendo, a chatice dos parlamentos e dos tribunais constitucionais. Agora mandam os mais fortes e tudo fica mais simples. À rebeldia responde-se com a clausura forçada em instituições preparadas para a reabilitação mental e emocional, um nicho de mercado para psiquiatras e neurocientistas, actividades que se dão muito bem com a linguagem do poder (Arno Gruen em A Traição do Eu). Muita dessa rebeldia poderá ser neutralizada com os mecanismos tecnológicos tão em voga, a vigilância dos cidadãos e o controle da internet. Pode parecer ficção científica, mas os meios já existem.
Neste ponto, começaremos a ter saudades do tempo em que os filmes nos mostravam as personagens ávidas de poder como loucas e mesquinhas. Hoje, são pessoas de sucesso (Arno Gruen em A Loucura da Normalidade e Os Falsos Deuses):



Frank Capra reconhece a impossibilidade de negociar com tais personagens, aqui representadas pelo velho Potter.



De qualquer modo, neste cenário do futuro da Europa já não há lugar a negociação possível. A união bancária já avançou, lembram-se? Da união bancária à união fiscal e política foi um passo, lembram-se? Todos os mecanismos democráticos a que quiserem recorrer (boa sorte!) serão facilmente neutralizados pelo marketing em nome da segurança e pelo atestado de perturbação mental que lhe passarão se se atrever a contradizer a realidade oficial. É simples.

2 - os cidadãos europeus organizam-se em comunidades criativas supra-nacionais, procuram obter informação fidedigna sobre a armadilha da dívida, sobre os erros cometidos pela CE, o BCE, o FMI, e sobre a natureza pouco democrática da UE. Questionam as instituições nas plataformas adequadas, avançam com petições, exigem referendos sobre as grandes opções que decidirão da sua vida e da dos seus filhos.
Os governos dos países membros são igualmente avaliados e responsabilizados pelos erros cometidos, no nosso caso desde a própria adesão até à austeridade e alienação dos recursos estratégicos, passando pela dívida contraída. Os cidadãos de cada país exigirão informação sobre a natureza da dívida e sobre as negociações com a troika. Os cidadãos quererão saber quem lucrou com a austeridade, quem lucrou com a desgraça nacional e o empobrecimento geral da população. Os cidadãos quererão participar nas grandes decisões para o seu futuro colectivo: recursos estratégicos, negócios ocultos, o verdadeiro papel dos partidos no parlamento, a grande evasão fiscal, os cortes, o aumento da dívida, os juros usurários. 
Depois, quererão participar nas grandes opções para o seu futuro e dos seus filhos: as áreas onde se deve investir, a gestão dessas áreas, a avaliação dessa gestão, a transparência da informação. Claro que isto implica cidadãos atentos e responsáveis, que conseguem colocar o colectivo acima dos seus interesses individuais, porque perceberam que dessa forma todos ganham, a grande comunidade. Aqui entram também os conterrâneos espalhados por todo o planeta.
A Europa neste cenário será uma construção dos cidadãos europeus. Como a visualizo? Países livres de decidir, acordo a acordo, tratado a tratado, com cada um dos outros países europeus e de outros continentes. Na Europa, por exemplo: Espanha é o nosso maior cliente europeu, é natural que se estabeleçam acordos especiais entre estes dois países; Portugal é um dos melhores clientes europeus da Alemanha, seria expectável um retorno comercial ou outro; temos uma comunidade considerável em França, assim como em Luxemburgo, Alemanha, Suiça, e Inglaterra mais recentemente, o que também poderia traduzir-se numa interacção a outros níveis; os países mediterrânicos partilham uma cultura própria, têm muito em comum; Portugal tem sido apontado como país periférico em relação à Europa, mas neste cenário Portugal seria um país estratégico nas relações comerciais atlântico e mediterrâneo.
Frank Capra também nos mostra este cenário como possível:



   

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

União bancária, o controle total dos cidadãos europeus

Cá está a tecla da solução, martelada pelo governo: a união bancária vai resolver as actuais dificuldades de alguns países europeus, incluindo o português.
Estas instituições e estas iniciativas já mostraram o seu verdadeiro rosto metálico e frio. Por isso, quando os gestores políticos nos mentem descaradamente já percebemos que eles já são irrelevantes, o próprio parlamento é irrelevante, quem manda são essas entidades estranhas a tudo o que é humano e vital.
A história irá dar-lhes um lugar e uma classificação, pois só se justificaria esta atitude de cumplicidade se lhes tivessem aplicado um chip sub-cutâneo que os tivesse programado para debitar a grande mentira e participar na grande ilusão.
Repito: por cá, os gestores políticos de governos sucessivos foram bons alunos de Bruxelas sabendo quais as consequências da sua gestão incompetente e irresponsável.

