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quinta-feira, 2 de julho de 2020

A ciencia, a tecnologia e a inovacao sao essenciais para a implementacao da economia Doughnuts



A economia Doughnuts baseia-se essencialmente na gestao inteligente dos recursos de forma a assegurar o seu acesso a uma populacao e a uma intervencao regenerativa nos ecosistemas.
E aqui que entra a ciencia, a tecnologia e a inovacao.

Teremos tambem de fazer um exercicio:
A- o que entendemos por economia? A nossa perspectiva limita-a a economia monetaria, ou e abrangente, como em Alvin Toffler, que considera a nao monetaria como igualmente essencial para a manutencao das comunidades?
Acha que seria possivel manter uma sociedade a funcionar sem a contribuicao do trabalho nao remunerado e do voluntariado, assim como do papel do consumidor na economia?

Outro exercicio:
B- o que entende por recursos? Os recursos naturais, os equipamentos sociais, a capacidade de financiamento, e os recursos humanos?
A economia Doughnuts implicara uma gestao inteligente, em constante adaptacao e melhoria, com a colaboracao activa de toda a populacao.
Todas as pessoas participam na economia, cada uma no seu papel, e em interaccao.

Como comecamos a perceber, a partir destes dois exercicios, a economia actual nao e inteligente e as pessoas, como comunidade, nao contam do mesmo modo. Dai os seus profundos desequilibrios, desvios e danos.



quarta-feira, 20 de maio de 2020

Havera inteligencia na Terra?




Ontem vi um filme sobre um astronomo obcecado com a possibilidade de existencia de vida noutro planeta com algum grau civilizacional.

Primeiro consideram planetas a distancia ideal de uma estrela para a existencia de vida. Depois trata-se de encontrar qualquer forma de comunicacao ou vestigio de intervencao inteligente, isto e, intencional e nao um acaso.

A minha obsessao, se assim lhe posso chamar, e encontrar uma prova da existencia de inteligencia na Terra.

Considerando a inteligencia como capacidade de adaptacao e evolucao natural para formas de interaccao saudaveis e equilibradas da comunidade.

O equilibrio e uma constante vital, uma condicao basica da vida.

O que vemos no nosso planeta e o desequilibrio e o caminho para a extincao. A incapacidade de adaptacao e, consequentemente, de evolucao.

E provavel que os Vedas tenham razao e a humanidade nao esteja a evoluir mas em decadencia.
Que ja tenham existido uma ou varias civilizacoes inteligentes, so que nao vemos vestigios.

Que vestigios nos deixaria uma civilizacao inteligente?
Que tivesse capacidade de adaptacao e de utilizacao dos recursos sem os destruir? Que interagisse com a terra, os seus rios, o mar, sem os poluir?
Essa e a questao, nao deixaria vestigios, pegadas, lixo.
Nao destruiria recursos vitais para o futuro das comunidades.
Nao destruiria vida por ignorancia, ganancia ou recreacao.

Como tera desaparecido? 
Provavelmente por uma qualquer invasao belica de formas humanas menos inteligentes. 
Basta lembrar Alexandria para imaginar uma identica invasao numa escala infinitamente diversa: uma civilizacao ainda mais evoluida invadida por fanaticos de mentes limitadas ou de belicismo da conquista.

Uma civilizacao evolui da materia para o imaterial. Os seus vestigios sao quase imperceptiveis, a alteracao seria sempre benigna e para melhorar equilibrios naturais.
As suas comunidades comunicariam atraves de uma linguagem que nao nos e acessivel. As vezes imagino sons de passaros, de baleias, golfinhos, formas de comunicacao mais evoluidas do que a nossa. Um radar, campos magneticos, linhas que se cruzam sem postes ou cabos terrestres.

