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sábado, 30 de dezembro de 2017

Europa: a necessidade de definir e identificar nacionalismo e populismo




A situação na Catalunha deixou-me perplexa. Tratou-se de um movimento nacionalista? A necessidade de soberania? Um ímpeto de rebeldia republicana?
Porque é que vemos comunidades dentro de países europeus a querer reanimar uma identidade própria?
Se perspectivarmos esta comunidade num plano mais alargado começamos a compreender a insatisfação actual dos europeus.

A forma como a CE e o Eurogrupo responderam à crise financeira de 2008 criou um enorme fosso entre as instituições e os cidadãos.
Depois de terem facilitado o comportamento irresponsável dos bancos, logo que a bolha estoirou, impuseram aos governos dos países, sobretudo os do sul, constrangimentos com consequências que nunca pensámos ver na nossa geração: famílias sem casa, níveis de pobreza, trabalho precário e escravo, etc.
A Grécia ainda sofre na pele esses constrangimentos, apesar de, em referendo, ter escolhido permanecer na Europa.

O que podemos, para já, identificar é a perda de confiança dos cidadãos nas instituições europeias e nos governos dos respectivos países.
O único país europeu que está a antecipar-se aos desafios de possíveis rupturas anunciadas é a França. Nesse sentido Macron é um visionário, um futurista, qualidade rara nos políticos actuais. O seu movimento "En Marche" é inovador, com forte implantação cívica, o que cria e fortalece laços comunitários e responsabiliza os próprios cidadãos. A sua perspectiva de Europa é a de uma Europa possível, mas que ainda não construímos.
Macron e "En Marche" mostra-nos o que é evidente: temos as tecnologias ao nosso dispor, só nos falta uma nova cultura.

As instituições e os políticos mantêm esta ilusão de que as pessoas esquecem como sempre esqueceram, e que em breve, se lhes voltarem a dar um rebuçado, voltam a votar nas mesmas fórmulas mantendo-os no poder.
Acontece que a informação e a comunicação já não lhes está subordinada, os cidadãos podem informar-se e comunicar entre si, e há registos, textos, vídeos.
A influência dos media tradicionais está a perder-se, os cidadãos já questionam os próprios media, sobretudo a televisão.
E como os políticos não são bons a antecipar desafios e a adaptar-se às novas realidades, reagem invariavelmente com a frase defensiva: aí vêm os populismos...

Vamos então definir populismo: aquelas promessas eleitorais para não cumprir; apresentar um programa e aplicar outro; festas e arruadas, em vez de reflexão e debates; outdoors de sorrisos forçados que só poluem visualmente; marketing superficial e inócuo.
O populista apresenta-se aos cidadãos como o herói que está do seu lado e que o vai salvar (ex.: desemprego, insegurança, etc.), apontando o dedo aos seus "inimigos", os responsáveis pela sua situação (ex.: imigrantes, o governo anterior, etc.).
Identificamos Trump, mas também o Brexit, os nacionalismos, e a generalidade dos políticos dos partidos tradicionais. 
Le Pen exemplifica o nacionalismo na base do populismo, a França alucinada (isto é, que só existe na cabeça de um grupo reduzido de pessoas), quando teve uma economia forte, uma liderança forte, no caso será De Gaulle. 

O antídoto para o populismo é a transparência e a responsabilidade. A abertura à participação cívica.

Quanto ao nacionalismo, se já foi útil bater nessa tecla, hoje já não vibra nos neurónios muito mais alerta e desconfiados dos potenciais eleitores.
Na Europa podemos mesmo dizer que já não faz sentido apelar a esse "orgulho nacional". A nossa defesa e resistência aos condicionalismos das instituições europeias já não se resolvem dividindo-nos, mas unindo-nos.
A Europa possível ´é aquela que construirmos, porque a actual está a desintegrar-se. Só as instituições não percebem. Ao próximo abanão financeiro, e vai haver um abanão financeiro, as respostas vão ser invariavelmente idênticas às de 2008 em diante, porque os políticos não aprendem nada e muito menos sabem antecipar-se e prevenir o pior.

Catalunha surge numa fase de transição de uma Europa de países condicionados para uma Europa de regiões e comunidades autónomas. É essa a tendência lógica. Não serão autonomias formais, políticas, mas económicas e culturais. Não terão fronteiras rígidas mas flexíveis. São fluxos de trocas de informação, de colaboração, que se cruzam num mapa mais amplo.
Se o que se passa na Catalunha é um movimento nacionalista, está fora do seu tempo.
Se é uma necessidade de soberania, juntem-se ao clube, Todos os países condicionados por Bruxelas sentem a mesma necessidade de voltar a ter algum controle sobre o seu futuro económico.
Se é uma rebeldia republicana, olhem para Portugal. Formalmente é uma república, culturalmente é um reino. Formalmente mantém uma elite influente (o sucedâneo da corte real, nobreza e clero próximos do Rei), culturalmente só respeita a ligação ao Rei na fórmula Rei-Povo, sem intermediários. O actual Presidente, pela sua própria personalidade, adaptou-se na perfeição a esse papel.
A fórmula que Catalunha precisa é a que for mais interessante para se antecipar, como região autónoma, aos desafios financeiros e económicos, e depois políticos (CE, BCE, Eurogrupo, etc.) que se avizinham.



sexta-feira, 2 de junho de 2017

Acordo de Paris: quais são as estratégias eficazes para minimizar os danos que a retirada dos Estados Unidos vai provocar?