Como já aqui referi, ninguém na UE assume o próprio falhanço do "sonho europeu". Ninguém se responsabiliza pela situação precária de milhões de europeus, de países sacrificados, regiões sacrificadas, gerações sacrificadas.
Mas a austeridade que nos surge como um grande falhanço começa agora, com esta insistência na união bancária que vai salvar os países e "segurar" o futuro, a ser perspectivada como uma estratégia político-financeira.

Pensem comigo: de que outra forma os cidadãos europeus aceitariam sequer esta ideia totalitária? Já imaginaram o poder de controle que estas personagens e grupos não identificados nem identificáveis vão ter sobre as vidas de milhões de cidadãos? As vidas concretas, de pessoas concretas, que eles ignoraram completamente?
Personagens e grupos que assistiram indiferentes a pessoas a perder o seu trabalho, as suas casas, os novos sem-abrigo, os novos excluídos, os jovens sem futuro, a fome a generalizar-se?
Personagens e grupos não identificados nem identificáveis que enriqueceram, de forma selvagem e escandalosa, sobre essa destruição sistemática de vidas concretas?
Para que os cidadãos europeus aceitassem entregar as suas vidas e o seu futuro e das suas famílias foi preciso explorá-los, depois assustá-los, para agora lhes prometerem um "seguro de vida", a maravilhosa união bancária, a solução fantástica.

Interessante George Orwell ter previsto este cenário no seu 1984, continentes a funcionar como grandes blocos geo-políticos a lutar entre si, prevendo o caminho da massificação, e não da diversificação como naturalmente esperaríamos se a democracia entrasse na fórmula da organização futura.
Massificação e alienação, o poder e o controle completamente centralizado e desconhecido, é esse o segredo destas iniciativas.

Troika, eurogrupo, BCE, FMI, gabinetes inacessíveis onde se decide tudo o que diz respeito às populações dos países europeus, mas a que os próprios interessados, os cidadãos, não têm lugar.
Mas já andam a preparar as próximas eleições europeias, como se de uma democracia se tratasse. O marketing político já começou a teclar, mas não convence. Os cidadãos europeus já perceberam que estão fora das decisões sobre a sua própria vida e futuro. Os cidadãos europeus só contam como contribuintes e para dar o sangue e os ossos para pagar o negócio da dívida.

Interessante coincidência, ontem revi o filme The International, com o Clive Owen, um investigador determinado que descobre graves irregularidades num grande banco. A lógica do funcionamento destas instituições foi muito bem desmontada no filme:




Dá que pensar, não dá? Que estratégias poderão escolher hoje os cidadãos para se defender desta grande armadilha que lhes estão a preparar na Europa?
Que mecanismos democráticos ainda existem, no seu país e/ou nas organizações europeias em que possam confiar?
Para já, unir-se na sua comunidade e noutras comunidades, partilhar informação, criar estratégias adequadas e eficazes, apoiar-se mutuamente:





domingo, 8 de dezembro de 2013

Por quanto tempo ainda se conseguirá manter a grande ilusão?

Há fenómenos terrestres que me conseguem surpreender, um deles é a incrível capacidade dos humanos se auto-iludirem. Toda a ciência e tecnologia a que hoje têm acesso não parece ter qualquer efeito na sua capacidade de ler a realidade e de antecipar cenários e de se prepararem para escolher aquele em que a sua sobrevivência é mais viável. Mesmo que não quiséssemos ser tão dramáticos, poderíamos apenas considerar a escolha entre cenários confortáveis e desconfortáveis, embora muitos de nós, que não temos essa maravilhosa capacidade de nos auto-iludirmos, saibamos que se trata de uma escolha entre cenários viáveis e inviáveis.