Nao estamos preparados para perceber ou identificar civilizacoes inteligentes.
Somos criaturas de mentes limitadas e manipulaveis. Facilmente entretidos com materiais toxicos e destrutivos, tralha, lixo.
Destruimos tudo em que tocamos, pessoas, animais, arvores, rios, mar.
Desequilibramos as condicoes basicas da vida.
Caminhamos como carneiros doceis para o matadouro que pertence a um pequeno grupo de fanaticos viciosos e doentes mentais.
E esta a nossa realidade actual e nem capacidade temos para a ver e muito menos para evitar o mesmo destino para as futuras geracoes.




sexta-feira, 5 de junho de 2015

O programa oculto da coligação

Enquanto no futebol mundial se fervilha com a descoberta (?) da alta corrupção na FIFA, a Europa das estrelinhas começa a inclinar-se como a torre de Pisa. As cabeças visíveis que lideram o projecto europeu revelam-se simples marionetas de um outro projecto que nada tem a ver com o inicial e com aquele que apresentou nas eleições europeias.

Lá como cá, aqui fervilha-se com a mudança de treinador no Benfica e no Sporting, enquanto a coligação que gere actualmente a política nacional apresenta o seu programa eleitoral sem dizer, desta vez, o que vai fazer exactamente. É que da primeira vez ludibriou completamente os eleitores.

Os eleitores mais atentos e experientes já sabem o que a coligação vai fazer na área do trabalho e da segurança social, o núcleo digamos assim, o coração do país, porque se trata da vida das pessoas, a área mais sensível, a área que devia ser mais defendida e acarinhada, como estão a fazer os gregos mesmo na situação de encostados às cordas.

Mas não é apenas no núcleo, no coração do país, que a coligação espeta o estilete (ando a acompanhar as séries da Miss Marple e do Poirot), é nos recursos essenciais: banca, energia, comunicações postais, telecomunicações. Agora esfregam as mãos ao transporte aéreo, ao transporte urbano e à agua.

Alguém tem dúvidas sobre o programa oculto da coligação?

1. Cortes nas pensões;
2. continuação da redução do valor trabalho, isto é, trabalho precário, subemprego, formação/estágios sem perspectivas; 
3. aumento de impostos, taxas, coimas;
4. continuação da privatização dos recursos nacionais;
5. colocar a economia ao serviço da finança, isto é, os cidadãos ao serviço da dívida;
... E a lista de malfeitorias continua. 

Mas não se pense que os socialistas estão muito melhor intencionados. Também querem ir ao coração do país, isso mesmo, à segurança social.
O que fizeram eles do programa Novo Rumo?, o que fizeram eles da unidade em fundo verde e com música inspiradora e que respirava paz entre os homens de boa vontade?, o que fizeram eles de Seguro?
   
E agora? Como votar? Como confiar num projecto e num programa? Como sair desta alternância viciada?
Pois é, falta-nos um projecto novo, mas acima de tudo proposto e gerido por uma nova cultura. Uma cultura de inteligência prática, responsabilidade, colaboração.
É por isso que a minha esperança reside agora nas novas gerações.








domingo, 16 de fevereiro de 2014

O plano escondido por trás da propaganda eleitoral europeia

Reparem neste vídeo publicitário das próximas eleições europeias sob o mote: "This time is different" (???)


É diferente de "quê"? Porque não se fala nesse "quê" de que agora é diferente? 
Mostrando precisamente as áreas que foram sendo destruídas sistematicamente, saúde, qualidade de vida, futuro, as palavras e frases da propaganda a contrastar com o que verdadeiramente aconteceu e continua a acontecer chega a configurar insanidade mental.

Este tipo de marketing político, além de obsoleto e de soar a falsidade em cada palavra cuidadosamente escolhida e cada frase delicodoce, é absolutamente intragável. Quem querem eles influenciar e/ou programar com este discurso e estes sorrisos mais próprios de um anúncio de pasta dentífrica?
Agora coloquem-se no lugar dos cidadãos dos países intervencionados e de outros, prensados e amolgados em diversas receitas e doses, ao ver e ouvir vídeos como este!
Porque não assumem os tecnocratas europeus, e os políticos nacionais, a sua responsabilidade na grande mentira que permitiu um verdadeiro assalto aos cidadãos e que sacrificou já várias gerações?