Quais são as estratégias eficazes para minimizar os danos que a retirada dos Estados Unidos vai provocar?
Este é o grande desafio para os restantes países que mantêm o compromisso.

Apenas lembrar que:

- de nada vale tentar chamar o presidente americano à razão, pois os seus neurónios estão formatados pela lógica reptiliana. Objectivos: ser o mais rico, o mais poderoso, o mais famoso. Obstáculos: tudo o que se colocar à frente dos objectivos. Simples. E quais são? ONU; a encíclica do Papa Francisco; as sanctuary cities; os media, excepto a Fox; uma Europa forte; uma China forte; e sabe-se lá mais o quê...

- os responsáveis por esta decisão relativa ao ambiente são: o partido republicano, o partido democrata e a próprio sistema político. De todos os protagonistas, o presidente é o que apresenta mais atenuantes :)

- as lideranças dos restantes países envolvidos no acordo de Paris devem evitar afirmações ou declarações que confiram legitimidade à decisão do presidente americano. A decisão não respeita a vontade da maioria da população americana.

- a ONU, que está a ser pressionada pelo presidente americano que pretende fragilizar a sua intervenção, é hoje fundamental para definir as estratégias eficazes que permitam atingir os objectivos do acordo de Paris e minimizar os danos que a retirada dos Estados Unidos vai provocar.

- a Europa pode ter aqui um papel fundamental na liderança da inovação cultural, de valores, da possibilidade de respeitar o futuro a que a maioria legitimamente aspira, os equilíbrios sociais e económicos, a segurança.

- o acordo de Paris é uma espécie de alerta máximo para a sobrevivência da nossa espécie no planeta. Mesmo que a tecnologia nos apresente formas de sobrevivência em condições climáticas adversas e extremas, é esse o futuro que queremos para as novas gerações? 




  

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Reino Unido: a possibilidade de criar as condições que melhor garantem a segurança






A Europa - instituições e populações -, já se apercebeu da ligação eleições - ataques terroristas. 
É uma forma de interferir na vida colectiva de países e continentes, e destruir os seus laços comunitários.

É da maior irresponsabilidade aproveitar a tragédia humana em termos políticos. 
É continuar a inflamar a nuvem de fumo destruidora. 
É uma traição relativamente aos seus conterrâneos, à dignidade humana, e aos valores da democracia.
É também uma cultura da morte e destruição.


A colaboração entre países e populações nunca foi tão necessária.
Perceber como funciona a violência, o que a despoleta, o que a alimenta, de que meios se serve, em que condições se propaga, 
E criar o ambiente que permite evitar que esta lógica mortífera e destruidora se instale e normalize.
Uma comunidade humana de colaboração e partilha, inclusiva, onde todos têm lugar, onde todos participam.

É importante que as novas gerações aprendam a descodificar culturalmente as mensagens de violência, a sua natureza, assim como os que se aproveitam dela para conquistar o poder, propondo a separação, a divisão, e prometendo o paraíso de um mercado global.
Exemplos: Le Pen em França; os Conservadores e os Brexiteers no Reino Unido.

Na actual situação cultural no Reino Unido, com graves tensões sociais, bullying xenófobo, em que os imigrantes funcionam como bodes expiatórios, vejo com enorme dificuldade a possibilidade de criar uma comunidade inclusiva, onde todos participam e colaboram, um ambiente favorável a laços sociais, à confiança, à democracia, que melhor permitem a prevenção da violência.

As próximas eleições são fundamentais para iniciar um processo de cura, começando pelo início: identificar as verdadeiras causas das desigualdades sociais, da exclusão social e da violência.
Neste momento, esta possibilidade surge em votar estrategicamente, e cada voto conta, de forma a apear os Conservadores.
A seguir, preparar plataformas políticas comunitárias, que tragam à política a transparência, a confiança, a credibilidade, a legitimidade e a eficácia perdidas.






quarta-feira, 10 de maio de 2017

Se queremos que o movimento En Marche! seja bem sucedido




O movimento En Marche! é um fenómeno social e político do séc. XXI.

É certo que as circunstâncias foram favoráveis: os partidos convencionais deixaram de traduzir e representar as expectativas legítimas das populações, a UE adulterou o seu projecto fundador e Le Pen continuou a atrair os votos da revolta e do medo. 


Características essenciais para o movimento En Marche! ter conseguido esta mobilização:

- há um programa que é apresentado e que se manterá coerente ao longo do seu percurso. Esta autenticidade e transparência é fundamental. Mais tarde haverá lugar à negociação com opiniões diversas, dependendo dos resultados nas legislativas;

- é um movimento cívico, baseado na participação activa das populações e construído com o voluntariado e disponibilidade dos seus membros, para todas as tarefas de informação e divulgação. Aqui reside a base da sua credibilidade;

- tem uma cultura inclusiva, que respeita a diversidade, e igualitária, que acolhe todas as pessoas que se reconhecem no seu programa e nos grandes objectivos. Esta é a primeira base da construção de uma legitimidade governativa.


Reparem nas grandes diferenças culturais de um movimento cívico e dos partidos convencionais:

- autenticidade: nos partidos convencionais vemos sobretudo políticos centrados na sua própria carreira política, com discursos oportunistas. Alguns, raros, até podem ser pessoas simpáticas e quase acessíveis, mas estão formatados pela cultura partidária. Exemplo muito recente: Manuel Valls não percebe que ainda não conquistou a credibilidade e legitimidade para se candidatar directamente às próximas legislativas pelo REM :) (République En Marche!), continuando a pensar pela lógica partidária. :) Na cultura do movimento cívico é um cidadão como todos os outros, um membro activo, mas terá de fazer caminho;

- coerência: também vemos nos partidos convencionais uma distância enorme entre a teoria e a prática. Muitas promessas são construídas e apresentadas com o objectivo único de conquistar votos. Este tempo está esgotado. Não há lugar para equívocos e/ou incompetências. Está em jogo a vida concreta das pessoas e as suas expectativas legítimas. Digamos que as pessoas se tornaram mais exigentes com a gestão política; 

- transparência: na política partidária convencional há uma cultura de grupo, às vezes de seita, um grande secretismo. Há informação privilegiada e troca de favores. Normalizaram-se práticas eticamente reprováveis. Há uma discrepância enorme entre essa cultura e os valores da democracia e da República, tão cara ao franceses (liberdade, igualdade, fraternidade). E também na UE, tornou-se insuportável o desvio relativamente aos seus valores fundadores;

- participação activa das populações: enquanto os partidos tradicionais pediam o voto e depois governavam por nós, como um cheque em branco, um movimento cívico pede a participação e a responsabilidade das populações. Há uma mobilização dos seus membros que são preparados para mobilizar as comunidades. E não apenas no início do movimento, é um compromisso de continuidade, é uma construção de comunidades activas e criativas;

- cultura inclusiva e igualitária: estas características são as mais difíceis de perceber pela cultura partidária.

- cultura comunitária e de partilha: mais importante do que a carreira individual (cultura partidária) é a eficácia da gestão colectiva. No exemplo de Manuel Valls, alguém terá de lhe dizer que avançar agora dá um sinal errado aos membros e aos votantes no REM :);


Sempre que um movimento cívico fica pelo caminho, alguma destas condições falhou. :)
E nós queremos que seja bem sucedido, pelos franceses em primeiro lugar, pelos europeus em segundo, e pelo equilíbrio de poderes mundial.






sábado, 29 de abril de 2017

França: Macron e a possibilidade da inovação cultural na política





Se observarmos Macron na perspectiva da política convencional - ideologias identificáveis -, estranhamos de imediato a sua elasticidade e plasticidade. Onde antes identificávamos os espaços políticos e o público-alvo, que condicionam a comunicação, vemos um candidato dirigir-se a todos os eleitores, sem excepção. Não há fronteiras, direita e esquerda, europeístas e não europeístas.

Há um projecto, En Marche!, que é apresentado e operacionalizado, comum a todos os franceses e aos valores da República. A República é aqui utilizada como a base comum.

Na operacionalização do projecto são definidas prioridades: Europa - economia - trabalho - segurança -, e estão todas interligadas, dependendo umas das outras. Exemplo: a educação e a formação influenciam a economia, o trabalho e a segurança. É como olhar para um visualizador de informação onde vários pontos estão em comunicação em tempo real.
As acções concretas, as iniciativas na gestão diária, dependem de condições de funcionamento, que também são apresentadas.


Aqui já podemos começar a definir o perfil do candidato: inteligência pragmática e estratégica; atenção focada no essencial; elevada capacidade de comunicação; mensagem clara, sintetizada e operacional; a imagem serve a comunicação. São os seus trunfos.

Onde surge a inovação cultural?
Na possibilidade de, além destas capacidades, Macron revelar inteligência emocional, a capacidade de ouvir e de interpretar as inquietações do eleitorado francês. É certo que Macron o verbaliza, que está atento à revolta de muitos franceses e às suas inquietações, dirigindo-se a todos directamente. Resta-nos verificá-lo na prática.


Macron surge hoje como a tábua de salvação da Europa. E esperemos que a Europa ainda seja capaz de se regenerar e revitalizar. E que a Alemanha perceba que esta é a sua janela de oportunidade. Amanhã pode ser outro o seu interlocutor e outro, aliás, o seu protagonista.




sábado, 8 de abril de 2017

Transplantados do séc. XIX para nos assombrar






As lideranças europeias não souberam lidar com o caso Dijsselbloem. Primeiro porque não perceberam a sua dimensão cultural, depois porque a sua perspectiva está formatada pela lógica financeira.
O que nos leva a perguntar: como é possível que ainda tenhamos de aturar, em lugares estratégicos para a possibilidade de reabilitar os valores europeus, indivíduos transplantados do séc. XIX?

Não é uma questão de palavras, como disse o ainda presidente do Eurogrupo, é a cultura que está por trás, própria de um burguês do séc. XIX: vinho e mulheres.
Não é uma questão de palavras, porque voltou a repetir a palavra solidariedade com a definição subvertida, o que tornou a explicação ainda mais horrível do que a entrevista original. A arrogância está lá, eu tenho razão, as palavras é que não foram bem escolhidas.

A solidariedade não foi com os países intervencionados, foi com os grandes bancos, porque essa é a sua prioridade: a finança, a moeda.
Foi nisto, nesta lógica fundamentalista, nesta máquina metalizada, que se transformou a Europa das estrelinhas. A que os países e os seus cidadãos têm de se submeter. É isto que Dijsselbloem representa no Eurogrupo, os interesses dos grandes bancos e da moeda.
Enquanto a Europa das estrelinhas nos quiser assombrar com a sua cultura do passado bafiento de cofres fechados, não podemos construir o futuro.
O futuro já aqui está, outras regiões do globo já vivem e respiram a cultura da colaboração, mas a Europa das estrelinhas, que foi vanguardista noutras épocas, virou-se para o passado.


Post publicado no Vozes Dissonantes.



quinta-feira, 23 de março de 2017

Londres: a segurança em democracia





É incrível como depois de Berlim cidades como Londres, potenciais alvo deste tipo de ataques terroristas, não alteram a sua mobilidade. Esta é uma questão essencial, de segurança.
A protecção das populações é uma prioridade em democracia. O valor da vida é, numa democracia, um valor prioritário. E a liberdade deve ser considerada, em primeiro lugar, como o direito à vida. É aqui que a segurança entra.

Continuo sem perceber esta mensagem dos responsáveis políticos depois de ataques horríveis no coração das suas cidades, como se estivessem num teatro bélico a falar directamente para os terroristas: vamos continuar com o nosso estilo de vida. 
O que as pessoas precisam de ouvir não é isso. O que as pessoas precisam de ouvir é: vamos tomar todas as medidas de segurança preventiva para que este tipo de ataques não volte a ocorrer.

Tal como em Berlim, põe-se a questão fundamental da mobilidade. A mobilidade dentro das cidades tem de ser encarada de uma forma inteligente e inovadora.
Os transportes públicos também têm alguns desafios relativamente à segurança: aglomeração de pessoas num espaço reduzido. Com as novas tecnologias não há forma de disparar alarmes com a presença de metal, como nos aeroportos? (Muitas chaves de casa vão disparar? E muitas moedas nas carteiras? Bem, de qualquer modo em breve tudo isso será substituído por cartões.)

Os cidadãos têm o direito à informação sobre medidas de segurança preventiva, que comportamentos adoptar, que comportamentos evitar. É mais inteligente lidar com os riscos e evitá-los do que a atitude de querer manter um estilo de vida e correr riscos porque se é corajoso. 

Os actuais equívocos relativamente à liberdade são culturais e políticos. Ninguém se questiona sobre os desequilíbrios económicos e financeiros que também limitam (e muito) a liberdade.
Resolver os equívocos relativamente à liberdade também resolve os equívocos relativamente à segurança em democracia.




segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Pensar como cidadãos do mundo, agir como cidadãos europeus




A união europeia é fundamental para os seus cidadãos. No mundo actual, e como se perspectiva num futuro próximo, é impensável voltar a um passado de nacionalismos e de fronteiras dentro da Europa.

Mesmo para quem defende hoje o nacionalismo, e isto pode parecer um paradoxo, a união europeia garante-lhe:
- maior protecção territorial e das populações, incluindo do terrorismo;
- maior garantia na segurança alimentar e ambiental, e não esquecer a protecção e defesa energética e cibernética; 
- uma posição mais forte na negociação política e económica;
- vantagens na gestão dos recursos comuns, o mais valioso dos quais é o potencial humano e a inovação científica e tecnológica.

A Europa pode tornar-se, se os cidadãos europeus estiverem mobilizados, um núcleo vivo e dinâmico de valores democráticos, de inovação cultural, de construção de um futuro com qualidade para as novas gerações.

As lideranças europeias, apesar dos sustos Brexit e eleições americanas, ainda não estão preparadas para lidar com os desafios globais.
Há uma lentidão nas respostas que se deve à maquinaria pesada em que se tornou a sua administração.
Há uma cultura de séc. XX que prevalece e que se deve à lógica do funcionamento dos partidos convencionais europeus.

Serão os movimentos cívicos, e as comunidades científicas, os próximos motores da mudança cultural necessária para reorganizar as prioridades e as estratégias.
E serão as lideranças europeias e a sua maquinaria pesada que terão de se adaptar e depressa.


Para já, há prioridades a não esquecer:

- a capacidade das lideranças europeias passarem da lógica da finança para a lógica da economia, o que implica impedir a movimentação ilícita de capitais no próprio coração da Europa;
- a forma como se vai lidar com a Grécia, depois dos erros cometidos, deixando os gregos respirar e viver a sua escolha pela Europa;
- a Alemanha passar a colaborar numa plataforma mais abrangente do que a económica (a moeda) e numa perspectiva de longo-prazo, tal como tem dado o exemplo no acolhimento a refugiados;
- a eficácia da prevenção de quaisquer interferências na campanha das presidenciais francesas e de outras eleições europeias, e da propagação de uma cultura nacionalista.


A fórmula proposta é: pensar como cidadãos do mundo, agir como cidadãos europeus.


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Que papel cabe à Europa?





2016 foi um ano que sacudiu as consciências adormecidas.
Vimos perfilar-se lideranças com sede de poder. 
Lideranças que verbalizam o poder bélico na época do Natal. 
Lideranças que desvalorizam o papel das Nações Unidas.
Lideranças que confrontam mesmo uma directiva das Nações Unidas.
Lideranças sem consciência humana.

Como espécie estamos desenhados para sobreviver como grupo, como comunidade. Se perdermos essa capacidade, perdemos tudo.
E se assim é, porque entregamos o poder de nos destruir a pessoas que não adquiriram esta capacidade?


Que papel cabe à Europa?
A voz da consciência humana. A par de todos os países de outros continentes que respeitam os direitos humanos.
É um grande desafio para uma Europa que esqueceu esses valores durante mais de uma década, gerida pelo individualismo e o preconceito.
E porquê a Europa? 
Porque é um continente que sofreu e infligiu sofrimento, e que ainda procura reabilitar-se de feridas cicatrizadas no corpo, mas ainda vivas na alma.
É essa a força da consciência, uma ferida que nos lembra o sofrimento que é urgente evitar e que valoriza a frágil e preciosa harmonia.

O choque civilizacional que vemos surgir no planeta é essencialmente entre os que respeitam a vida e os direitos humanos e os que não os respeitam; os que interagem, negoceiam e todos ganham, e os que seguem a lógica do poder, do ganha-perde; os que arrumam a casa respeitando os vizinhos e o planeta, e os que provocam conflitos e criam inimigos exteriores para controlarem a própria casa; os que procuram a harmonia e o equilíbrio, e os que só conhecem a lógica da conquista e da apropriação.




terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Como nos podemos preparar para um ano tão incerto como 2017?


Haverá muitas pessoas por esse mundo fora a desejar que o novo ano seja anunciado o mais depressa possível. Para muitos 2016 trouxe desgostos e preocupações. Cidades sitiadas, terramotos, atentados, o Brexit, Trump. Foi um ano estranho, em que o inesperado se revelou, como nos filmes de terror.

No nosso cantinho, na ponta oeste da Europa, o ano foi muito melhor do que 2015, de tal modo melhor que nem tem comparação. Depois de um pesadelo de 4 anos e da visão desmoralizadora de não ter forma de ver o seu fim, abriu-se uma janela, refrescou-se o ar, os rostos iluminaram-se, foi o nosso golpe de sorte.
Portugal foi um dos poucos exemplos de um bom 2016. Digamos que 2016 foi para nós um intervalo entre o filme de terror e o filme de acção que aí vem. 2016 foi uma espécie de comédia romântica. Pela primeira vez olhámos para nós e achámos que ainda estávamos em forma, que a nossa casa era um jardim, que amanhã seria melhor do que hoje. 
Para mim tem sido uma experiência inédita: gostar do governo e do Presidente. Nunca me aconteceu ver no poder um governo e um Presidente que respeitam os valores da democracia e a cultura da colaboração.
É por isso que vejo aproximar-se 2017 com a apreensão que se tem nos filmes de suspense de Hitchcock: já vemos a trama formar-se, os actores já foram escolhidos, as personagens prometem surpreender-nos e até escandalizar-nos. Os temas estão lá todos: intriga internacional, vertigem, a corda, os pássaros!

A Europa está naquela fase em que tanto pode segurar-se e escolher outras soluções de colaboração entre países e comunidades, como pode perder tudo e cada um tentar sobreviver ao desmembramento da forma menos dolorosa possível.

Os States vão atravessar um período estranho: o contraste entre a liberdade adquirida e a nova caça às bruxas, entre a comunicação ágil das redes sociais e a propaganda e desinformação oficial, entre a diversidade própria de comunidades sofisticadas e democráticas e a massificação e divisão próprias de formas de organização ditatorial, entre a cultura do séc. XXI e a formatação mental do séc. XX.

O resto do planeta também deve estar em suspense. Uns a esfregar as mãos, outros a afiar o dente, muitos muitíssimos a dar as mãos. 


Porque escolhi a corda, precisamente a corda, para tentar responder à pergunta "como nos podemos preparar para um ano tão incerto como 2017?"
Pela destreza única de Hitchcock em nos revelar como certas ideologias fascizóides podem insinuar-se subrepticiamente nas sociedades modernas, mesmo naquelas que consideramos culturalmente sofisticadas e preparadas para descodificar e desmontar a sua ideia base, os seus pressupostos.
É isto que, a meu ver, precisamos de pensar: valorizar, nos programas educativos, nos jogos interactivos, nas séries de culto, formas de descodificar e desmontar as ideologias da morte e da destruição, os "falsos deuses" segundo Arno Gruen.


Post publicado n' As Coisas Essenciais.


domingo, 26 de junho de 2016

Brexit, um sinal de mudança cultural, política e económica





Esta foi uma semana de emoções fortes: a 5ª feira do referendo inglês, a 6ª feira do Brexit, o domingo das eleições legislativas em Espanha.

O Brexit tem sido dramatizado mas não compreendido. Depois de ouvir muitas reacções e opiniões, o Brexit começa a surgir, aos meus neurónios curiosos, como um sinal de mudança cultural, política e económica profunda. Esta mudança já se iniciou e vai comprometer grandes organizações centralizadas e burocráticas como a UE.
A relação local-global e indivíduos-organizações está a mudar com a tecnologia e a comunicação em rede.

A UE podia ter escolhido um caminho mais equilibrado e flexível nos acordos económicos e políticos e nos tratados que os países foram assinando, mas isso impediria a arquitectura económica do euro e o poder teria sido distribuído e equilibrado, e não centralizado em Bruxelas e nos países ricos e influentes.

A cultura da austeridade, em que os cidadãos foram penalizados pelos erros financeiros em cima da má gestão política, não ajudou nada à imagem da UE.
A forma incompetente e desorganizada como se lidou com os refugiados, atingindo o cúmulo de um acordo cínico com a Turquia, revelou a cultura da indiferença. O dinheiro vale mais do que as pessoas. Dinheiro em troca de pessoas. As pessoas não contam.

Criticam agora os ingleses por querer sair da Europa. Mas eles não saem da Europa, saem da grande organização UE. E se os acordos forem orientados por responsáveis competentes podem conseguir-se vantagens para todos.




quarta-feira, 8 de junho de 2016

Double bind é o que está a ser aplicado na Grécia


Double bind foi o que primeiro me ocorreu a propósito do filme Baby the rain must fall.
Double bind, uma forma de colocar alguém sem uma alternativa viável. Exactamente o que está a ser aplicado na Grécia.

Aqui também estivemos subjugados ao double bind da austeridade, da ausência de alternativa. A circunstância feliz dos partidos de esquerda ultrapassarem as suas divergências e encontrarem objectivos comuns é que abriu essa prisão.

Espero que também surja uma alternativa para a Grécia, entalada no double bind europeu e na vertigem de auroras douradas.
Um povo que aturou placidamente a humilhação da finança. Um povo que escolheu a Europa e o euro mas numa verdadeira cultura europeia. Um povo que recebeu milhares e milhares de refugiados apesar da sua situação precária.








terça-feira, 10 de maio de 2016

Europa: as boas notícias primeiro






O Partido Pirata tornou-se um franchizing político: Suécia, Berlim, Islândia. Democracia baseada na transparência, no empowerment dos cidadãos, na participação, nas redes sociais. É, sem dúvida, uma cultura política do séc. XXI.
Em Londres ganhou o Labour Party.

Estas são as boas notícias da Europa. As más aí vão:

A Europa deu argumentos ao PM da Turquia para a acusar de "cruel" ao "fechar as portas aos refugiados".
A Grécia não consegue a compreensão do Eurogrupo, nem depois de ter acolhido milhares e milhares de refugiados apesar da sua situação económica precária.
Verifica-se um ressurgimento preocupante da extrema-direita nos países do norte e centro e, a sul, na Grécia.
A Espanha vai ter de repetir eleições.
Obama vem ao Reino Unido e traz o TTIP na pasta.

Ricardo Paes Mamede lembrou no Números do Dinheiro desta semana os benefícios da integração europeia em programas como o Erasmus e os subsídios para a investigação. Mas logo depois lembrou o caminho escolhido pelas instituições europeias, sobretudo a partir da crise financeira de 2008.

Ninguém revelou muito entusiasmo a falar da Europa na televisão. A Europa política, económica e financeira, o projecto inicial de colaboração entre os países, tudo isso foi adulterado pelos tecnocratas e pela finança. E os políticos foram atrás.

Claro que todos juntos somos mais fortes. E que seria óptimo ver o projecto original a desenhar-se de forma saudável. Mas o que vemos é um edifício metálico à prova de informação e transparência. Trata-se de um poder centralizado que não responde perante instituição alguma. Apesar de ter um parlamento.



sábado, 26 de março de 2016

A cor e o som da violência

Não é correcto dizer-se que a violência do terrorismo é recente na Europa e no mundo ocidental. A última década foi relativamente calma por estes lados, graças a Deus.
Mas a história da violência do terrorismo ainda está presente na minha memória desde a infância. Os anos setenta e os desvios de aviões, os jogos olímpicos de Munique, o IRA na Irlanda do norte, os Baader-Meinhof na Alemanha, as Brigadas Vermelhas na Itália, Aldo Moro... Isto tudo era notícia que enchia jornais. Algumas destas histórias eram dissecadas até ao pormenor na Reader's Digest, ainda em pronúncia brasileira. E isto em cima das histórias da guerra colonial e das filmagens do mato e dos votos de Boas Festas no Natal: até ao meu regresso.... Muitos não regressaram.
Os anos oitenta, noventa, e o início dos anos dois mil também foram agitados. A violência terrorista culminou em Nova Iorque e em Madrid. Voltou recentemente, desta vez em Paris e Bruxelas.