A grande ilusão é alimentada pela informação oficial e apoiada pela ciência e pela tecnologia. Por isso é que a consciência colectiva da realidade só será possível com uma mudança cultural profunda. Esse é o grande desafio do séc. XXI. Temos as ferramentas científicas e tecnológicas, mas falta-nos o essencial: a base cultural, uma consciência abrangente da realidade, uma consciência humana da prioridade da vida sobre a morte, porque no final da linha é disso que se trata.


Hoje o poder é equivalente à capacidade de destruir, não de construir, de sugar recursos naturais e humanos com a sofreguidão e a grosseria mais básicas, invadir e apropriar-se de um espaço colectivo e público, de mandar legislar a seu favor, de colocar em marcha a propaganda e o entretenimento nos canais de televisão e nos sites e redes sociais. 

Alguns filósofos já tinham antecipado a sociedade-espectáculo e antes deles George Orwell já nos tinha mostrado até onde o poder demente pode chegar, e apenas através da observação das grandes potências da altura. Esse poder demente e destruidor, segundo Orwell, apenas se pode manter com o terror, o medo colectivo, a mecanização do trabalho ao nível da escravatura, a ausência de núcleos familiares ou comunitários, e a vigilância. Este é um cenário-limite, um sinal de alarme.
Até no cinema de ficção científica os cenários são, invariavelmente, tiranias, destruição, guerras, violência, um caos em que a vida nada vale, em que o objecto e a sua posse definem o valor de um indivíduo. 
Já vimos isto na história dos povos conquistadores e dos conquistados. Mas podemos ficar mais perto, no séc. XX, nem precisamos ir mais longe. O olhar do tirano é um olhar avaliador, o que vale isto no mercado dos objectos?, esta é a sua cultura de base. É uma cultura que descende de forma directa dos povos que escravizavam outros povos. As pessoas passam a ser apenas avaliadas como objectos, o que produzem, por quanto tempo, qual o seu prazo de validade produtiva. É para isso que servem os povos, as massas, para produzirem, contribuírem para um qualquer PIB ilusório que só se reflecte na manutenção das elites: os que puxam os cordelinhos e os que aparentemente governam e legislam.



Tinha prometido falar aqui da taxa de natalidade, lembram-se? Pois é aqui que entra a taxa de natalidade que tanto preocupa a Pordata. A taxa de natalidade é a que mantém a lógica da corrente, a lógica do prazo de validade dos povos e das massas. O futuro do país é, assim, avaliado pela diferença velhos/reformados sobre jovens/produção/contribuintes. Os casais portugueses em idade fértil já só produzem 1,8 filhos para a lógica produtiva e contributiva. Pessoalmente até me admira que haja jovens a apostar assim no futuro do país ao ponto de arriscar ter um filho num país que não aposta neles, que assiste impassível a despedidas no aeroporto todos os dias. 

Como TPC proponho: cruzem a taxa de natalidade com a taxa de desemprego jovem, e estamos a falar de jovens qualificados, e acrescentem a esses dados os dados da geração anterior a esta, a geração dos 500 euros, também eles qualificados. A seguir, cruzem a taxa de natalidade e a taxa de desemprego e a média dos salários destas duas gerações com a taxa de emigração que atingiu os níveis dos anos 60. 
Se nos querem evidenciar a viabilidade do país, é estes dados cruzados e comparados que nos têm de mostrar, não é apenas a taxa de natalidade.

O país e a sua viabilidade? O país entrou no clube europeu sem condições para isso e as próprias condições de ingresso só o penalizavam a médio e longo prazo. Aqui começou a grande ilusão (para não utilizar a expressão que seria mais adequada, a grande mentira).

