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sábado, 28 de outubro de 2017

Catalunha: porque é que a identidade se mantém tão simbólica e territorial?





A Catalunha, como país e república, apenas é reconhecida por outras autonomias que desejam a independência. Até ver, Escócia e Québec.

A UE nem quer ouvir falar de independências, só a palavra a arrepia. O Reino Unido também deve ter ficado arrepiado. Espanha treme e sofre.
O discurso emocionado de Pedro Sanchez no Senado revelou o que devem estar a sentir os espanhóis com a possibilidade de uma separação de uma parte da Espanha. Utilizou a palavra "mutilada" para Espanha e para a Catalunha.

Vários mapas vão-nos esclarecendo sobre o nº de regiões que também desejam tornar-se independentes.
Só em Espanha temos 3 autonomias com este projecto: a Catalunha, o país basco e a Galiza. 
O que me leva a pensar na importância da identidade cultural ainda hoje, como a identidade se mantém tão simbólica e territorial.

O poder central de Espanha argumenta que os catalães já tinham conseguido níveis elevados de autonomia, como o catalão como primeira língua oficial, além de uma economia próspera, etc.
E no entanto, parte dos catalães insiste em querer mais, querem ser reconhecidos como país e república. Como se houvesse aqui uma questão fundamental para a sua própria identidade.

Será a recusa essencial da monarquia? Ou da cultura castelhana que ainda simboliza autoritarismo? Ou uma necessidade vital de concluir a história de um reino antigo, Aragão? Ou uma questão essencialmente territorial?

E porque não considerar aqui o comportamento dos políticos, a corrupção política e institucional, não terá contribuído para esta demarcação cultural?
Quem hoje se reconhece verdadeiramente nas elites políticas e mesmo na monarquia?
É uma crise cultural mais profunda do que o poder central quer admitir.

Também me questiono se a UE, ao não respeitar a diversidade cultural e a especificidade económica de países e cidadãos europeus, permitindo até preconceitos culturais, humilhando países do sul durante a "austeridade" sobretudo a Grécia, não terá contribuído para esta necessidade vital de ver reconhecida, simbólica e territorialmente, uma identidade cultural.

Não seria óptimo se nos bastasse fazer parte de uma comunidade maior de europeus, e ver aumentadas as nossas possibilidades de segurança e prosperidade?
Acontece que esse projecto europeu não foi nesse sentido de valorizar os cidadãos europeus na sua diversidade. Impôs a sua cultura financeira e centralizada aos países, sobretudo os do sul. A Grécia ainda hoje sofre às custas dessa cultura e dessa organização obsoleta e desequilibrada.
Os partidos políticos convencionais também perderam credibilidade e legitimidade, começando a ser substituídos por movimentos reactivos e inflexíveis, a lembrar tempos pouco democráticos.
Digamos que há uma crise cultural e política a atravessar a Europa.


Voltando a este pequeno país sonhado:

Há especialistas de relações internacionais que consideram que o governo regional catalão não ponderou nas consequências económicas da sua iniciativa, nas consequências para a vida do dia a dia dos cidadãos.
Outros inclinam-se mais a responsabilizar o governo de Madrid que não soube gerir toda a situação.
Na lógica do poder (ler Arno Gruen) este torna-se mais perigoso quando começa a perder o pé. 
Havia motivo para aquela investida da Guardia Civil sobre manifestantes pacíficos?
Qual é a racionalidade da humilhação de uma comunidade? Detendo políticos, invadindo locais de voto?

A partir daqui, o que poderá acontecer?

Falta inteligência emocional nas elites políticas, a capacidade de empatia, de lidar com comunidades, com pessoas e as suas expectativas.
Agarram-se a textos, neste  caso a uma Constituição obsoleta e desequilibrada, um double bind.
Agarram-se à lei e a acordos assinados, como se eles próprios respeitassem a lei e os acordos.
Agarram-se à ameaça, à chantagem, à demonstração de poder e de força e, em último caso, à violência.

Pode a UE admitir outra demonstração de poder e de violência sobre uma comunidade pacífica?
Pelos vistos pode.

Como coloco sempre a hipótese do pior cenário, propus aqui uma nova estratégia inteligente de resistência pacífica, da rua para a consciência colectiva, utilizando todos os recursos ao nosso dispor, neurónios e novas tecnologias.



quarta-feira, 10 de maio de 2017

Se queremos que o movimento En Marche! seja bem sucedido




O movimento En Marche! é um fenómeno social e político do séc. XXI.

É certo que as circunstâncias foram favoráveis: os partidos convencionais deixaram de traduzir e representar as expectativas legítimas das populações, a UE adulterou o seu projecto fundador e Le Pen continuou a atrair os votos da revolta e do medo. 


Características essenciais para o movimento En Marche! ter conseguido esta mobilização:

- há um programa que é apresentado e que se manterá coerente ao longo do seu percurso. Esta autenticidade e transparência é fundamental. Mais tarde haverá lugar à negociação com opiniões diversas, dependendo dos resultados nas legislativas;

- é um movimento cívico, baseado na participação activa das populações e construído com o voluntariado e disponibilidade dos seus membros, para todas as tarefas de informação e divulgação. Aqui reside a base da sua credibilidade;

- tem uma cultura inclusiva, que respeita a diversidade, e igualitária, que acolhe todas as pessoas que se reconhecem no seu programa e nos grandes objectivos. Esta é a primeira base da construção de uma legitimidade governativa.