Desculpem insistir no tema dos graves erros da política e da economia, e dos malefícios da finança nas nossas vidas actuais. Não me canso de dizer que o problema é da dimensão cultural, a crise é cultural, de prioridades, da gestão dos recursos, do valor do trabalho. 
É por isso que tenho voltado ao tema da Europa, do falhanço do projecto europeu, da grande mentira do marketing político europeu, e do que está realmente em jogo mas que poucos identificaram: os recursos e a sua apropriação pelos grandes grupos económicos.
A austeridade veio permitir a sua concretização, da forma mais cínica e perversa possível. Como classificar políticos que colocam os seus países e cidadãos na maquinaria mortífera do negócio da dívida?
Cabe na cabeça de uma pessoa mentalmente saudável querer passar por cima do sofrimento causado a milhões de europeus para manter os lucros da finança e dos grandes grupos económicos? 

Cabe na cabeça de uma pessoa mentalmente saudável querer iludir os cidadãos europeus para os continuar a escravizar no negócio da dívida? 

Cabe na cabeça de uma pessoa mentalmente saudável tentar passar a mensagem de que "desta vez é diferente" sem falar desse "quê"?

É que esse "quê" é precisamente a sua responsabilidade na grande mentira que permitiu um verdadeiro assalto aos cidadãos e que sacrificou já várias gerações.

Gostei, pois, de ver que, no programa Eurodeputados mais recente da RTP2, são as mulheres, eurodeputadas, que desmontam a propaganda europeia, demonstram os erros cometidos e identificam o verdadeiro plano da austeridade.

A austeridade da troika não é nada mais nada menos do que o que o FMI fez nos países em vias de desenvolvimento: a apropriação progressiva e sistemática dos seus recursos que resultou tantas vezes em cenários de conflito armado: essa é a dimensão do seu plano maquiavélico e da sua insanidade mascarada de racionalismo económico.


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

A cultura do objecto

Para exemplificar o que entendo por cultura do objecto, a cultura dominante actualmente, escolho a importância atribuída no país pelos partidos políticos da esquerda, surpreendentemente, ao episódio do cancelamento da venda dos quadros de Miró em leilão.
A questão da posse dos quadros é uma prioridade na cabeça destas personagens. É precisamente esta organização mental que eu considero a cultura do objecto. Por um objecto, coisas, são capazes de acorrer ao fim do mundo se for preciso e mostrar o seu ar pesaroso na televisão, mas são incapazes de mexer um dedo ou de prestar um mínimo de atenção quando se trata de pessoas concretas e as suas vidas.

Para a cultura do objecto, a cultura é apenas objectos, coisas, e esses objectos e coisas são avaliados no mercado a que chamam arte. Arte, para a cultura do objecto, são objectos e coisas. E onde é que devem estar estes objectos e coisas? Em museus para atrair turistas. Cultura resume-se a isso.

Hoje, com as tecnologias a que muitos têm acesso, a arte tornou-se imaterial, podemos entrar num museu virtual e saber tudo sobre uma determinada "obra de arte".
Além disso, a arte já saiu há muito do espaço fechado do mercado dos objectos e das coisas, adquiriu uma dimensão cultural muito mais abrangente. A arte-cultura saiu dos museus e das bibliotecas fechadas.
O turismo dos museus cabe no país pós-troika pelos vistos também idealizado pelos partidos políticos da esquerda. O país do turismo de museu. Também a Grécia esgotou esse modelo, a Itália idém aspas.

A cultura do séc. XXI é a cultura do imaterial, por um lado, e da criatividade viva, por outro. A cultura é cada vez mais entendida na dimensão da interacção das pessoas entre si, das pessoas e os espaços, das pessoas e os objectos.

Este episódio da salvação dos quadros de Miró in extremis esclareceu-me sobre o longo percurso que ainda temos de trilhar como país. Saltando a questão da precipitação e irregularidades administrativas, não me causa qualquer incómodo ver os quadros traduzidos no seu valor mercantil uma vez que os contribuintes entram com 7 mil milhões de euros no buraco do BPN. 
E essa converseta de ser um valor mesquinho só me provoca alergias. Este argumento é utilizado também para as fundações, as reformas chorudas, os assessores, os deputados. Mesquinho, Ex.cias, é retirar às famílias o equivalente a esse valor para financiar manobras eleitorais que ainda por cima são aventureiras, sim, refiro-me à saída à irlandesa.

Mas ainda há mais sobre a cultura do objecto: além desta lista de prioridades da cultura do objecto e da sua noção pueril de cultura, esta organização mental atribui às pessoas um valor material. Já devem ter ouvido avaliações do género: fulano a vale x milhões; fulana b vale y milhões. Tudo é avaliado desta forma na cultura do objecto. É um mercado onde tudo tem um valor mercantil.

Espero ainda ver emergir a cultura da vida e da criatividade, em que nada pode ser reduzido a um valor associado nem ser trocado no mercado global. A vida não tem preço associado. A criatividade não tem preço associado.

E para desanuviar deste episódio revelador da cultura dominante no país, um western com Dana Andrews e Susan Hayward, a lembrar-nos que há valores mais importantes do que o valor mercantil:








segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

A imprevisibilidade própria das sociedades livres

A imprevisibilidade própria das sociedades livres tornou-se o principal obstáculo ao controle dos cidadãos. E a tendência actual é precisamente tornar previsível o seu comportamento. A recolha de dados dos cidadãos vai também nesse sentido. Hoje já é possível prever com algum grau de segurança (a tão repetida margem de erro das sondagens) qual a resposta de grupos de indivíduos. Hoje já é possível identificar grupos problemáticos e antecipar os seus movimentos e iniciativas.

As sociedades mais saudáveis são as que se organizaram dando espaço a um certo grau de liberdade individual e grupal. Aparentemente caóticas quando observadas à distância, a sua organização é flexível, aberta, mutável, tal como a própria vida e as suas leis: equilíbrio e movimento.
Esta organização não é nova na história, muitas civilizações terão florescido assim, procurando aproveitar os recursos existentes de forma razoável e equilibrada.

Mas também vemos na história civilizações que se organizaram apropriando-se dos recursos de forma ávida e gananciosa, e esgotando-os rapidamente. É o que se verifica também actualmente: sorver tudo sem critério a não ser o enriquecimento corporativo.
Para manter a ordem num tal desequilíbrio torna-se necessário neutralizar toda a margem de erro que possa surgir nas iniciativas sociais. Também é preciso manter a ilusão da liberdade e da cidadania. E igualmente entreter e alienar.

Quais os grupos que se adaptarão melhor a uma sociedade controlada e onde o comportamento social se tornou previsível? Precisamente os que não convivem bem com a imprevisibilidade própria das sociedades livres. Os que propõem uma ordem imposta de cima, os que idealizam e admiram os poderosos, os que apreciam a lei do mais forte, os que se renderam à cultura do objecto. Todos os extremos se encontram aqui, da direita e da esquerda, mas também os pueris. Nada como uma ordem exterior para aquietar o caos interior (extremismos) e o vazio interior (pueris). Paradoxalmente, também os revoltados se adaptarão razoavelmente, afinal este é um duelo a que se habituaram. Os rebeldes encontrarão aqui uma missão que será duradoura para os que se viciaram na própria revolta, e temporária para os que evoluíram para a autonomia responsável do adulto.

Quais os grupos que não se adaptarão facilmente? Todos os que observam o mundo com a consciência do adulto responsável. Serão estes os que perceberão mais cedo o que os espera e a todos os que ficarão submetidos a tal organização social. As iniciativas criativas e imprevisíveis surgirão daqui. Contrariamente aos grupos de revoltados e rebeldes, as suas iniciativas serão sempre responsáveis e pacíficas, o seu objectivo será sempre a defesa do mais fraco e vulnerável, a qualidade de vida, a dignidade.

O paradoxo essencial e não visível aos olhos do poder que controla tudo e todos: 
- no caos aparente de organizações onde todos têm um papel activo e onde tudo é negociável, encontramos uma organização que permite a qualidade de vida e o convívio pacífico; 
- na ordem aparente de organizações fortemente controladas, encontramos focos de revolta que implicam a utilização de meios de segurança, vigilância e encarceramento.





As leis comuns a todas as formas de vida são as mesmas para as organizações sociais. Seria muito útil para todos nós que esta mensagem fosse percebida, até porque a história nos revela isso mesmo:

- a vitalidade e criatividade, nunca tão necessárias como agora para lidar com os desafios actuais, está do lado da organização mais livre, aberta e flexível;
- o equilíbrio e movimento das sociedades que dão espaço à imprevisibilidade permite, paradoxalmente, que evoluam de forma saudável e pacífica;
- numa organização inteligente, isto é, que segue as leis gerais da vida (equilíbrio e movimento), os recursos são aproveitados e distribuídos de forma razoável, tornando-a gratificante para todos, isto é, todos ganham.




    

domingo, 8 de dezembro de 2013

Por quanto tempo ainda se conseguirá manter a grande ilusão?

Há fenómenos terrestres que me conseguem surpreender, um deles é a incrível capacidade dos humanos se auto-iludirem. Toda a ciência e tecnologia a que hoje têm acesso não parece ter qualquer efeito na sua capacidade de ler a realidade e de antecipar cenários e de se prepararem para escolher aquele em que a sua sobrevivência é mais viável. Mesmo que não quiséssemos ser tão dramáticos, poderíamos apenas considerar a escolha entre cenários confortáveis e desconfortáveis, embora muitos de nós, que não temos essa maravilhosa capacidade de nos auto-iludirmos, saibamos que se trata de uma escolha entre cenários viáveis e inviáveis.

A grande ilusão é alimentada pela informação oficial e apoiada pela ciência e pela tecnologia. Por isso é que a consciência colectiva da realidade só será possível com uma mudança cultural profunda. Esse é o grande desafio do séc. XXI. Temos as ferramentas científicas e tecnológicas, mas falta-nos o essencial: a base cultural, uma consciência abrangente da realidade, uma consciência humana da prioridade da vida sobre a morte, porque no final da linha é disso que se trata.


Hoje o poder é equivalente à capacidade de destruir, não de construir, de sugar recursos naturais e humanos com a sofreguidão e a grosseria mais básicas, invadir e apropriar-se de um espaço colectivo e público, de mandar legislar a seu favor, de colocar em marcha a propaganda e o entretenimento nos canais de televisão e nos sites e redes sociais. 

Alguns filósofos já tinham antecipado a sociedade-espectáculo e antes deles George Orwell já nos tinha mostrado até onde o poder demente pode chegar, e apenas através da observação das grandes potências da altura. Esse poder demente e destruidor, segundo Orwell, apenas se pode manter com o terror, o medo colectivo, a mecanização do trabalho ao nível da escravatura, a ausência de núcleos familiares ou comunitários, e a vigilância. Este é um cenário-limite, um sinal de alarme.
Até no cinema de ficção científica os cenários são, invariavelmente, tiranias, destruição, guerras, violência, um caos em que a vida nada vale, em que o objecto e a sua posse definem o valor de um indivíduo. 
Já vimos isto na história dos povos conquistadores e dos conquistados. Mas podemos ficar mais perto, no séc. XX, nem precisamos ir mais longe. O olhar do tirano é um olhar avaliador, o que vale isto no mercado dos objectos?, esta é a sua cultura de base. É uma cultura que descende de forma directa dos povos que escravizavam outros povos. As pessoas passam a ser apenas avaliadas como objectos, o que produzem, por quanto tempo, qual o seu prazo de validade produtiva. É para isso que servem os povos, as massas, para produzirem, contribuírem para um qualquer PIB ilusório que só se reflecte na manutenção das elites: os que puxam os cordelinhos e os que aparentemente governam e legislam.



Tinha prometido falar aqui da taxa de natalidade, lembram-se? Pois é aqui que entra a taxa de natalidade que tanto preocupa a Pordata. A taxa de natalidade é a que mantém a lógica da corrente, a lógica do prazo de validade dos povos e das massas. O futuro do país é, assim, avaliado pela diferença velhos/reformados sobre jovens/produção/contribuintes. Os casais portugueses em idade fértil já só produzem 1,8 filhos para a lógica produtiva e contributiva. Pessoalmente até me admira que haja jovens a apostar assim no futuro do país ao ponto de arriscar ter um filho num país que não aposta neles, que assiste impassível a despedidas no aeroporto todos os dias. 

Como TPC proponho: cruzem a taxa de natalidade com a taxa de desemprego jovem, e estamos a falar de jovens qualificados, e acrescentem a esses dados os dados da geração anterior a esta, a geração dos 500 euros, também eles qualificados. A seguir, cruzem a taxa de natalidade e a taxa de desemprego e a média dos salários destas duas gerações com a taxa de emigração que atingiu os níveis dos anos 60. 
Se nos querem evidenciar a viabilidade do país, é estes dados cruzados e comparados que nos têm de mostrar, não é apenas a taxa de natalidade.

O país e a sua viabilidade? O país entrou no clube europeu sem condições para isso e as próprias condições de ingresso só o penalizavam a médio e longo prazo. Aqui começou a grande ilusão (para não utilizar a expressão que seria mais adequada, a grande mentira).

O país foi sempre bom aluno de Bruxelas, desde o início. O falhanço actual do país deve ser, pois, considerado, o falhanço dos gestores políticos nacionais e europeus. Todos falharam, ponto final. Todos alimentaram a grande ilusão e continuam a querer mantê-la. Não são eles que nos irão dizer a verdade. Até porque já desenharam os cenários para o país e para a Europa. E nesses cenários não cabem os cidadãos, esses são os figurantes, os papalvos que acreditam que o ano que vem é que é, que o desemprego já está a diminuir, que a economia já está a dar sinais de vida, que a austeridade valeu a pena (esta é a mais cínica de todas, sobretudo para as crianças que passaram fome, os jovens que fazem biscates, os novos escravizados em quintas duvidosas, as gerações sacrificadas, expressão que retirei a Chris Hedges, as sacrifice zones). E já agora, por falar em sacrifice zones, se pegarem no mapa da Europa e o colarem numa parede lá de casa, podem ir pregando os pionaises coloridos a identificar as sacrifice zones europeias. Primeiro, são países, facilmente identificáveis, depois serão cada vez mas localizadas e atingirão comunidades de países ricos, os subúrbios das cidades, as zonas esquecidas do território, as que não produzem, as mais envelhecidas, as que não têm recursos naturais nem humanos para explorar rapidamente, para sugar, para esgotar. Porque essa é a lógica da cultura dominante actual na Europa, não se iludam.

Será que os cidadãos europeus ainda podem criar uma nova cultura que privilegie a vida em vez da morte, a criatividade em vez da exploração, as pessoas em vez dos objectos, as comunidades em vez do egocentrismo, uma gestão colectiva de equipas constituídas por pessoas saudáveis e que revelem maturidade e responsabilidade, em vez dos actuais imaturos egocêntricos que servem a cultura dominante?