O país foi sempre bom aluno de Bruxelas, desde o início. O falhanço actual do país deve ser, pois, considerado, o falhanço dos gestores políticos nacionais e europeus. Todos falharam, ponto final. Todos alimentaram a grande ilusão e continuam a querer mantê-la. Não são eles que nos irão dizer a verdade. Até porque já desenharam os cenários para o país e para a Europa. E nesses cenários não cabem os cidadãos, esses são os figurantes, os papalvos que acreditam que o ano que vem é que é, que o desemprego já está a diminuir, que a economia já está a dar sinais de vida, que a austeridade valeu a pena (esta é a mais cínica de todas, sobretudo para as crianças que passaram fome, os jovens que fazem biscates, os novos escravizados em quintas duvidosas, as gerações sacrificadas, expressão que retirei a Chris Hedges, as sacrifice zones). E já agora, por falar em sacrifice zones, se pegarem no mapa da Europa e o colarem numa parede lá de casa, podem ir pregando os pionaises coloridos a identificar as sacrifice zones europeias. Primeiro, são países, facilmente identificáveis, depois serão cada vez mas localizadas e atingirão comunidades de países ricos, os subúrbios das cidades, as zonas esquecidas do território, as que não produzem, as mais envelhecidas, as que não têm recursos naturais nem humanos para explorar rapidamente, para sugar, para esgotar. Porque essa é a lógica da cultura dominante actual na Europa, não se iludam.

Será que os cidadãos europeus ainda podem criar uma nova cultura que privilegie a vida em vez da morte, a criatividade em vez da exploração, as pessoas em vez dos objectos, as comunidades em vez do egocentrismo, uma gestão colectiva de equipas constituídas por pessoas saudáveis e que revelem maturidade e responsabilidade, em vez dos actuais imaturos egocêntricos que servem a cultura dominante?

Não será com a UE, a CE, o BCE, nem mesmo o PE, a meu ver. Nem mesmo com os seus discursos de circunstância sobre a "pobreza". É na linguagem que utilizam que revelam a sua cultura de base, a linguagem do poder. A "pobreza" é precisamente mantida pela sua própria gestão ao retirar, uma a uma, as possibilidades de cada cidadão gerir a sua vida, recuperar a sua vida, resgatar a sua vida. A sua única vida. 
Espero que as gerações sacrificadas lhes respondam à letra quando lhes vierem com a converseta: a austeridade valeu a pena






quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O verdadeiro papel das máquinas governamentais a partir da análise de duas estratégias: shutdown e austeridade

Um dos grandes equívocos culturais actuais é o papel das máquinas governamentais e dos políticos. A total ausência de mecanismos de avaliação e de responsabilização da sua actuação e intervenção na gestão dos recursos de países e comunidades. As suas opções e prioridades. As suas agendas escondidas.
Quando lemos sobre o recente shutdown (a meu ver, estratégico), de serviços governamentais americanos, começamos a perceber que a situação é mais complexa do que um braço de ferro entre uns e outros, entre os bons e os maus, entre as boas intenções e as más. 
Para percebermos melhor esta estratégia, temos de fazer rewind no vídeo: observar a acção, as opções e prioridades do governo. O que vimos acontecer até aqui depois dos discursos brilhantes e empolgados? Uns são protegidos, outros abandonados, e isto sistematicamente. Também temos visto como as máquinas governamentais são lentas e obsoletas para tomar decisões vitais para os cidadãos e as comunidades, mas rápidas e tecnicamente avançadas para carregar nos botões certos e saltar barreiras legislativas quando se trata dos poderosos e influentes.
A questão é cultural, social, civilizacional. Os governos servem grupos que detêm o poder.

É assim também com outra estratégia, a austeridade, outro grande equívoco cultural que já configura uma grande fraude ou, pelo menos, um grande esquema. Trata-se simplesmente de passar recursos de um lado para outro, e não se ficam por aqui, já se começa a perceber que este caminho é insaciável, está imparável, descontrolado.