É sim correcto dizer-se que a violência do terrorismo se tornou mais preocupante. Antes os terroristas ainda divulgavam um motivo político e os ataques eram dirigidos e cirúrgicos. Agora os alvos são cidadãos indefesos. O que torna tudo mais horrível. A insanidade parece-me maior, é a glorificação da morte, a cultura da morte, o vazio total.

Para uma criança as histórias de violência adquirem uma cor e um som, pelo menos foi assim comigo. A cor, o cinzento do fumo e o vermelho do sangue. O som, uma sirene estridente e gritos aflitos. 
Por isso fiquei tão perturbada ao ver as filmagens do atentado recente no aeroporto de Bruxelas. Via-se fumo e ouviam-se gritos que me pareceram de criança.







domingo, 28 de junho de 2015

Cidadãos europeus: plano B, C e D

E de repente perdemos o pé e toda a realidade que nos era familiar surge-nos agora completamente alterada. Vivíamos na ilusão de uma certa previsibilidade. Digo ilusão, porque a incerteza tornou-se a norma na Europa: "os mercados estão nervosos"... "os juros subiram"... "o BCE injectou mais n mil milhões nos bancos"... 
Tudo gira à volta da lógica financeira, mutável e volátil, minuto a minuto.

Para já, UE, CE, BCE, FMI, Eurogrupo, já não serão vistos como entidades competentes e responsáveis para prevenir situações críticas, para aprender com os erros, para negociar e fechar acordos.
Dito de outro modo, os cidadãos europeus perderam a ilusão sobre a capacidade das instituições europeias e internacionais de prevenir a tempo ou agir de forma rápida e eficaz em situações de emergência.

O que aprendemos quando perdemos a ilusão da protecção? Quando descobrimos que as instituições europeias e internacionais se movimentam na lógica financeira e não na economia real? A economia real que é a nossa vida concreta, a nossa sobrevivência, o nosso futuro? Isso mesmo, tentamos encontrar formas viáveis e criativas de sobrevivência.

O primeiro grande desafio: como manter a calma, a reflexão e a sensatez, em tempos de grande receio e incerteza? É que estas capacidades estão na base das melhores decisões.

Reflectir: enquanto cidadãos europeus, estamos todos na mesma plataforma instável. É nossa responsabilidade procurar um plano B, um plano C, e mesmo um plano D.
Com que recursos? Tecnologias de informação e comunicação; rapidez de raciocínio, flexibilidade e criatividade das novas gerações e a nova cultura da colaboração.

Planos B, C e D:

Plano B - é o mais difícil porque se trata de construir sobre ruínas em alguns países e regiões. Economia destruída sem substituição por outra. Classe média na pobreza. Recursos entregues a privados. Na actual situação de emergência da Grécia: pagamento ao FMI dos tais 1,7 mil milhões de euros, o equivalente a uma conta num qualquer paraíso fiscal da Europa. Como as instituições europeias e internacionais não querem ir por aí e aguarda-se o resultado do referendo, há que resolver isso por outro lado. Logo a seguir e dependendo do resultado do referendo: preparar uma fonte de financiamento alternativa, outro tipo de crédito. O mais provável é que este plano B já tenha sido iniciado pelo governo grego.

Plano C - começar a preparar desde já (e este plano já inclui os países mediterrânicos), a possibilidade da saída do euro. Esta saída já devia ter sido preparada, aliás, aos primeiros sinais do fiasco do euro. Aqui as soluções podem mesmo passar por desenhar economias não baseadas na lógica do sistema financeiro, e mesmo relativamente independentes de um sistema que só produziu desequilíbrios que já atingiram o limite do sustentável a todos os níveis.

Plano D - criar uma cultura de colaboração entre países e regiões, propondo soluções viáveis e ajudando a concretizá-las, isto é, passar da lógica das emoções reactivas à construção de novas comunidades inter-países e inter-regiões, úteis e eficazes. As novas gerações já funcionam nesta nova lógica.







quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A verdadeira ironia

Do Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa, António Morais Silva, Editorial Confluência, 6ª edição: Ironia = Forma de interrogação outrora empregada por Sócrates em relação aos sofistas e que consistia em levá-los a contradições sucessivas para os convencer dos seus erros. // Sarcasmo em que se diz o contrário do que se que dizer e em que só pelo tom se reconhece a insinceridade das palavras. // Aquilo que apresenta contraste frisante com o que logicamente devia ser.