Não será com a UE, a CE, o BCE, nem mesmo o PE, a meu ver. Nem mesmo com os seus discursos de circunstância sobre a "pobreza". É na linguagem que utilizam que revelam a sua cultura de base, a linguagem do poder. A "pobreza" é precisamente mantida pela sua própria gestão ao retirar, uma a uma, as possibilidades de cada cidadão gerir a sua vida, recuperar a sua vida, resgatar a sua vida. A sua única vida. 
Espero que as gerações sacrificadas lhes respondam à letra quando lhes vierem com a converseta: a austeridade valeu a pena






sábado, 2 de novembro de 2013

Equilíbrio vital - consciência abrangente - comunidades criativas

Ultimamente tenho dedicado algum tempo matinal a tentar compreender porque é que os debates culturais e políticos actuais se revelam inúteis para o grande plano e para as questões verdadeiramente importantes e prioritárias.
A minha perplexidade vai mais longe: porque é que pessoas em lugares estratégicos de grande responsabilidade na gestão colectiva, política e económica, se dedicam a exercícios verbais inúteis e nos tentam vender ideias e fórmulas esgotadas que já se verificou não terem qualquer resultado prático construtivo? Porque é que pessoas em lugares de poder e influência evitam as grandes questões que dizem respeito a todos nós? Porque tentam manter uma cultura obsoleta que não se adapta ao desenvolvimento científico e tecnológico actuais nem aos desafios que enfrentamos hoje?

Resolvi desligar a televisão, evitar os sites informativos oficiais e pegar na minha lista das questões prioritárias. Vamos a isso:

Quais são as questões verdadeiramente importantes e prioritárias?
1 - Começaria pela sobrevivência da vida humana na Terra, por exemplo. Pode parecer-nos uma forma muito dramática de colocar esta questão, mas hoje alguém pode negar o percurso auto-destrutivo da actual gestão política e económica e das grandes opções de quem exerce o poder?;
2 - a qualidade da vida humana (alimentação, habitação, saúde, educação, interacção social, autonomia, participação na comunidade, etc) e a utilização dos recursos de forma adequada e equilibrada;
3 - uma mudança cultural e política que nos permita acompanhar e optimizar o desenvolvimento científico e tecnológico e lidar com os grandes desafios actuais.

A seguir procurei identificar os princípios em comum. Se repararem bem, todas as grandes questões referidas, sobrevivência da vida humana na Terra, qualidade da vida humana, utilização dos recursos de forma adequada e equilibrada e uma cultura e política adequadas ao desenvolvimento científico e tecnológico e aos grandes desafios actuais, implicam
equilíbrio vital - consciência abrangente - comunidades criativas.
Pronto, aqui está uma fórmula muito simples que me surgiu em horas matinais e que me tem acompanhado ultimamente. A sua representação gráfica poderia ser: um círculo maior para o equilíbrio vital que está presente em tudo na vida na Terra; dentro dele num círculo mais pequeno onde cabe a consciência abrangente, isto é, a intervenção humana e, neste círculo, as interacções e a informação partilhada das comunidades criativas, as inevitáveis setinhas num ou em dois sentidos.

Equilíbrio vital: "homeostasis" vem da biologia e é uma das condições básicas das diversas formas de vida, desde as mais simples às mais complexas. É também um princípio fundamental para os neurocientistas (ex.: António Damásio, um dos autores que será abordado nesta análise).


Consciência abrangentebaseada na perspectiva de "consciência" de António Damásio e da importância das emoções; na análise de Arno Gruen sobre os riscos do conformismo baseado na "traição do Eu" e da importância da empatia na sobrevivência das comunidades; da consideração da dimensão terapêutica da arte por Alain de Botton, como construção cultural de uma história diária da sobrevivência humana.


Comunidades criativas: partindo das condições para a sua sobrevivência e qualidade de vida, surge actualmente a possibilidade das comunidades se tornarem participativas e responsáveis pela sua viabilidade, pelo seu futuro. Aqui entra a perspectiva alargada de economia e da criação de riqueza de Alvin Toffler, em que a economia não se esgota no sistema monetário: a importância da "informação partilhada":