Depois de destruir toda uma base cultural e civilizacional europeia, aliás a base onde foi possível criar a UE, pensam estes políticos-tecnocratas que é possível vender a ideia aos cidadãos europeus da viabilidade da marca UE? 
Se fecharmos o som aos seus discursos repetitivos, começamos a ver todo o filme: o que estão a construir sobre as ruínas da UE é qualquer coisa de muito diferente do projecto inicial. Nada tem a ver com a cultura de base, os valores, a organização social, o estilo de vida dos cidadãos europeus. É outra coisa, outro cenário. 
Para vislumbrar esse cenário, basta prolongar no tempo esta agonia da destruição progressiva e sistemática de serviços públicos, de protecção dos mais frágeis, de oportunidades de trabalho com condições dignas, do êxodo de técnicos do sul para o norte. Basta prolongar no tempo o discurso político da chantagem: não se paga a dívida, não se recebem salários nem pensões. 
Se fecharmos de novo o som aos discursos, e nos projectarmos no futuro próximo, o que veremos acontecer? Para a maioria dos cidadãos fecham-se as portas e as janelas dos serviços, é a exclusão, mas a máquina governamental e os seus tentáculos permanecem incólumes. É essa maquinaria que sobrevive. É a maquinaria da UE e os seus gabinetes labirínticos, os seus auditórios, as suas mesas de reuniões e toda a maquinaria dos seus tentáculos, os governos dos países-membros. É toda uma estrutura que serve os interesses de grupos financeiros-corporativos e que se baseia ilegitimamente num projecto inicial que já destruíram.

Para vos desafiar a observar e a analisar esta profunda alteração cultural e civilizacional:








quinta-feira, 23 de maio de 2013

O verdadeiro poder é vida: cria, constrói, une, regenera, cura

Ontem vi a notícia da lista da Forbes das mulheres mais poderosas do mundo e Merkel vem em primeiro lugar.
De que poder e de que mulher estamos aqui a falar? 
Do poder de destruir economias de países, equilíbrios sociais na Europa e, muito provavelmente, a própria democracia? 
Do poder de humilhar, com visitas-relâmpago, os países em dificuldades com a mensagem: continuem a austeridade?
Pode-se destruir com um sorriso e é o que Merkel representa: destruição da economia, erosão social, humilhação, fome, e já não apenas nos países em apuros, está a generalizar-se pela Europa.

Não vou aqui recordar a história bélica europeia e como se recompôs. 

Nem o projecto inicial da UE e do euro. 
Nem a promessa de uma economia estável e próspera, com equilíbrios negociáveis. 
Nem a esperança da democracia baseada na participação dos diversos estados membros.
À primeira sacudidela vinda da criminosa gestão financeira e da ausência de regulação e supervisão bancárias, os países mais fortes, que tinham beneficiado com as condições de integração, esqueceram os equilíbrios próprios de uma democracia e utilizaram os mecanismos autocráticos.
Isto é, depois de terem contribuído para a estrutura de consumo das economias do sul, subsidiadas para abandonar a produção industrial, agrícola e pesqueira, ignoraram isso tudo e impuseram condições impossíveis de concretizar sem destruir economias frágeis e vidas concretas de pessoas.
O absurdo deste poder de destruição foi aqui elevado a proporções inimagináveis de autêntica barbárie, na falta de visão e na ignorância da história, diversidade de culturas, psicologia social, economia e democracia.

No caso português, o próprio governo revelou, desde o início do programa da austeridade, conformismo e subserviência. Isso foi o mais difícil de aceitar como cidadã portuguesa. 

E penso até que somos caso único: os gregos protestaram desde o início ate ficarem completamente exaustos e os espanhóis fizeram tudo para, pelo menos, não deixar a troika entrar em Espanha.
Mas o governo português acena concordante quando o ministro das finanças alemão se refere ao nosso caso como um sucesso e desloca-se entre reuniões de ministros em carros de marca alemã.

O que Merkel não sabe, nem o governo português, nem a Forbes, é que este poder baseado na influência das decisões e na finança e cujo resultado é a destruição pura e simples da economia, do equilíbrio social e da democracia, não é verdadeiro poder, é um poder alucinado.


O verdadeiro poder cria, constrói, une, regenera, cura,  traz a vida consigo, não a morte. 

O verdadeiro poder está na vitalidade de uma economia da colaboração e de uma democracia da participação. 
O verdadeiro poder está na criatividade da diversidade e do respeito cultural e social.
Já dei aqui alguns exemplos: Alex Ojeda, Yacouba Sawadogo, Tim Brown.
Muitos mais surgirão aqui n' A Vida na Terra

Já existem propostas europeias que se distinguem deste programa da austeridade. Esperemos que consigam ainda atenuar, pelo menos, a devastação em sectores vitais: