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terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Portugal e a sua vocação universal

Talvez porque tenhamos vindo de todo o lado, do norte, do sul, do oriente, trazemos connosco muitos povos e muitas culturas. Nada nem ninguém nos é estranho, encontramos logo um modo de comunicar. Isso verifica-se nos documentários sobre os nossos contingentes em missões de paz ou agora nos resgates marítimos de refugiados, e nos programas sobre os portugueses no mundo ou dos jovens que criam startups e aplicações. Movimentamos-nos no mundo com à vontade, partilhamos ideias e projectos, a nossa cultura universal é a mesma do séc. XXI.

Estamos, pois, bem posicionados para ajudar outras culturas mais fechadas a abrir as suas fronteiras mentais e a ver o grande plano onde tudo se movimenta e encontra o seu equilíbrio. A possibilidade de virmos a ter um português na ONU é, neste sentido, uma oportunidade única de colocarmos a nossa cultura universal ao serviço dos direitos humanos universais.

Que a nossa alma universal consiga, igualmente, criar dentro de portas esse movimento e equilíbrio que ajuda a criar no mundo. 





domingo, 20 de setembro de 2015

As mulheres na política

Já aqui reflecti sobre o papel das mulheres na política.
Vemos agora esse papel tornar-se mais evidente e efectivo numa fase das mais difíceis e desafiantes da nossa frágil democracia.
E quem são as mulheres que revelam hoje uma outra forma de estar na política?, uma outra forma de pegar nos assuntos tabu da gestão do colectivo?, uma outra forma de se apresentar às pessoas concretas e de interagir com elas?
Vou colocar estas novas protagonistas da política portuguesa em dois grupos bem distintos e já explico porquê:

No primeiro grupo coloco Catarina Martins, Mariana Mortágua, Joana Mortágua, Marisa Matias (de que já falei no post anterior), e outras mulheres com o seu perfil;
No segundo grupo coloco Joana Amaral Dias e outras mulheres com o seu perfil.

Qualidades comuns às mulheres dos dois grupos: agilidade de raciocínio, capacidade de relacionar factos, capacidade de síntese, acutilância, criatividade. Qualidades essencialmente mentais, em que todas se revelam brilhantes.
Qualidades que as distinguem: as emocionais.

Enquanto no primeiro grupo vemos surgir uma nova forma de estar na política e de interagir com as pessoas concretas, o perfil empático, que valoriza a equipa, a colaboração, a partilha, capaz de negociar (ganha-ganha), no segundo grupo vemos um perfil mais típico dos homens na política, o perfil competitivo, de confronto, de poder (ganha-perde).
O que nos indica que, na política, o facto de ser mulher não nos garante à partida um perfil empático, capaz de colaborar e de negociar.

Hoje o poder pelo poder (ganha-perde) é muito atractivo, afinal vivemos numa sociedade narcísica.
Mas há esperança: as novas gerações funcionam cada vez mais numa outra dimensão, e é isso que lhes irá permitir sobreviver por enquanto numa economia dependente da lógica financeira (fria, metálica, de exclusão), criando as suas próprias redes de interacção e colaboração, e construindo uma nova economia e uma nova política.









terça-feira, 22 de abril de 2014

O novo mundo descentralizado e o novo equilíbrio instituições - indivíduos





Começamos a percepcionar à nossa volta um novo mundo que começa a sobrepor-se ao que nos têm imposto como único. Este novo mundo está já a alterar as nossas vidas e a lógica de certas áreas de actividade. Também se alteram as relações entre produtor e consumidor. Assim como o equilíbrio global - local, corporações - comunidades, instituições - indivíduos. Todas estas alterações terão um impacto na economia, na finança, na política, as áreas onde o poder se tem concentrado.
E no entanto, estas áreas onde o poder se tem baseado mantêm a sua lógica obsoleta e um discurso desfasado da realidade actual, insistindo que somos nós que temos de nos adaptar.

No nosso país, por exemplo, esta desfocagem do essencial e da realidade que já nos estrutura hoje, revela-se dramática porque estamos a esgotar um tempo precioso, uma janela de tempo que se encurta a cada dia que passa.
O tema actual no país é, compreensivelmente, o balanço de 40 anos do 25 de Abril, até porque se verifica uma distância cada vez maior partidos políticos - cidadãos eleitores. A democracia vive aqui tempos de uma fragilidade enorme em termos de representatividade e legitimidade. Um dos nossos especialistas na Constituição, Freitas do Amaral, aponta mesmo para a necessidade de se formarem novos partidos, para se recriar um novo sistema democrático representativo.
Já poucos acreditam que os actuais se consigam reformar por dentro.

Nesta nova tendência da descentralização, vemos em contra-mão a UE, uma organização pesada, complexa, burocrática, que também se distanciou dos cidadãos europeus e que sempre evitou dar-lhes voz em questões fundamentais. Agora depara-se com o preocupante cenário do ressurgimento de extremismos políticos.
Um novo equilíbrio instituições - cidadãos vai implicar necessariamente uma mudança na UE e no euro. Menos poder centralizado em gabinetes, aliás menos gabinetes e menos funcionários, mais flexibilidade e proximidade com os países, regiões, comunidades. A relação entre países e regiões só pode melhorar com uma descentralização progressiva. 
Portanto, não são os cidadãos que se terão de adaptar ao mundo que nos querem impor, dos mercados, dos grandes bancos, dos grandes grupos económicos, das troikas e dos governos que lhes prestam vassalagem. São precisamente esses grupos que se terão de adaptar ao novo mundo que já nos rodeia.   

Agrada-me pensar que o novo mundo descentralizado, de pessoas e comunidades ligadas em tempo real, permite maior capacidade de cada um organizar a sua vida de forma satisfatória e gratificante. Visualizo esse novo mundo potencialmente inclusivo, na lógica da colaboração e partilha. A minha esperança baseia-se na constatação que as pessoas comuns se relacionam melhor entre si do que as instituições e corporações. 
Posso destacar vários exemplos que propositadamente vou seleccionar à área da filantropia. Porquê? Porque a lógica do mundo que nos querem impor está de tal forma impregnada culturalmente que até nesta área da beneficência, fazer o bem digamos assim, mantém-se uma espécie de propaganda e marketing, mas também de um neo-colonialismo subliminar:


Se repararmos, a palavra "pobre" estigmatiza e diminui o outro em vez de o animar e fortalecer. É a atitude paternalista de quem se dirige a alguém que precisa de ser ensinado e apoiado. Não há uma troca de experiências e sabedoria, não há uma relação entre iguais na sua condição humana. 
O caso dos inúmeros campos de refugiados é outra mancha na dignidade humana. Há campos que se mantêm passados muitos anos da intervenção de emergência, como é o caso do Haiti, onde muitas famílias vivem ainda em tendas e pagam renda por isso... isto é, há quem lucre à custa da manutenção de uma situação precária e frágil.
Escolhi este exemplo de uma família síria apanhada numa tragédia mais recente:


  

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Do activismo organizado às comunidades criativas

Tem sido através do Twitter que tenho recebido informação do que se passa. Ver notícias tornou-se demasiado deprimente. Já vi o filme. É fácil projectarmo-nos num futuro próximo, digamos ao longo de uma década, no país e na Europa.
O que estão a fazer ao país? Que país irreconhecível vai sair da continuação da gestão danosa dos políticos profissionais actuais, dos tecnocratas da UE e dos técnicos do FMI?
Regiões sacrificadas (do termo sacrifice zones de Chris Hedges) e gerações sacrificadas em nome de quê?, é um tema a que me irei dedicar a seguir, a propósito de informação divulgada pela Pordata sobre o envelhecimento do país e taxa de natalidade. 

Mas hoje é sobre esta súbita preocupação do poder oficial sobre a sua perda de expressão popular, que o mesmo é dizer, perda da sua legitimidade democrática.

A OECD organizou um forum aberto sobre esta questão, mas parte da variável errada, a meu ver: os governos podem fazer mais para recuperar a confiança.
Só uma mudança cultural profunda, acompanhada por uma mudança do equilíbrio de forças, social, financeiro e económico, pode alterar este declínio inevitável da confiança nos políticos profissionais. E não é só nos políticos, é nas personagens que representam: os tecnocratas europeus, os técnicos do FMI, os representantes da alta finança.
É por isso que duvido da eficácia deste forum na recuperação da confiança perdida, mesmo que se tente uma aproximação à sociedade civil. Sem uma cultura de base favorável ao equilíbrio saudável e à partilha de poder nas grandes decisões colectivas, não existe a possibilidade de recuperar os próprios princípios em que se baseia a democracia.
É essa cultura que começamos a ver surgir naturalmente, como capacidade de adaptação ao desenvolvimento científico e tecnológico, nos mais diversos locais, nas redes sociais, na informação partilhada, no investimento directo em projectos.

Outra grande mudança cultural que vemos emergir e que irá, a meu ver, alterar o equilíbrio do poder nas comunidades locais mas também nas comunidades virtuais, é a transição do activismo organizado para comunidades criativas. Um exemplo muito interessante e significativo é o do grupo Occupy Wall Street. Embora a utilização de máscaras, o anónimo, não me agrade pessoalmente (nunca gostei de máscaras, nem no Carnaval), esta iniciativa inteligente e criativa já antecipa outras do género: eficazes na informação aos cidadãos e na rapidez da acção concreta. Em breve veremos simples cidadãos a ajudar-se mutuamente na sua defesa dos apertões governamentais e financeiros. É a nova participação cívica, uma cultura da colaboração. 

Resumindo, uma cultura comunitária sem os constrangimentos geográficos e culturais das antigas comunidades essencialmente conformistas e com regras rígidas para garantir a sua sobrevivência e segurança. A nova cultura comunitária respeita a diversidade, é naturalmente democrática, valoriza a informação partilhada e o equilíbrio saudável do poder social, económico e financeiro como bases fundamentais da qualidade de vida tendencialmente universal.
   


sábado, 25 de maio de 2013

O que podemos aprender com a partilha?

Quando descobri este filme dos anos 40 no youtube, The More The Merrier, fiquei de imediato fascinada. Cresci com os filmes americanos que passavam na televisão e esse fascínio permaneceu.
Ontem, num passeio pelo Twitter, e a propósito desta notícia no Shareable, lembrei-me do filme.
Na verdade, foi a primeira parte do filme que me fascinou: inicia-se em forma de documentário, uma cidade que cresce de repente, Washington DC, à volta de escritórios governamentais sobretudo, e com tudo o que vem agregado: sub-aluguer de apartamentos, restaurantes improvisados, transporte partilhado com horários definidos.
Reparem na partilha dos terraços dos prédios, só possível em prédios de altura mediana: a criançada e os adultos podem apanhar sol à vontade.
Reparem igualmente no design do carro, o transporte partilhado, de linhas onduladas tão actuais.
O que me interessou reter do filme:
- o espaço pode ser aproveitado pelo grupo, partilhado pelo grupo, gerido pelo grupo;
- o transporte pode ser partilhado com vantagens evidentes para todos.



Ontem também fiz outra descoberta nesse passeio pelo Twitter e igualmente através do Shareable, e vale a pena ler
Nos anos 30 chamaram-lhe Reciprocal Economy e iniciou-se em movimentos cívicos e muita criatividade, pragmatismo e respeito pelo trabalho e por cada indivíduo. Tudo começou em 32 com a UXA (Unemployed Exchange Association), no essencial um movimento de cooperativas que se replicaram pela California e outros estados. Nunca tinha ouvido falar de Rhodehamel mas esta personagem merece um filme.
Este texto de John Curl, já na década de 80, termina neste tom:
"...
If the government had not undercut the cooperatives, would they have become a permanent part of the economy? What if EPIC had won: could it have actually ended poverty and unemployment? Rather than speculate about what might have been, let us instead note that around us today is a situation in many ways reflecting that of 1932, and consider what might yet be.
Rhodehamel stressed that a primary reason that cooperatives were needed was that a growing body of people were being permanently displaced by technological changes. The ranks of the unemployed in the thirties, like today, were filled with highly trained and skilled people who would never find a job in their fields again, particularly middle-aged people. Today that process has accelerated; we are being told continually to prepare ourselves for a permanent situation of high unemployment. As America changes from a production economy to a "service economy" and production shifts to multinational firms with factories in Asia, a "permanent" underclass of unemployed, underemployed, and never-employed is being formed. Unemployed associations and self-help cooperatives are the natural organizational forms that spring from people in this situation, just as labor unions are natural for the employed.
Will the unemployed settle for "permanent unemployment"? Or might the unemployed rise again in a social movement? Could there be a new version of EPIC and the UXA?
Perhaps the final curtain on the Self-help movement has not yet been dropped."