A verdadeira ironia desta tragédia recente em França é que os auto-intitulados "libertários", isto é, os que defendem a "liberdade acima de tudo", estão a contribuir activamente, e sem disso terem sequer consciência, para a limitação da liberdade na Europa.
E comparar a sátira agressiva (já vou explicar porque a considero assim) com o jornalismo de investigação ou com a reportagem de guerra que tornam visíveis as mortes anónimas diárias, não é compreensível.

Causar a morte de outro é o mesmo crime, não é isso que está aqui em causa.
O que está aqui em causa é a violência, a sua necessidade, a construção social de "inimigos", a alucinação de "inimigos", seja em nome da laicidade "libertária", seja em nome do fundamentalismo religioso, seja em nome do pragmatismo financeiro.

A violência e o ódio ateiam-se de várias formas, com palavras, com imagens, com armas.
Reparem que não encontramos a palavra "inimigo" apenas nos discursos inflamados dos fundamentalistas. A palavra "inimigo" surge com preocupante frequência nos discursos de políticos ocidentais, da esquerda à direita.

Tudo o que dizemos ou calamos, tudo o que fazemos ou deixamos de fazer, tem consequências. Primeiro estamos sensíveis à nossa própria experiência, seja agradável ou desagradável. A pouco e pouco aprendemos a ver e a sentir as experiências dos outros e a sentir o que os outros estão a sentir porque já o sentimos. É  a partir desta experiência que surge a consciência. E é a partir desta experiência que surge a responsabilidade.

A verdadeira ironia, a meu ver, é esta contradição humana: em nome do que se acredita (ou se diz acreditar) provocar exactamente o contrário.
Os defensores da "liberdade acima de tudo" estão a contribuir para um caminho securitário e limitador da liberdade (veja-se o que aconteceu depois do 11 de Setembro).
E os defensores da "vida", da "segurança", da "tranquilidade", da "tolerância", estão a contribuir para o aumento das divisões, fracturas e violência.
Como? Deixando-se embalar por palavras, imagens e ideologias que trazem em si mesmas a violência, a fractura, o ódio, a humilhação de outros.
Defender a vida e a liberdade é ter consciência das consequências das nossas palavras, atitudes, comportamento. Defender a vida e a liberdade é defender a paz e rejeitar todo o tipo de violência. 

A verdadeira ironia está de olhos abertos a olhar para dentro de nós e para o mundo. Pode ser directa e cruel, mas nunca apela à violência, nunca humilha. Pelo contrário, confere-nos o poder de nos sentirmos vivos, conscientes e unidos.
A verdadeira ironia traz em si mesma a capacidade de aceitarmos a nossa fragilidade e as nossas contradições. A verdadeira ironia une-nos a todos na nossa humanidade.






Também senti a crueldade da ironia neste início de ano: afinal comecei a falar da possibilidade da Europa se abrir e conseguir receber refugiados e emigrantes, e dias depois o futuro da Europa vai pender para o caminho inverso.









quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A cultura da morte

Vivemos num mundo estranho em que a ficção se mistura com a realidade e tudo se assemelha a um guião de um filme previamente escrito.
As populações seguem esse guião obedientemente, sem reflectir no papel que lhes e atribuído.
Para encontrarmos algum sentido, alguma lógica nas informações que vamos ouvindo e vendo, temos de estar atentos aos pequenos pormenores. Mas mesmo assim tudo nos parece irreal.

Como conciliar por exemplo:
- o jornal satírico já tinha sido vítima de um atentado à bomba e recebido várias ameaças e, por esse facto, as instalações do jornal tinham direito a guarda policial;
o cartoonista desafia o destino com uma provocação sobre um possível atentado ainda em Janeiro;
- os serviços secretos franceses andavam a vigiar os movimentos destes dois terroristas há já algum tempo.

Apesar de nos ser dito que muitos atentados são evitados pela intervenção dos serviços policiais, a verdade é que este atentado estava já anunciado e era quase uma certeza esperada, pelo menos pelo cartoonista principal.
O que mais me incomoda é a morte dos mártires involuntários. Os mártires voluntários levam sempre atrás de si a morte evitável de outros, os que querem viver.

Neste mundo estranho vivemos o culto da cultura da morte, o fascínio pela violência, seja a das armas, seja a das palavras, seja a das imagens.
Lembro-me bem das anedotas sobre a fome em África, como se fosse tema sobre o qual é possível ironizar.
Assim como não é possível ironizar sobre o terrorismo, os fanáticos, os psicopatas.

Hoje vemos que não são os elementos supostamente mais informados e mais cultos de uma sociedade que se comportam como modelos de tolerância e democracia, mas sim as pessoas comuns, as pessoas simples.
A verdadeira cidadania implica uma responsabilidade relativamente às diferenças culturais e uma rejeição de toda a violência verbal ou comportamental.

O que está a acontecer em França lembra-me o filme Babel em que as elites sociais, as instituições, as organizações, são muitas vezes os elementos perturbadores, ao criar divisões e conflitos, enquanto as populações conseguem gerir mais facilmente as diferenças culturais.
É que afinal somos todos o reflexo uns dos outros neste multifacetado rosto humano, em que nos reconhecemos como parte de uma mesma humanidade.