Reparem nas grandes diferenças culturais de um movimento cívico e dos partidos convencionais:

- autenticidade: nos partidos convencionais vemos sobretudo políticos centrados na sua própria carreira política, com discursos oportunistas. Alguns, raros, até podem ser pessoas simpáticas e quase acessíveis, mas estão formatados pela cultura partidária. Exemplo muito recente: Manuel Valls não percebe que ainda não conquistou a credibilidade e legitimidade para se candidatar directamente às próximas legislativas pelo REM :) (République En Marche!), continuando a pensar pela lógica partidária. :) Na cultura do movimento cívico é um cidadão como todos os outros, um membro activo, mas terá de fazer caminho;

- coerência: também vemos nos partidos convencionais uma distância enorme entre a teoria e a prática. Muitas promessas são construídas e apresentadas com o objectivo único de conquistar votos. Este tempo está esgotado. Não há lugar para equívocos e/ou incompetências. Está em jogo a vida concreta das pessoas e as suas expectativas legítimas. Digamos que as pessoas se tornaram mais exigentes com a gestão política; 

- transparência: na política partidária convencional há uma cultura de grupo, às vezes de seita, um grande secretismo. Há informação privilegiada e troca de favores. Normalizaram-se práticas eticamente reprováveis. Há uma discrepância enorme entre essa cultura e os valores da democracia e da República, tão cara ao franceses (liberdade, igualdade, fraternidade). E também na UE, tornou-se insuportável o desvio relativamente aos seus valores fundadores;

- participação activa das populações: enquanto os partidos tradicionais pediam o voto e depois governavam por nós, como um cheque em branco, um movimento cívico pede a participação e a responsabilidade das populações. Há uma mobilização dos seus membros que são preparados para mobilizar as comunidades. E não apenas no início do movimento, é um compromisso de continuidade, é uma construção de comunidades activas e criativas;

- cultura inclusiva e igualitária: estas características são as mais difíceis de perceber pela cultura partidária.

- cultura comunitária e de partilha: mais importante do que a carreira individual (cultura partidária) é a eficácia da gestão colectiva. No exemplo de Manuel Valls, alguém terá de lhe dizer que avançar agora dá um sinal errado aos membros e aos votantes no REM :);


Sempre que um movimento cívico fica pelo caminho, alguma destas condições falhou. :)
E nós queremos que seja bem sucedido, pelos franceses em primeiro lugar, pelos europeus em segundo, e pelo equilíbrio de poderes mundial.






sábado, 29 de abril de 2017

França: Macron e a possibilidade da inovação cultural na política





Se observarmos Macron na perspectiva da política convencional - ideologias identificáveis -, estranhamos de imediato a sua elasticidade e plasticidade. Onde antes identificávamos os espaços políticos e o público-alvo, que condicionam a comunicação, vemos um candidato dirigir-se a todos os eleitores, sem excepção. Não há fronteiras, direita e esquerda, europeístas e não europeístas.

Há um projecto, En Marche!, que é apresentado e operacionalizado, comum a todos os franceses e aos valores da República. A República é aqui utilizada como a base comum.

Na operacionalização do projecto são definidas prioridades: Europa - economia - trabalho - segurança -, e estão todas interligadas, dependendo umas das outras. Exemplo: a educação e a formação influenciam a economia, o trabalho e a segurança. É como olhar para um visualizador de informação onde vários pontos estão em comunicação em tempo real.
As acções concretas, as iniciativas na gestão diária, dependem de condições de funcionamento, que também são apresentadas.


Aqui já podemos começar a definir o perfil do candidato: inteligência pragmática e estratégica; atenção focada no essencial; elevada capacidade de comunicação; mensagem clara, sintetizada e operacional; a imagem serve a comunicação. São os seus trunfos.

Onde surge a inovação cultural?
Na possibilidade de, além destas capacidades, Macron revelar inteligência emocional, a capacidade de ouvir e de interpretar as inquietações do eleitorado francês. É certo que Macron o verbaliza, que está atento à revolta de muitos franceses e às suas inquietações, dirigindo-se a todos directamente. Resta-nos verificá-lo na prática.


Macron surge hoje como a tábua de salvação da Europa. E esperemos que a Europa ainda seja capaz de se regenerar e revitalizar. E que a Alemanha perceba que esta é a sua janela de oportunidade. Amanhã pode ser outro o seu interlocutor e outro, aliás, o seu protagonista.




sábado, 8 de abril de 2017

Transplantados do séc. XIX para nos assombrar






As lideranças europeias não souberam lidar com o caso Dijsselbloem. Primeiro porque não perceberam a sua dimensão cultural, depois porque a sua perspectiva está formatada pela lógica financeira.
O que nos leva a perguntar: como é possível que ainda tenhamos de aturar, em lugares estratégicos para a possibilidade de reabilitar os valores europeus, indivíduos transplantados do séc. XIX?

Não é uma questão de palavras, como disse o ainda presidente do Eurogrupo, é a cultura que está por trás, própria de um burguês do séc. XIX: vinho e mulheres.
Não é uma questão de palavras, porque voltou a repetir a palavra solidariedade com a definição subvertida, o que tornou a explicação ainda mais horrível do que a entrevista original. A arrogância está lá, eu tenho razão, as palavras é que não foram bem escolhidas.

A solidariedade não foi com os países intervencionados, foi com os grandes bancos, porque essa é a sua prioridade: a finança, a moeda.
Foi nisto, nesta lógica fundamentalista, nesta máquina metalizada, que se transformou a Europa das estrelinhas. A que os países e os seus cidadãos têm de se submeter. É isto que Dijsselbloem representa no Eurogrupo, os interesses dos grandes bancos e da moeda.
Enquanto a Europa das estrelinhas nos quiser assombrar com a sua cultura do passado bafiento de cofres fechados, não podemos construir o futuro.
O futuro já aqui está, outras regiões do globo já vivem e respiram a cultura da colaboração, mas a Europa das estrelinhas, que foi vanguardista noutras épocas, virou-se para o passado.


Post publicado no Vozes Dissonantes.



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Pensar como cidadãos do mundo, agir como cidadãos europeus




A união europeia é fundamental para os seus cidadãos. No mundo actual, e como se perspectiva num futuro próximo, é impensável voltar a um passado de nacionalismos e de fronteiras dentro da Europa.

Mesmo para quem defende hoje o nacionalismo, e isto pode parecer um paradoxo, a união europeia garante-lhe:
- maior protecção territorial e das populações, incluindo do terrorismo;
- maior garantia na segurança alimentar e ambiental, e não esquecer a protecção e defesa energética e cibernética; 
- uma posição mais forte na negociação política e económica;
- vantagens na gestão dos recursos comuns, o mais valioso dos quais é o potencial humano e a inovação científica e tecnológica.

A Europa pode tornar-se, se os cidadãos europeus estiverem mobilizados, um núcleo vivo e dinâmico de valores democráticos, de inovação cultural, de construção de um futuro com qualidade para as novas gerações.

As lideranças europeias, apesar dos sustos Brexit e eleições americanas, ainda não estão preparadas para lidar com os desafios globais.
Há uma lentidão nas respostas que se deve à maquinaria pesada em que se tornou a sua administração.
Há uma cultura de séc. XX que prevalece e que se deve à lógica do funcionamento dos partidos convencionais europeus.

Serão os movimentos cívicos, e as comunidades científicas, os próximos motores da mudança cultural necessária para reorganizar as prioridades e as estratégias.
E serão as lideranças europeias e a sua maquinaria pesada que terão de se adaptar e depressa.


Para já, há prioridades a não esquecer:

- a capacidade das lideranças europeias passarem da lógica da finança para a lógica da economia, o que implica impedir a movimentação ilícita de capitais no próprio coração da Europa;
- a forma como se vai lidar com a Grécia, depois dos erros cometidos, deixando os gregos respirar e viver a sua escolha pela Europa;
- a Alemanha passar a colaborar numa plataforma mais abrangente do que a económica (a moeda) e numa perspectiva de longo-prazo, tal como tem dado o exemplo no acolhimento a refugiados;
- a eficácia da prevenção de quaisquer interferências na campanha das presidenciais francesas e de outras eleições europeias, e da propagação de uma cultura nacionalista.


A fórmula proposta é: pensar como cidadãos do mundo, agir como cidadãos europeus.


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

O falso dilema nacionalismo - multiculturalismo e a equação identificação cultural - colaboração - inovação cultural




O conceito de nacionalismo serviu historicamente o poder e permitiu a delimitação de fronteiras.
Mais recente, o conceito de multiculturalismo serviu para promover a coexistência pacífica de diferentes culturas sem que se exija a cada uma a perda da sua identidade cultural, e até indicando as vantagens da sua interacção.

Contrapor nacionalismo e multiculturalismo sempre foi um falso dilema. Podemos desmontá-lo ao desmontar os próprios conceitos e ao identificar as suas bases.

O nacionalismo entendido como: 
- delimitação territorial de um determinado país, é definido hoje como soberania nacional e a questão prende-se com a política e a economia; 
- preservação de identidade cultural não tem qualquer base histórica, pois a própria cultura de um país já é uma mistura de muitas culturas diversas (Portugal é um óptimo exemplo disso). Trata-se, assim, de querer congelar o tempo num determinado período histórico, com os seus símbolos e valores, e tudo pelo poder e influência.
- defesa étnica, à flor da pele, é uma recusa do contacto com populações de outros continentes, mas este facto nunca é afirmado abertamente.

E será que as sociedades multiculturais são uma novidade histórica? 
Não coexistiram no médio oriente diversas tribos num mesmo espaço territorial? É o que nos dizem os historiadores em documentários. Mesmo que existisse uma estratificação social, a coexistência era pacífica.
Cidades como Alexandria, culturalmente e cientificamente inovadora, não era uma sociedade multicultural?
Atenas, não era uma sociedade multicultural?
E saltando para o séc. XX temos Paris no seu apogeu desde o final do séc. XIX, Londres a partir dos nos 70, Berlim depois dos anos 90.
Na América, Nova Iorque e São Francisco, dois exemplos de inovação cultural.

Mas podemos impor aos cidadãos que querem viver num determinado tempo histórico (os anos 60 franceses, os anos 70 ingleses, os anos 80 americanos, por exemplo), que se adaptem ao séc. XXI? Não, nem sequer é necessário. É que a questão não é sequer social, é política e económica. É essa a confusão. 
Foi o thatcherismo que atirou o Reino Unido para o Brexit ao esquecer a maior parte dos seus cidadãos, não os imigrantes.
Foi a má gestão política e económica da UE que deu fôlego ao nacionalismo de Le Pen, não os imigrantes ou os refugiados.
E foi Wall Street, um sistema financeiro desregulado e a globalização que atiraram parte da América, que vivia da indústria, para os braços de interesses de grupos internacionais de agenda desconhecida, não os imigrantes latinos.


Depois de desmontado o falso dilema, a equação que fica é a da identificação cultural - colaboração - inovação cultural.

Identificação cultural: hoje podemos escolher a cultura que melhor ressoa nos nossos neurónios e nas nossas emoções e afectos. Não estamos limitados a uma única cultura e forma de ver o mundo ou lidar com os outros. 

Colaboração: podemos todos coexistir na mesma casa, o planeta, na base do respeito mútuo. Há lugar para todos, desde que respeitados estes princípios: a universalidade dos direitos humanos em primeiro lugar; a delimitação territorial, que pode ser negociada mas não decidida unilateralmente; os acordos ambientais, cujo não cumprimento deve ser fortemente penalizado.

Inovação cultural: estamos sempre a aprender com a interacção, a cultura é movimento. 








terça-feira, 5 de julho de 2016

Assédio moral contra países do sul


Gostei de saber ontem, numa reportagem da TVI e numa entrevista a Isabel Moreira na TVI24, que o assédio moral foi recentemente criminalizado e integrado no crime mais amplo da perseguição.
Nesta criminalização já vamos com um atraso de uma década relativamente a outros países europeus, mas isto também se explica culturalmente. Não aturámos pacificamente o assédio moral do anterior governo?, dos discursos do anterior PM?, das conferências de imprensa de Gaspar e de Albuquerque?
Agora assistimos, nós e a Espanha, a uma pressão política ilegítima da CE e do Eurogrupo. A Espanha está em negociações para formar governo, Portugal tem um governo recente.

O assédio moral implica uma perseguição reiterada, é o que temos vindo a sofrer da CE e das intervenções dos comissários e do presidente do Eurogrupo, desde o início do novo governo. 
O assédio moral implica um agressor e uma vítima, uma relação de poder e dependência, força e fragilidade.
O assédio moral tem um objectivo, neste caso é político: um governo conservador na Espanha e uma mudança de governo em Portugal.
  
Esta demonstração de força da CE revela, na realidade, uma fraqueza: vendo-se impotente para lidar com o Brexit, uma ferida aberta no coração da UE, tenta mostrar a sua força onde pode bater, ou seja, nos mais fracos.
Já vimos o que fizeram ao povo grego, apesar do povo grego referendar a vontade de permanecer na UE. A humilhação que lhes foi infligida teve todos os ingredientes do assédio moral. E do double bind, estratégia de manipulação que anula e fragiliza.

Se a CE e o Eurogrupo continuarem nesta perseguição ilegítima, a quem podemos recorrer? Há algum mecanismo que nos possa defender? Exactamente, é este o perigo de estar integrado numa UE que não respeita as regras dos tratados (igualdade) nem tem a noção de equilíbrio, de colaboração e de oportunidade.
Uma comunidade pressupõe ainda a noção de bem comum. Ora, prejudicar Portugal e Espanha, assim como a Grécia, também é prejudicar os restantes países da zona euro.

Talvez o Brexit revele a resposta das populações esquecidas pela centralização do poder e pela globalização que agravou o desequilíbrio na distribuição dos recursos (aumento exponencial das desigualdades sociais).







domingo, 26 de junho de 2016

Brexit, um sinal de mudança cultural, política e económica





Esta foi uma semana de emoções fortes: a 5ª feira do referendo inglês, a 6ª feira do Brexit, o domingo das eleições legislativas em Espanha.

O Brexit tem sido dramatizado mas não compreendido. Depois de ouvir muitas reacções e opiniões, o Brexit começa a surgir, aos meus neurónios curiosos, como um sinal de mudança cultural, política e económica profunda. Esta mudança já se iniciou e vai comprometer grandes organizações centralizadas e burocráticas como a UE.
A relação local-global e indivíduos-organizações está a mudar com a tecnologia e a comunicação em rede.

A UE podia ter escolhido um caminho mais equilibrado e flexível nos acordos económicos e políticos e nos tratados que os países foram assinando, mas isso impediria a arquitectura económica do euro e o poder teria sido distribuído e equilibrado, e não centralizado em Bruxelas e nos países ricos e influentes.

A cultura da austeridade, em que os cidadãos foram penalizados pelos erros financeiros em cima da má gestão política, não ajudou nada à imagem da UE.
A forma incompetente e desorganizada como se lidou com os refugiados, atingindo o cúmulo de um acordo cínico com a Turquia, revelou a cultura da indiferença. O dinheiro vale mais do que as pessoas. Dinheiro em troca de pessoas. As pessoas não contam.

Criticam agora os ingleses por querer sair da Europa. Mas eles não saem da Europa, saem da grande organização UE. E se os acordos forem orientados por responsáveis competentes podem conseguir-se vantagens para todos.




terça-feira, 10 de maio de 2016

Europa: as boas notícias primeiro






O Partido Pirata tornou-se um franchizing político: Suécia, Berlim, Islândia. Democracia baseada na transparência, no empowerment dos cidadãos, na participação, nas redes sociais. É, sem dúvida, uma cultura política do séc. XXI.
Em Londres ganhou o Labour Party.

Estas são as boas notícias da Europa. As más aí vão:

A Europa deu argumentos ao PM da Turquia para a acusar de "cruel" ao "fechar as portas aos refugiados".
A Grécia não consegue a compreensão do Eurogrupo, nem depois de ter acolhido milhares e milhares de refugiados apesar da sua situação económica precária.
Verifica-se um ressurgimento preocupante da extrema-direita nos países do norte e centro e, a sul, na Grécia.
A Espanha vai ter de repetir eleições.
Obama vem ao Reino Unido e traz o TTIP na pasta.

Ricardo Paes Mamede lembrou no Números do Dinheiro desta semana os benefícios da integração europeia em programas como o Erasmus e os subsídios para a investigação. Mas logo depois lembrou o caminho escolhido pelas instituições europeias, sobretudo a partir da crise financeira de 2008.

Ninguém revelou muito entusiasmo a falar da Europa na televisão. A Europa política, económica e financeira, o projecto inicial de colaboração entre os países, tudo isso foi adulterado pelos tecnocratas e pela finança. E os políticos foram atrás.

Claro que todos juntos somos mais fortes. E que seria óptimo ver o projecto original a desenhar-se de forma saudável. Mas o que vemos é um edifício metálico à prova de informação e transparência. Trata-se de um poder centralizado que não responde perante instituição alguma. Apesar de ter um parlamento.



segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Viram-se gregos para passar a sua mensagem à CE, ao BCE e ao Eurogrupo

O que os nossos amigos gregos tiveram de suportar para conseguir passar a sua mensagem dentro da suposta união europeia...
Duas eleições e um referendo no espaço de 9 meses.
Um suspense infernal do Eurogrupo até ao último minuto.
Limitação de levantamentos diários no multibanco.
Prensados contra a parede para aceitar a fórmula falhada.
Instabilidade no parlamento, dissidências e clarificação.

A mensagem dos gregos: queremos continuar a pertencer à UE, manter-nos no euro, ter condições de uma economia equilibrada e saudável e de um futuro viável para os nossos filhos e netos.

A fórmula falhada que lhes foi imposta, assim como a todos os países intervencionados e aos outros países da eurozona em geral, considera as variáveis dos gregos impossíveis de contemplar. 
Pertencer à UE e à eurozona não permite uma economia equilibrada e saudável nem um futuro viável.
Pertencer à UE e à eurozona não permite sair da lógica financeira em que a economia serve para a alimentar.
Pertencer à UE e à eurozona não permite flexibilidade que respeite as diferenças e especificidades de cada país.
Pertencer à UE e à eurozona não permite qualquer tipo de negociação (ganha-ganha), só a capitulação (ganha-perde).

Os gregos são hoje a antecipação do que nos espera.
Os seus desafios de Hércules são os desafios que nos esperam.

A mensagem dos gregos está agora mais viva do que nunca: há um povo que acredita ser possível uma outra fórmula que conjuga o euro com crescimento económico equilibrado e sustentável.

Mesmo considerando os constrangimentos que o euro nos impõe, há outras fórmulas. Porque não debatê-las abertamente, saltando por cima das regras absurdas de tratados que aliás nunca foram respeitados? Porque não tentar desenhar e verificar cenários possíveis para os países da eurozona? Em colaboração e não em confronto e imposição? Respeitando as diferenças e especificidades de cada país? Com flexibilidade e rigor e não com rigidez?







segunda-feira, 31 de agosto de 2015

A verdadeira dimensão da política

Por esta altura, caros Viajantes, já perceberam que a política é a área que mais me inspira. É que a política é muito mais do que a politiquice que nos rodeia.

Qual é a verdadeira dimensão da política? E o que é a verdadeira política?

A política é a gestão do colectivo e tudo o que a envolve, desde uma pequena comunidade, uma cidade, uma freguesia, até ao país, à Europa comunitária.
A política implica decisões que têm consequências no colectivo, na vida das pessoas e no seu futuro. 
As decisões são, pois, fundamentais e de grande responsabilidade. Seguem prioridades, que, por sua vez, seguem valores, uma ideia de comunidade, de organização social ideal, e implicam escolhas.

A nossa politiquice, seja a nível do país seja a nível da Europa comunitária, optou pela gestão financeira, colocar a economia a pedalar para a finança, e desequilibraram a organização social, a vida das pessoas e o seu futuro.
Agora vêm-nos falar de reequilíbrio social: reduzir as desigualdades sociais. Alguém acredita?
É que não é assim que se fazem as cousas. Ah, precisamos de um Gil Vicente para desfazer a nossa politiquice...

Quando ouvirem as propostas da coligação, à dimensão da politiquice e não da verdadeira política, reparem no formato do marketing (é uma lição sobre marketing), no seu colorido, no refrão (que se decora facilmente). Essa é a única mensagem válida: não é com vinagre que se apanham moscas.
Imaginem estas personagens que vão falar à universidade de Verão, a ensaiar ao espelho lá em casa, palavra por palavra, expressão facial, sorriso confiante, gestos convincentes. Reparem que são apenas personagens de uma série de televisão, cozinhada e enlatada previamente. E como as suas frases até têm deixas para a reacção do público (aqui é para rir, por exemplo).    

Quando se coloca a economia a pedalar para a finança, portanto, dependente da finança, está a fazer-se uma escolha de organização social e a arriscar as vidas das pessoas e o seu futuro num modelo em tudo instável e perigoso. Porque serão sempre as pessoas a pagar a factura no fim da linha.

Precisamos de uma nova cultura política, de uma nova gestão do colectivo, de novos modelos que procurem, desde o início, o equilíbrio. 
O equilíbrio está na génese do modelo, não é qualquer coisa que agora vamos fazer, umas medidas avulsas para enganar papalvos.

Precisamos igualmente de inventar uma nova economia, que não dependa da lógica selvagem, instável, desequilibrada da finança.







domingo, 28 de junho de 2015

Cidadãos europeus: plano B, C e D

E de repente perdemos o pé e toda a realidade que nos era familiar surge-nos agora completamente alterada. Vivíamos na ilusão de uma certa previsibilidade. Digo ilusão, porque a incerteza tornou-se a norma na Europa: "os mercados estão nervosos"... "os juros subiram"... "o BCE injectou mais n mil milhões nos bancos"... 
Tudo gira à volta da lógica financeira, mutável e volátil, minuto a minuto.

Para já, UE, CE, BCE, FMI, Eurogrupo, já não serão vistos como entidades competentes e responsáveis para prevenir situações críticas, para aprender com os erros, para negociar e fechar acordos.
Dito de outro modo, os cidadãos europeus perderam a ilusão sobre a capacidade das instituições europeias e internacionais de prevenir a tempo ou agir de forma rápida e eficaz em situações de emergência.

O que aprendemos quando perdemos a ilusão da protecção? Quando descobrimos que as instituições europeias e internacionais se movimentam na lógica financeira e não na economia real? A economia real que é a nossa vida concreta, a nossa sobrevivência, o nosso futuro? Isso mesmo, tentamos encontrar formas viáveis e criativas de sobrevivência.

O primeiro grande desafio: como manter a calma, a reflexão e a sensatez, em tempos de grande receio e incerteza? É que estas capacidades estão na base das melhores decisões.

Reflectir: enquanto cidadãos europeus, estamos todos na mesma plataforma instável. É nossa responsabilidade procurar um plano B, um plano C, e mesmo um plano D.
Com que recursos? Tecnologias de informação e comunicação; rapidez de raciocínio, flexibilidade e criatividade das novas gerações e a nova cultura da colaboração.

Planos B, C e D:

Plano B - é o mais difícil porque se trata de construir sobre ruínas em alguns países e regiões. Economia destruída sem substituição por outra. Classe média na pobreza. Recursos entregues a privados. Na actual situação de emergência da Grécia: pagamento ao FMI dos tais 1,7 mil milhões de euros, o equivalente a uma conta num qualquer paraíso fiscal da Europa. Como as instituições europeias e internacionais não querem ir por aí e aguarda-se o resultado do referendo, há que resolver isso por outro lado. Logo a seguir e dependendo do resultado do referendo: preparar uma fonte de financiamento alternativa, outro tipo de crédito. O mais provável é que este plano B já tenha sido iniciado pelo governo grego.

Plano C - começar a preparar desde já (e este plano já inclui os países mediterrânicos), a possibilidade da saída do euro. Esta saída já devia ter sido preparada, aliás, aos primeiros sinais do fiasco do euro. Aqui as soluções podem mesmo passar por desenhar economias não baseadas na lógica do sistema financeiro, e mesmo relativamente independentes de um sistema que só produziu desequilíbrios que já atingiram o limite do sustentável a todos os níveis.

Plano D - criar uma cultura de colaboração entre países e regiões, propondo soluções viáveis e ajudando a concretizá-las, isto é, passar da lógica das emoções reactivas à construção de novas comunidades inter-países e inter-regiões, úteis e eficazes. As novas gerações já funcionam nesta nova lógica.







domingo, 11 de maio de 2014

Será que num futuro próximo poderemos estar perante a escolha entre o euro e a democracia?

Aqui referi que não saberia responder se a questão do euro era ou não central no debate sobre como a união europeia se afastou do projecto inicial. Entretanto, depois de ouvir as diferentes perspectivas, torna-se cada vez mais evidente para mim que, mais cedo ou mais tarde, a permanência no euro se vai tornar insustentável. A tal ponto que a escolha se fará entre o euro e a democracia na Europa, como refere Emmanuel Todd nesta conferência da Harper:



Para este antropólogo social e historiador, especialista em demografia, não se trata apenas de uma crise económica potenciada pela moeda única, mas de uma verdadeira crise social e cultural. Destaca as principais diferenças culturais entre franceses e alemães por exemplo, entre uma sociedade individualista e uma sociedade colectivista, uma sociedade pouco eficiente e uma sociedade muito eficiente. Refere também os preconceitos culturais norte-sul que entretanto surgiram na Europa e expõe os erros do projecto inicial. A sua proposta é um regresso à solidariedade regional e local, depois do tsunami da globalização.

Temos verificado que o euro se tornou um assunto tabu, excepto nalguns programas eleitorais, mas o pior que nos podia acontecer, e estamos muito mais vulneráveis do que a França, era não estarmos minimamente preparados para a possibilidade de uma saída forçada pelas circunstâncias. Deveríamos estar a pensar num plano B.

terça-feira, 22 de abril de 2014

O novo mundo descentralizado e o novo equilíbrio instituições - indivíduos





Começamos a percepcionar à nossa volta um novo mundo que começa a sobrepor-se ao que nos têm imposto como único. Este novo mundo está já a alterar as nossas vidas e a lógica de certas áreas de actividade. Também se alteram as relações entre produtor e consumidor. Assim como o equilíbrio global - local, corporações - comunidades, instituições - indivíduos. Todas estas alterações terão um impacto na economia, na finança, na política, as áreas onde o poder se tem concentrado.
E no entanto, estas áreas onde o poder se tem baseado mantêm a sua lógica obsoleta e um discurso desfasado da realidade actual, insistindo que somos nós que temos de nos adaptar.

No nosso país, por exemplo, esta desfocagem do essencial e da realidade que já nos estrutura hoje, revela-se dramática porque estamos a esgotar um tempo precioso, uma janela de tempo que se encurta a cada dia que passa.
O tema actual no país é, compreensivelmente, o balanço de 40 anos do 25 de Abril, até porque se verifica uma distância cada vez maior partidos políticos - cidadãos eleitores. A democracia vive aqui tempos de uma fragilidade enorme em termos de representatividade e legitimidade. Um dos nossos especialistas na Constituição, Freitas do Amaral, aponta mesmo para a necessidade de se formarem novos partidos, para se recriar um novo sistema democrático representativo.
Já poucos acreditam que os actuais se consigam reformar por dentro.

Nesta nova tendência da descentralização, vemos em contra-mão a UE, uma organização pesada, complexa, burocrática, que também se distanciou dos cidadãos europeus e que sempre evitou dar-lhes voz em questões fundamentais. Agora depara-se com o preocupante cenário do ressurgimento de extremismos políticos.
Um novo equilíbrio instituições - cidadãos vai implicar necessariamente uma mudança na UE e no euro. Menos poder centralizado em gabinetes, aliás menos gabinetes e menos funcionários, mais flexibilidade e proximidade com os países, regiões, comunidades. A relação entre países e regiões só pode melhorar com uma descentralização progressiva. 
Portanto, não são os cidadãos que se terão de adaptar ao mundo que nos querem impor, dos mercados, dos grandes bancos, dos grandes grupos económicos, das troikas e dos governos que lhes prestam vassalagem. São precisamente esses grupos que se terão de adaptar ao novo mundo que já nos rodeia.   

Agrada-me pensar que o novo mundo descentralizado, de pessoas e comunidades ligadas em tempo real, permite maior capacidade de cada um organizar a sua vida de forma satisfatória e gratificante. Visualizo esse novo mundo potencialmente inclusivo, na lógica da colaboração e partilha. A minha esperança baseia-se na constatação que as pessoas comuns se relacionam melhor entre si do que as instituições e corporações. 
Posso destacar vários exemplos que propositadamente vou seleccionar à área da filantropia. Porquê? Porque a lógica do mundo que nos querem impor está de tal forma impregnada culturalmente que até nesta área da beneficência, fazer o bem digamos assim, mantém-se uma espécie de propaganda e marketing, mas também de um neo-colonialismo subliminar:


Se repararmos, a palavra "pobre" estigmatiza e diminui o outro em vez de o animar e fortalecer. É a atitude paternalista de quem se dirige a alguém que precisa de ser ensinado e apoiado. Não há uma troca de experiências e sabedoria, não há uma relação entre iguais na sua condição humana. 
O caso dos inúmeros campos de refugiados é outra mancha na dignidade humana. Há campos que se mantêm passados muitos anos da intervenção de emergência, como é o caso do Haiti, onde muitas famílias vivem ainda em tendas e pagam renda por isso... isto é, há quem lucre à custa da manutenção de uma situação precária e frágil.
Escolhi este exemplo de uma família síria apanhada numa tragédia mais recente:


  

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

União bancária, o controle total dos cidadãos europeus

Cá está a tecla da solução, martelada pelo governo: a união bancária vai resolver as actuais dificuldades de alguns países europeus, incluindo o português.
Estas instituições e estas iniciativas já mostraram o seu verdadeiro rosto metálico e frio. Por isso, quando os gestores políticos nos mentem descaradamente já percebemos que eles já são irrelevantes, o próprio parlamento é irrelevante, quem manda são essas entidades estranhas a tudo o que é humano e vital.
A história irá dar-lhes um lugar e uma classificação, pois só se justificaria esta atitude de cumplicidade se lhes tivessem aplicado um chip sub-cutâneo que os tivesse programado para debitar a grande mentira e participar na grande ilusão.
Repito: por cá, os gestores políticos de governos sucessivos foram bons alunos de Bruxelas sabendo quais as consequências da sua gestão incompetente e irresponsável.

Como já aqui referi, ninguém na UE assume o próprio falhanço do "sonho europeu". Ninguém se responsabiliza pela situação precária de milhões de europeus, de países sacrificados, regiões sacrificadas, gerações sacrificadas.
Mas a austeridade que nos surge como um grande falhanço começa agora, com esta insistência na união bancária que vai salvar os países e "segurar" o futuro, a ser perspectivada como uma estratégia político-financeira.

Pensem comigo: de que outra forma os cidadãos europeus aceitariam sequer esta ideia totalitária? Já imaginaram o poder de controle que estas personagens e grupos não identificados nem identificáveis vão ter sobre as vidas de milhões de cidadãos? As vidas concretas, de pessoas concretas, que eles ignoraram completamente?
Personagens e grupos que assistiram indiferentes a pessoas a perder o seu trabalho, as suas casas, os novos sem-abrigo, os novos excluídos, os jovens sem futuro, a fome a generalizar-se?
Personagens e grupos não identificados nem identificáveis que enriqueceram, de forma selvagem e escandalosa, sobre essa destruição sistemática de vidas concretas?
Para que os cidadãos europeus aceitassem entregar as suas vidas e o seu futuro e das suas famílias foi preciso explorá-los, depois assustá-los, para agora lhes prometerem um "seguro de vida", a maravilhosa união bancária, a solução fantástica.

Interessante George Orwell ter previsto este cenário no seu 1984, continentes a funcionar como grandes blocos geo-políticos a lutar entre si, prevendo o caminho da massificação, e não da diversificação como naturalmente esperaríamos se a democracia entrasse na fórmula da organização futura.
Massificação e alienação, o poder e o controle completamente centralizado e desconhecido, é esse o segredo destas iniciativas.

Troika, eurogrupo, BCE, FMI, gabinetes inacessíveis onde se decide tudo o que diz respeito às populações dos países europeus, mas a que os próprios interessados, os cidadãos, não têm lugar.
Mas já andam a preparar as próximas eleições europeias, como se de uma democracia se tratasse. O marketing político já começou a teclar, mas não convence. Os cidadãos europeus já perceberam que estão fora das decisões sobre a sua própria vida e futuro. Os cidadãos europeus só contam como contribuintes e para dar o sangue e os ossos para pagar o negócio da dívida.

Interessante coincidência, ontem revi o filme The International, com o Clive Owen, um investigador determinado que descobre graves irregularidades num grande banco. A lógica do funcionamento destas instituições foi muito bem desmontada no filme:




Dá que pensar, não dá? Que estratégias poderão escolher hoje os cidadãos para se defender desta grande armadilha que lhes estão a preparar na Europa?
Que mecanismos democráticos ainda existem, no seu país e/ou nas organizações europeias em que possam confiar?
Para já, unir-se na sua comunidade e noutras comunidades, partilhar informação, criar estratégias adequadas e eficazes, apoiar-se mutuamente:





domingo, 8 de dezembro de 2013

Por quanto tempo ainda se conseguirá manter a grande ilusão?

Há fenómenos terrestres que me conseguem surpreender, um deles é a incrível capacidade dos humanos se auto-iludirem. Toda a ciência e tecnologia a que hoje têm acesso não parece ter qualquer efeito na sua capacidade de ler a realidade e de antecipar cenários e de se prepararem para escolher aquele em que a sua sobrevivência é mais viável. Mesmo que não quiséssemos ser tão dramáticos, poderíamos apenas considerar a escolha entre cenários confortáveis e desconfortáveis, embora muitos de nós, que não temos essa maravilhosa capacidade de nos auto-iludirmos, saibamos que se trata de uma escolha entre cenários viáveis e inviáveis.

A grande ilusão é alimentada pela informação oficial e apoiada pela ciência e pela tecnologia. Por isso é que a consciência colectiva da realidade só será possível com uma mudança cultural profunda. Esse é o grande desafio do séc. XXI. Temos as ferramentas científicas e tecnológicas, mas falta-nos o essencial: a base cultural, uma consciência abrangente da realidade, uma consciência humana da prioridade da vida sobre a morte, porque no final da linha é disso que se trata.


Hoje o poder é equivalente à capacidade de destruir, não de construir, de sugar recursos naturais e humanos com a sofreguidão e a grosseria mais básicas, invadir e apropriar-se de um espaço colectivo e público, de mandar legislar a seu favor, de colocar em marcha a propaganda e o entretenimento nos canais de televisão e nos sites e redes sociais. 

Alguns filósofos já tinham antecipado a sociedade-espectáculo e antes deles George Orwell já nos tinha mostrado até onde o poder demente pode chegar, e apenas através da observação das grandes potências da altura. Esse poder demente e destruidor, segundo Orwell, apenas se pode manter com o terror, o medo colectivo, a mecanização do trabalho ao nível da escravatura, a ausência de núcleos familiares ou comunitários, e a vigilância. Este é um cenário-limite, um sinal de alarme.
Até no cinema de ficção científica os cenários são, invariavelmente, tiranias, destruição, guerras, violência, um caos em que a vida nada vale, em que o objecto e a sua posse definem o valor de um indivíduo. 
Já vimos isto na história dos povos conquistadores e dos conquistados. Mas podemos ficar mais perto, no séc. XX, nem precisamos ir mais longe. O olhar do tirano é um olhar avaliador, o que vale isto no mercado dos objectos?, esta é a sua cultura de base. É uma cultura que descende de forma directa dos povos que escravizavam outros povos. As pessoas passam a ser apenas avaliadas como objectos, o que produzem, por quanto tempo, qual o seu prazo de validade produtiva. É para isso que servem os povos, as massas, para produzirem, contribuírem para um qualquer PIB ilusório que só se reflecte na manutenção das elites: os que puxam os cordelinhos e os que aparentemente governam e legislam.



Tinha prometido falar aqui da taxa de natalidade, lembram-se? Pois é aqui que entra a taxa de natalidade que tanto preocupa a Pordata. A taxa de natalidade é a que mantém a lógica da corrente, a lógica do prazo de validade dos povos e das massas. O futuro do país é, assim, avaliado pela diferença velhos/reformados sobre jovens/produção/contribuintes. Os casais portugueses em idade fértil já só produzem 1,8 filhos para a lógica produtiva e contributiva. Pessoalmente até me admira que haja jovens a apostar assim no futuro do país ao ponto de arriscar ter um filho num país que não aposta neles, que assiste impassível a despedidas no aeroporto todos os dias. 

Como TPC proponho: cruzem a taxa de natalidade com a taxa de desemprego jovem, e estamos a falar de jovens qualificados, e acrescentem a esses dados os dados da geração anterior a esta, a geração dos 500 euros, também eles qualificados. A seguir, cruzem a taxa de natalidade e a taxa de desemprego e a média dos salários destas duas gerações com a taxa de emigração que atingiu os níveis dos anos 60. 
Se nos querem evidenciar a viabilidade do país, é estes dados cruzados e comparados que nos têm de mostrar, não é apenas a taxa de natalidade.

O país e a sua viabilidade? O país entrou no clube europeu sem condições para isso e as próprias condições de ingresso só o penalizavam a médio e longo prazo. Aqui começou a grande ilusão (para não utilizar a expressão que seria mais adequada, a grande mentira).

O país foi sempre bom aluno de Bruxelas, desde o início. O falhanço actual do país deve ser, pois, considerado, o falhanço dos gestores políticos nacionais e europeus. Todos falharam, ponto final. Todos alimentaram a grande ilusão e continuam a querer mantê-la. Não são eles que nos irão dizer a verdade. Até porque já desenharam os cenários para o país e para a Europa. E nesses cenários não cabem os cidadãos, esses são os figurantes, os papalvos que acreditam que o ano que vem é que é, que o desemprego já está a diminuir, que a economia já está a dar sinais de vida, que a austeridade valeu a pena (esta é a mais cínica de todas, sobretudo para as crianças que passaram fome, os jovens que fazem biscates, os novos escravizados em quintas duvidosas, as gerações sacrificadas, expressão que retirei a Chris Hedges, as sacrifice zones). E já agora, por falar em sacrifice zones, se pegarem no mapa da Europa e o colarem numa parede lá de casa, podem ir pregando os pionaises coloridos a identificar as sacrifice zones europeias. Primeiro, são países, facilmente identificáveis, depois serão cada vez mas localizadas e atingirão comunidades de países ricos, os subúrbios das cidades, as zonas esquecidas do território, as que não produzem, as mais envelhecidas, as que não têm recursos naturais nem humanos para explorar rapidamente, para sugar, para esgotar. Porque essa é a lógica da cultura dominante actual na Europa, não se iludam.

Será que os cidadãos europeus ainda podem criar uma nova cultura que privilegie a vida em vez da morte, a criatividade em vez da exploração, as pessoas em vez dos objectos, as comunidades em vez do egocentrismo, uma gestão colectiva de equipas constituídas por pessoas saudáveis e que revelem maturidade e responsabilidade, em vez dos actuais imaturos egocêntricos que servem a cultura dominante?

Não será com a UE, a CE, o BCE, nem mesmo o PE, a meu ver. Nem mesmo com os seus discursos de circunstância sobre a "pobreza". É na linguagem que utilizam que revelam a sua cultura de base, a linguagem do poder. A "pobreza" é precisamente mantida pela sua própria gestão ao retirar, uma a uma, as possibilidades de cada cidadão gerir a sua vida, recuperar a sua vida, resgatar a sua vida. A sua única vida. 
Espero que as gerações sacrificadas lhes respondam à letra quando lhes vierem com a converseta: a austeridade valeu a pena